domingo, 10 de março de 2013

O problema das estradas, caminhos e pontes romanas.


Sem o devido enquadramento histórico, demográfico e político, qualquer calçada pode ser chamada de romana.

Excerto de:  
Resende, Nuno- Fervor & Devoção: Património, culto e espiritualidade nas ermidas de Montemuro (séculos XVI a XVIII). Porto: Universidade do Porto,  2012. Dissertação de doutoramento em História da Arte Portuguesa. Disponível em-linha.
[…]
A discussão sobre o trajecto das vias romanas em Portugal constituiu um dos assuntos mais debatidos na historiografia e na arqueologia ao longo do último século. Concomitante a este debate foi a destruição quase compulsiva do património viário que pudesse ajudar a esclarecer este obscuro ponto da história da engenharia.
Desde o período da Regeneração que os velhos traçados e o seu revestimento foram sendo substituídos ou desmantelados para dar lugar a novas vias, edificadas com recurso a novas técnicas e novos materiais. A alteração da paisagem e da percepção do homem que agora transita pelas novas vias, a outras velocidades e com recurso a outros meios de transporte menos propícios à observação, tem deturpado a leitura da paisagem de tal forma que qualquer calçada remanescente é confundida com via antiga. A sua conservação, a inexistência de documentação específica sobre a planificação destas estradas ou caminhos, e a ausência total de estudos sobre a sua concepção e construção, deixaram mais dúvidas do que aquelas que foi possível esclarecer apenas com recursos às conhecidas fontes clássicas.
De resto, o mesmo pensamento aplica-se a períodos posteriores, nomeadamente à Idade Média e ao período moderno. Se muito pouco se sabe sobre as estradas medievais (e nesta medievalidade incluímos a presença multi-étnica, desde os Suevos aos Muçulmanos), menos ainda logramos vislumbrar sobre a edificação da estrutura viária moderna e contemporânea anteriores às planificações conceptualizadas no Liberalismo.
Na região de Montemuro são incipientes os estudos sobre a rede viária mormente a existência de vias romanas tenha preocupado alguns investigadores. Sobre tais canais se fundamentaria a posterior circulação, como se os homens dos séculos seguintes fossem inaptos ou incapazes de utilizarem ou melhorarem o legado técnico que receberam. Sempre actual e pertinente, portanto, a crítica de C. A. Ferreira de Almeida: «terrível obsessão considerarem-se todas as calçadas velhas como romanas como se estas fossem eternas e como se depois dos romanos se não construíssem outras. Obsessão mais comum ainda considerarem-se romanas todas as velhas pontes como se a Idade Média tivesse ignorado a sua construção ou fosse, económicamente, impotente para as fazer.»(1)

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

A égua moralizadora e o filho do barão.



Jaime Augusto Teixeira Correia Pinto Tameirão Valado foi o sexto filho do 3.º Barão do Valado, Augusto Correia Pinto Tameirão e de sua mulher Josefina Henriqueta de Sousa Basto, dos viscondes da Trindade. Ambas famílias proeminentes na sociedade portuense, os Valados e Trindades ocupavam as funções principais no governo da cidade e, como tal o futuro de Jaime, nascido em 1874, parecia auspicioso. Porém, a autobiografia que ele publicou em 1908 quando o próprio tinha apenas 34 anos, revela uma vida agitada e bastante excêntrica face ao que as convenções protocolares oitocentistas requeriam.
A obra  A Minha Vida, editada como já referimos em 1908, foi escrita num tom coloquial, directo e mesmo crú, abordando as peripécias da vida boémia e desregrada do jovem Jaime, nascido no Porto, na rua Formosa, mas com ascendência em Cinfães. Começando por narrar a infância, depois a vida como sportsman e a idade adulta enquanto empregado no Ultramar, entre Luanda e Lourenço Marques, Jaime Valado não se coíbe de falar do que entende ser e (devia parecer) a Mulher, alongando-se nos seus vários amores e "casamentos".
Tendo estudado em Lamego, não deixa de revelar as suas inúmeras afrontas, justificadas pela idade e pelo estatuto. Um dia convidou "um preto" a ser seu "creado com a condição de" o "levar e trazer todos os dias a cavallo, ao Lyceu". E prossegue, descrevendo:
"Justo e contractado o escarumba, eis que um dia appareci montado no Gipp, como o baptisei, com grande galhofa e applausos dos meus companheiros, mas não, sem ter sido altamente insultado por aquelle bom povo, que entre muitas censuras me diziam: Se quer andar a cavello, compre um burro; agora n'uma alma de Deus! § A tudo eramos impassíveis, eu e o burro".
Jaime faz questão de frisar estas suas irreverências, gabando-se delas e das rusgas e sovas que dera ou ameaçara dar aos seus superiores. Nada podia contra este dandy fidalgo que que insurgia contra tudo e todos os que o contrariassem.
A única vez que quase perdera a cabeça foi em Cinfães, por volta de 1884, quando uma égua do feitor o derrubou. E para rematar o episódio Jaime escreveu: Ahi teem V. Ex.ªs a razão por que trago a cabeça inclinada sobre a esquerda, porque se cahisse sobre a direira seria para ahi que a inclinaria. O senhor fidalgo", como era reverencialmente tratado por terras de Cinfães (e como ele próprio faz questão de recordar) termina a sua apologia anunciando um capítulo com o título "O meu futuro", a que se segue uma página quase em branco com a única frase ? A Ti e a Deus pertence.
Talvez a mensagem fosse dirigida a Maria Cândida Pereira Leite, com quem o jactancioso biógrafo se consorciou, senhora certamente da alta sociedade, pois conquanto Jaime se gabe de várias conquistas e diga que todas as mulheres têm um encanto escondido, "as sopeirinhas e costureirinhas [...] muito mesmo muito bonitas [...] ou cheiram a estrugidos ou teem os dedos picados das agulhas".
Porém o seu futuro foi curto,  já que faleceria pouco anos depois de ver editada a sua biografia, em 1913.
Certamente para mal da fogosa família dos barões do Valado, de quem ainda viremos a falar...

BIBLIOGRAFIA CITADA
VALLADO, Jayme - A Minha Vida (1874-1908). [Edição do autor], Porto, 1908.

Pode descarregar este artigo em formato PDF aqui.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Boassas e a sua "Casa"

https://docs.google.com/viewer?a=v&pid=sites&srcid=ZGVmYXVsdGRvbWFpbnxudW5vcmV6ZW5kZXxneDo3OGY5N2RmYThmY2RkZjY0
«Boassas e a sua Casa:  
breve história da ermida de Nossa Senhora da Estrela» (2.ª versão)
(clique sobre a imagem para aceder ao texto)

domingo, 6 de janeiro de 2013

Ponte barroca de Covelas: 1762-2012.



Ponte de Covelas: imagem colhida na margem direita.



Não obstante ser já um monumento icónico do concelho de Cinfães e nomeadamente do vale do Bestança (constitui o símbolo de uma associação local), passaram despercebidos os 250 anos da construção da ponte de Covelas. A estrutura que alguns autores consideraram românica (e até romana!) é afinal um belo pastiche medieval do período barroco, monumental e elegante passagem pétrea que o gosto de uma família local legou para honra do seu nome e serviço dos povos vizinhos. Levantada em cavalete, imita a estrutura das pontes românicas e góticas, como a que existiria nas Pias e a que ainda subsiste sobre o rio Cabrum, quase na sua foz.
Foi mentor da obra o padre Diogo de Sequeira e Vasconcelos, como testemunha a inscrição sulcada no gracioso medalhão colocado a meio da ponte, no remate das guardas do lado norte:

ANO D 1762
ESTA PO.NTE MAND.OU FAZER O REVERENDO.DIOGO CERQUEIRA E VASCONCELOS.PELA SUA ALMA E DE SEOS.PAIS CAPITAM MOR FRANCISCO MEN.DES PINTO E VASCONCELOS E DONA MARIA.NNA DE CERQUEIRA E ATAIDE.MORADORES QUE FORÃO NA SUA QUINTA.DO AZIVEIRO FREGUEZIA. DE FERREIROS.LUGAR DE.COVELLAS ASSESTIO A.FATURA DA OBRA SEU PRIMO FRANCISCO DE SOUZA PINTO.CAPITAM MOR DE TENDAIS
Medalhão comemorativo da edificação.

O padre Diogo era, como se refere na inscrição, filho dos senhores da casa de Aziveiro que ali tinham morado e, em 1762, já não eram vivos. O pai do eclesiástico falecera em 1703 e a esposa deve tê-lo seguido no decurso da primeira metade do século XVIII. Em 1762 perfazia o padre Diogo os sessenta anos, uma vez que nascera em 1702, sexto e último filho do casal. A descendência da casa do Aziveiro extinguiu-se completamente por terras de Ferreiros de Tendais, mas isso é outra história a contar.
O colaborador, que assistiu à feitura da ponte de Covelas, foi o primo do padre Diogo Sequeira, Francisco de Sousa Pinto, capitão-mor de Tendais. Este morava na margem esquerda da Bestança, no lugar de Valverde e partilhava com o padre Diogo os bisavós maternos Simão Álvares Juzarte e Filipa Mendes de Vasconcelos, casal nobre do lugar de Covelas. Embora não conheçamos nem os artistas que trabalharam na ponte, nem o seu custo, é provável que o capitão-mor de Tendais contribuísse monetariamente para a conclusão da obra que era, afinal, um bem público necessário numa terra pouco dotada de infraestruturas de passagem capazes de assegurar o trânsito de pessoas e bens. Como tal, o nobre Francisco da casa de Valverde não deixou de se recordar na obra, como se infere da inscrição na edícula edificada à entrada da ponte, na margem esquerda:


176[2]
Este
Painel d almas
Mandou fazer po
R sua devoçom
Francisco Men
Des de Souza Pinto
Capitam mor de TENDAES

Francisco Mendes Pinto deixou sucessão do seu casamento com D. Ricarda Inácia Ramalho, mas toda se extinguiu sem descendência como no caso dos seus primos do Aziveiro. Apenas linhas ilegítimas perpetuaram a linhagem dos Mendes e Vasconcelos na freguesia de Tendais. Mas como atrás referimos isso é outra história.
A única lembrança física desta poderosa família dos séculos XVII e XVIII, para além das arruinadas casas de Covelas e Valverde é esta magnífica ponte, um dos mais belos exemplares da intervenção privada e da mestria dos mestres canteiros que a ergueram.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Papiano Carlos (1918-2012)

Bustelo e a sua lage
Papiniano Carlos, representante da corrente literária neo-realista, faleceu hoje aos 98 anos, na cidade do Porto. A sua ligação a Cinfães era conhecida pelo conto "A aldeia longínqua", centrada numa povoação-imaginada, mas bem real nas condições, muitas delas permanecentes como marca de uma culturalidade difícil de despir. Aqui fica, pois umm excerto deste conto, tão actual como quando Papiano Carlos o escreveu (1946).

A estrada oferece ainda o seu leito amarelo, de saibro batido - mas resta ao abandono, e até os lobos a desprezam nas noites de breu, em que vêm uivar nas cumieiras desoladas.
E Bustelo, a que veio inalterável desde o fundo dos tempos, esmagada debaixo do peso ecessivo daquele céu, até ao dia em que o mundo a foi inquietar, sem lhe dar remédio, torna, em silêncio, ao desamparo de sempre. Apesar dos postes esguios que se perfilam adormecidos, segurando fios que inútilmente seguem para a cidade longínqua, e da estrada que as chuvas começam a esbarrondar, - Bustelo está ali pasmada, mais pasmada que nunca, ao fundo do buraco onde nasceu.
Tornam os lobos, a uivar dolorosamente nas noites longas de Inverno.
Tornam os homens a fecundar os ventres das mulheres, ao fim de cada parto, e a erguer os braços para fincar as mãos de encontro àquele véu inexoràvelmente baixo.
Tornam os bandos de pombos bravos - a deixar-lhes nos olhos uma mensagem insolúvel.
Torna o horizonte a fechar-se em volta - e Bustelo ali fica pasmada mesmo no cabo do mundo. E espera entretanto.

Papiniano Carlos,  Terra com sede, 2.ª edição (1969).

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Pormenores de Cinfães #1

Representação heráldica de D. Manuel de Vasconcelos Pereira, bispo de Lamego.

D. Manuel de Vasconcelos Pereira, nasceu em Castro Daire em 1731 e faleceu em Lamego, no ano de 1786. Foi bispo desta diocese a partir de 1772. Em Cinfães assinala-se a sua presença através desta representação heráldica, no ático do retábulo de Santo António, localizado na capela do mesmo nome, panteão dos morgados de Veludo. Aquando das obras de construção da nova igreja, concluída em 1776, foi edificada uma nova capela e nela este retábulo que recorda a devoção antoniana dos morgados de Veludo. D. Manuel era cunhado de D. Doroteia Joaquina Malheiro de Melo que em 1776 era a representante do vínculo de Veludo, senhora da casa do Enxertado em Resende, como se alude na inscrição aposta do lado esquerdo (do do ponto de vista do observador) do retábulo de Santo António (ver imagem abaixo). D. Doroteia era casada com o desembargador juiz da coroa, João Ferreira Ribeiro de Lemos, ambos pais do 1.º Barão de Lazarim, homónimo de seu tio, o prelado de Lamego.

Retábulo de Santo António na igreja matriz de Cinfães

domingo, 19 de agosto de 2012

OS SEMBLANOS: a epopeia de uma família

De origem toponímica (existe a povoação da Semblana no Alentejo), profissional (de semblar, ofício do ensamblador) ou mesmo corruptela de Sempliciano, como afirma Felgueiras Gaio o apelido Semblano parece ser estranho à região de Oliveira do Douro até ao século XVII. Contudo, através do enlace de António Barbedo Pereira com Maria de Amaral, ocorrido a 25 de Agosto de 1690, inicia-se uma profícua descendência de Semblanos a sul do Douro. A epopeia desta família, marcada por uma ascensão social vertiginosa, é um exemplo que pode não ser extravagante à sociedade hierarquizada do Antigo Regime, mas certamente não constituiria a norma para uma ascenção social dificultada pela organização em famílias e pureza de sangue, que a Igreja e o Estado acalentavam.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Dicionário Biográfico e Histórico de Cinfães: António Jorge de Figueiredo


Chalé de São João, Valverde, f. Tendais.

António Jorge de Figueiredo
(Meridãos, f. Tendais 1873 - Valverde, f. Tendais, 1937)
Bacharel em direito, escritor e pensador

António Jorge de Figueiredo nasceu a 8 de Outubro de 1873, no lugar de Meridãos da freguesia de Tendais. Filho de Manuel da Silva de Figueiredo e de sua mulher Augusta de Jesus Jorge de Resende (ou Gouveia), António descendia, por parte do pai e da mãe, das principais famílias de proprietários de Tendais: os Jorges, naturais do Outeiro de Meridãos e os Mendes de Vasconcelos, de Mourelos (1). Fruto de um casamento consanguíneo, prática comum numa freguesia geográfica e socialmente fechada, o pequeno António foi criado num universo de onde dificilmente se distanciaria: misto de oficiais do extinto município de Tendais e proprietários que frequentemente exerciam, sem menosprezo pelo seu estatuto, o trabalho braçal da lavoura. O desafogo financeiro e a condição dos seus pares permitiram-lhe obter uma educação apenas acessível a alguns, facto o que lhe permitiu seguir estudos superiores, findos os preparatórios (2) .

segunda-feira, 9 de julho de 2012

segunda-feira, 2 de julho de 2012

A posta (correio) em Cinfães no século XIX.



Em 1868 a gestão dos correios dividia-se em Círculos e estando já formado o actual concelho de Cinfães, o território deste sujeitava-se aos círculos postais de Coimbra e Viseu. A Coimbra seguia a posta expedida de Souselo, Travanca e Nespereira. Todo o restante município servia-se dos serviços centrais de Viseu. Consultando a sinalética do mapa ficamos a saber que existia uma direcção de correio na cabeça do concelho (Cinfães) e três delegações nas freguesias de Piães (Sanfins), Ferreiros de Tendais e Nespereira. Boassas era a única aldeia que auferia da vantagem de possuir correio fora daquela repartição.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Muralhas das Portas


Cinfães, Alhões

O rectângulo a vermelho indica vestígios da muralha ainda visíveis


As ruínas da muralhas sitas próxima às Portas de Montemuro, entre as freguesias de Alhões e Ester e na divisão dos concelhos de Cinfães e Castro Daire, constituem provavelmente um dos melhores e maiores exemplares conhecidos de uma estrutura destinada especificamente à defesa da linha do Douro no período da Reconquista. Embora a maioria dos autores, desde Amorim Girão (1940)[1], João de Almeida (1943)[2], João Silva (1963)[3] e J. Inês Vaz (1986)[4] tivessem sugerido, quer a fábrica castreja, quer a organização daquele espaço pelos Romanos, o certo é que o carácter inacabado da construção, a ausência de traçado urbanístico e o posicionamento roqueiro estratégico (do local avista-se o maciço da Estrela), apontam para o resultado de uma situação bélica transitória. Somos, por isso, incitados a aceitar a teoria de um investigador local, Arnaldo Rocha [5] que em artigo de 1992 imputou aos contendores do período pré ou pós Reconquista o planeamento e edificação desta estrutura, posicionando-a cronologicamente entre os séculos VIII e XI. Afinando um pouco mais esta datação, diríamos (apontando exemplos conhecidos para a zona de Leão) que a muralha das Portas (com um perímetro de cerca de 1500 metros quadrados) serviu o avanço cristão por volta do ano mil, quando o Douro foi transposto pelos cristão e os castelos de São Martinho e Lamego (na encosta norte do Montemuro) foram tomados por Fernando I, em 1057. É assim provável que, escolhendo um local estratégico, num dos pontos mais elevados da serra de Montemuro (ela própria uma muralha) à cabeceira de um vale de fractura, os exércitos cristãos tenham iniciado uma fortaleza ou atalaia como forma de consolidar as posições a sul do Douro e que tal obra, mercê da rápida tomada da Beira (demorou apenas um ano a tomar Viseu, depois da cidade de Lamego) ficasse incompleta.
Trata-se de um singular exemplar de arquitectura militar que, pelo seu significado histórico, simboliza o apaziguar da região e a abertura às novas correntes artísticas.
Infelizmente desde que se multiplicaram as estradas de acesso para acesso às torres eólicas este património (não obstante a sua classificação) tem vindo a ser alvo de constantes agressões.

NOTAS

domingo, 10 de junho de 2012

Um tributo aos "senhores" do rio.

Octávio L. Filgueiras, Escamarão, 1956

Se grande parte do actual município de Cinfães viveu da serra, a outra dependeu do rio.
Na foto o lançamento de um rabão carvoeiro, fotografia de Octávio Lixa Filgueiras, colhida no Escamarão, 1956 (publicada em Filgueiras, Octávio Lixa- A propósito da protecção mágica dos barcos. Lisboa: Centro de Estudos da Marinha, 1978.)

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Uma fotografia literária.

Cozinha de habitação cinfanense, 2012. (C) Nuno Resende
Um só aposento, acanhado e imundo, frio como um in pace, e que a noite parece ter forrado todo com pedaços do treva. O sobrado, de largas tábuas de castanho, repelindo-se hostilmente, é mole, e falso como o lodo. Cobrem as tábuas espessíssimos estratos de um mixto singular de poeira, lama, água e detritos orgânicos, escorregadio e pérfido, todo orografado em saliências altas como serras, em abismos gretados e torvos, lembrando o revolto planisfério da lua... aqui áspero como lixa, além untuoso como o talco, acolá instável como um pântano, ali duro e polido como a lousa... mais difícil certamente de pisar sem risco iminente de queda do que esses pavimentos axaroados dos salões aristocráticos de Yeddo.
E um dos laços mais perigosos armados pelo serrano contra o habitante da cidade, o sobrado do seu casebre. A bota nada pode com ele; só o amplo tamanco ferrado é capaz de o dominar.
Pois tinha destas cordilheiras gordurosas a nossa casa de Aveloso. A direita da porta de entrada acumulavam-se em desordem uma cadeira de pau, um escabelo, um ancinho desdentado, três enormes chocalhos de cobre para gado, e uma foice roçadoira; de encontro à parede contígua, duas enormes arcas de carvalho, altas como homens e amplas como toneis, cambadas e ciclópicas, com os braços das fechaduras pendentes como orelhas de um velho quadrúpede estropiado, guardavam religiosamente, de séculos, as colheitas anuais da batata e do centeio; na parede seguinte, frente à porta, dois exíguos beliches, à ilharga um do outro, separados da sala por uns fumados tabiques de pinho, alojavam dois catres asquerosos, verdadeiro asilo da porcaria, conúbio inviolável de mil coisas esfarrapadas, gordas e repugnantes, que a luz nunca ousara tocar, e cujo só aspecto despertava visões aterradores de intoleráveis suplícios de sucção; depois, ao terceiro muro, o da esquerda, encostava a lareira, flanqueada por dois longos bancos de pinho, ressequidos e hirtos como troncos de árvores de floresta por onde tivesse lavrado um incêndio. A esquerda da porta, uma mesa cambaleante sustentava loiças de barro vidrado ou negro, de formas rudimentares; do tecto fuliginoso, deixando ver o reverso das telhas, pendem dois presuntos e algumas peças de fumeiro; e o forno a um ângulo da casa, e a gamela do pão junto à muralha, e a dobadoira ali ao meio, e uma prateleira pejada de pequeninos queijos, e os panos de serguilha, e as mantas de lã, e os promontórios da boroa, e os cajados, e a grande talha de barro com o azeite, e a panela com as cinzas, e a caixa dos ovos, e a do sal, e muitos outros miúdos objectos matizando e atravacando aquele recinto lôbrego e desconfortável, dando-lhe a fisionomia própria, o tom particular.
E havia ainda, lutuosamente pesando por toda a parte, essa côr fumada e mortal que nas longas veladas de inverno vai assentando a combustão incompleta e lenta dos enormes brasidos da lareira.

Abel Botelo, Mulheres da Beira, da Colecção Lusitânia. Sobre Abel Botelho ver o que escrevemos aqui.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

À volta dos "pelourinhos" de Tendais.

 Pseudo-pelourinho de Tendais (1997), lugar de Enxidrô
[foto de Nuno Resende (c) todos os direitos reservados]

Na segunda edição do livro do sr. Eurico de Ataíde Malafaia, Pelourinhos Portugueses, publicado pela Imprensa nacional da Casa da Moeda em 2005, vem indicado como pelourinho de Ferreiros de Tendais, uma coluna que foi içada em 1997 à beira da estrada no lugar de Enchidrou (a grafia é do mesmo autor). Ora nem este pilar teve alguma vez a função de pelourinho, nem Enchidrou se situa ou situou alguma vez no concelho de Ferreiros de Tendais. O lugar chamado Enxidrô situa-se no termo da freguesia de Tendais e integrou o extinto concelho com o mesmo nome e limites, que alçou a sua picota no lugar de Quinhão, junto à igreja matriz, próximo do adro, como convinha a castigos públicos que se praticavam nos pelourinhos. O que resta do pelourinho de Tendais, fomos encontrá-lo em 2000, metade a servir de esteio ao portão de uma habitação particular e a outra parte arrumada numa corte, então a ser desmantelada. E era este o seu estado.


 Presentemente desconhecemos o destino destas pedras que, compostas, deveriam constituir um pelourinho do período manuelino, muito semelhante ao do próximo concelho do Rossão:

[Fotografia extraída de: Correia, Alberto; Alves, Alexandre; Vaz, João Inês- Castro Daire. Viseu: Câmara Municipal de Castro Daire, 1995.]

Sobre o paradeiro do pelourinho de Ferreiros de Tendais - que poderia estar localizado nas imediações da igreja, como em Tendais - nada sabemos. O único original, tido como pelourinho do concelho de Sanfins, é o de Nespereira. O da vila é uma reconstituição livre do século XX, pois deveria estar nas proximidades da casa de audiências primitiva, abaixo de Minhoso e á vista da velha igreja matriz. Oportunamente voltaremos a este assunto.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Um aroma a santidade.



Gazeta de Lisboa Occidental, n.º   19 (ano de 1738)

Dona Mariana Cláudia Teodora de Serpa Pinto nasceu na Torre de Chã, freguesia de São Pedro de Ferreiros de Tendais em 1666 (foi baptizada a 29 de Agosto desse ano) e faleceu na casa do Outeiro, lugar de Boassas, freguesia de Oliveira do Douro 5 de Abril de 1738. Tinha sido casada com o sargento-mor das ordenanças do concelho de Ferreiros de Tendais, António de Serpa Pinto da Costa . Foram pais de, entre outros, José Carlos de Serpa Pinto da Costa, trisavô do explorador Alexandre Alberto Serpa Pinto (1846-1900).

terça-feira, 10 de abril de 2012

Cinfães: apontamentos genealógicos #1

A 29 de Outubro de 1727 casaram-se, na igreja de Tarouquela, António Moreira  e Andreza Pinta (1). O nubente era natural do lugar da Lage, freguesia de Moimenta, onde moravam os seus pais Francisco Moreira e Maria Cardosa. A noiva, embora o reitor de Tarouquela o não refira, teria nascido na freguesia de Real, de onde provinha quer o seu pai, João Pinto de Miranda, solteiro, quer a sua mãe, Ana Nunes, viúva. A circunstância de o matrimónio não se realizar na terra da contraente leva-nos a pensar que, visto tratar-se de uma filha ilegítima, ocorresse o enlace fora da tradição e longe dos círculos familiares da nubente.

[Continuar a ler...]

terça-feira, 6 de março de 2012

Souselo em 1870.

Este livro é verdadeiramente aldeão. Nasceu duma saudade, - da saudade dos ocasos e das alvoradas duma aldeia e anima-se duma esperança, - de ser lido nos alegres serões daquelas serras, que o inspiraram. Costumei-me a viver no campo desde pequeno. Sozello, uma aldeola que se não encontra, talvez, na carta de Portugal, era tudo o que podia haver de suavemente delicioso para a minha infância, mea regna, como diria qualquer estudantinho de latinidade.
Sol fóra, quando as aves davam rebate nas ramagens do pomar, levantava-me para ir ter com os camponeses meus amigos e mais madrugadores do que eu. Já os encontrava na safra alegres e infatigáveis. Conversávamos todos os dias. Eu escutava-os, sentado a vê-los trabalhar e eles, sempre cuidadosos na tarefa, contavam casos de bruxas, histórias de amores e tradições do sítio.
Admirava-me eu de que nenhum dos ceifeiros aproveitasse uma aberta para se queixar da sorte que os obrigava ao rude trabalho (…)
(…) os camponeses do sítio, - qual rapazinho era eu.
Vão passados quatorze anos depois disto e durante tão longo período tenho continuado a visitar a aldeia de longe a longe.
Não encontro diferença: a mesma serenidade e o mesmo remanso! Muitos dos camponeses do sítio, que eram velhos há quatorze anos, morreram já. Escuso de perguntar por um que falte; é olhar para o cemitério e vêr uma cruz de mais…
De resto está tudo como era: Os mesmos tectos colmados, o mesmo presbitério voltado ao ocidente e, em oposição ao presbitério, a mesma casa de escola, pequena como qualquer colmeia, a olhar para o levante, que é de onde aparecem os astros… Sempre se me afigurou que devera ser esta a verdadeira posição das escolas. E, de manhã ou de tarde, os mesmos murmúrios nas ramagens, a mesma festa no ar e a mesma tranquilidade no coração!

segunda-feira, 5 de março de 2012

Património que se perde.

Nota: a fotografia foi colhida de espaço público e, como especifica a legislação em vigor, não viola o direito à privacidade.  
Clique na imagem para aumentar.

Em 2004 "descobrimos" a quintã de Paredes (f. Oliveira do Douro), ou o que restava do edifício medieval foreiro à Comenda de Gundar (c. Amarante), provável herdeiro de uma torre senhorial que aqui existia. Passados oito anos, constatamos (embora nos fosse difícil reconhecer o edifício, tais as modificações que sofreu) que tinha sido ferozmente alterado: ao gracioso patim sucedeu um volumoso "contentor", acrescentados vãos, fechadas as juntas e (pasme-se) cimentadas as arestas limadas ou biseladas que datavam esta estrutura do século XVI - uma das poucas ainda existentes em território cinfanense. Não julgamos os seus proprietários, legítimos executores das obras. Mas talvez com um pouco de pedagogia por parte das autoridades que gerem e fiscalizam o património este crime urbanístico, histórico e cultural pudesse ser evitado. Infelizmente as entidades governamentais portuguesas continua a deixar desaparecer as únicas indústrias que podem ajudar  reverter o caminho para a crise: a Cultura e o Turismo.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

"Diversões carnavalescas em Cinfães" (1945)

Desde o dia de S. Sebastião até terça-feira de Entrudo, os rapazes e raparigas, em todos os domingos, fazem seus bailes, em casa própria ou alugada para êsse fim; e, durante o baile, divertem-se, jogando o Carnaval.
Aqui é costume dizer-se: - «S. Sebastião, laranja na mão» - para significar que neste dia (20 de Janeiro) começam os folguedos do Entrudo, em que, antigamente, predominava a chapauzada de água fria, e o jôgo das laranjas, arremessadas, às vezes, com grande violência, entre os foliões que, em algumas destas pugnas, bem se molestavam, quando pretendiam divertir-se.
As antigas cavalhadas de fantasiados vão sendo substituídas por grupos grotescos de mascarados, a cujos grupos não falta o velho da moca, que é fortemente tosado, na sua descomunal corcunda, pelos seus companheiros de folia, armados de bexigas de porco, com grande algazarra dos circunstantes que assistem à brincadeira.
O velho, empunhando a moca, defende-se como pode: mas não consegue pôr em debandada o grupo dos bexigueiros, que de todo o lado o acometem, com notável destreza.

Manuel de Castro Pinto Bravo

BRAVO, Manuel de Castro Pinto - Diversões carnavalescas em Cinfães. Douro Litoral, n.º 3    (1945), p. 58

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Dicionário Histórico e Biográfico de Cinfães: João Teixeira de Vasconcelos

Despercebido aos olhos de quem visita o cemitério de Cinfães, na sua secção mais antiga, está um vetusto mausoléu com inscrições que o tempo e o desinteresse ocultaram. Trata-se do jazigo de João Teixeira de Vasconcelos e de sua mulher, que a inscrição funerária descreve com as seguintes palavras:
Jazigo de João Teixeira de Vasconcellos professor
escriptor, latinista natural d'esta villa
e de sua mulher D. Ana Rita Emerenci
ana, de S. Romão d Arêgos Rezende
nascidos elle em 10 de Julho de 1804
e fallecido em 1 de fevereiro de 1881
ella em 8 de setembro de 1803
e falecida em 12 de [...] 188[0]?


Quem foi João Teixeira de Vasconcelos?
Como o seu epitáfio refere, foi um professor de latim que exerceu o seu magistério na primeira metade do século XIX. Nasceu em Cinfães (Dom Joaquim de Azevedo di-lo de Fornelos) (1), filho de Francisco José Teixeira, de Eiriz e de Ana da Silva e Vasconcelos, desta freguesia e concelho e aqui faleceu, na companhia do padre João Teixeira de Vasconcelos, seu filho, que era em 1881 abade colado nesta paróquia.
Como refere o seu biógrafo, Joaquim Caetano Pinto, que reclama para Resende a honra de tão ilustre pedagogo, João Teixeira foi humanista insigne e professor publico de Gramática Latina, tendo regido esta cadeira de 1828 a 1833 (2).
Em 1835 exerceu o seu múnus em Resende, tendo alcançado a jubilação em 1858, ano em que foi leccionar a cadeira de latim no Colégio da Formiga, lugar que ocupou durante cerca de um ano. Transitou, depois, para Castelo Branco tendo vivido e ensinado nesta cidade durante um decénio. Em 1869 deixou definitivamente o ensino, regressando a Cinfães. Embora se conheçam algumas traduções publicadas da sua autoria, João Teixeira de Vasconcelos apenas editou uma sebenta de Gramática:

Vasconcelos, João Teixeira de: Curso de Grammatica portugueza e latina, e de latinidade. Porto, Tip.  Commercial, 1837 [2 tomos num volume: o 1.° contém a Grammatica e o 2.ª a Latinidade].
B.N.L.: L. 24.860 P.

Notas:
(1) Cf. Azevedo, Joaquim de - Historia Eclesiastica da cidade e Bispado de Lamego. Porto: [Typographia do Jornal do Porto], 1877, p. 254-255.

(2) João Teixeira de Vasconcelos - em PINTO, Joaquim Caetano - Resende nas letras: autores, obras, antologia. Braga: [edição do autor], 1985.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Instituição da capela dos de Velude (1350)

No dia 16 de Março de 1756, o escrivão da Provedoria da Comarca de Lamego, José de Sequeira Pereira, dirigiu-se ao lugar do Enxertado, do concelho de Resende. Aí o esperava José de Melo Perestrelo, nobre senhor da casa daquele lugar e descendente dos Morgados de Velude, que na sua posse tinha cópia da escritura original da fundação do vínculo. Esta instituição definia, mais do que um conjunto de bens indivisíveis para usufruto do administrador, um conjunto de regras e património destinado à manutenção de um património religioso linhagístico. Em suma, tratava-se da fundação de uma capela - nos sentidos jurídico e físico do termo. Esta capela situava-se, então, no coxão da ossia da igreja de São João Baptista de Cinfães, onde o instituidor, Vasco Esteves de Matos e sua mulher deviam deitar-se para dormir o sono eterno. Embora a capela original já não exista, mercê das modificações setecentistas, ainda subsistem os dois moimentos, encaixados em dois arcossólios. Para salvaguardar o dito documento de instituição procedeu-se à sua transcrição no livro da Provedoria. Graças a este facto é-nos possível vislumbrar um pouco da vida e do quotidiano de um nobre de Cinfães no século XIV. Continuando a nossa política de pedagogia pela história, disponibilizamos aqui a transcrição paleográfica do traslado de 1756, devidamente anotado. Posteriormente publicaremos o testamento do primeiro morgado, Martim Esteves de Matos. Relembramos que, quer a transcrição, quer as anotações e o preâmbulo podem ser divulgados, mas não sem a devida citação.


TRANSCRIÇÃO
Respeitamos a ortografia e desdobrámos as abreviaturas. Os fólios e anotações à legibilidade ou estado do documento vão entre parêntesis rectos. Os negritos indicam que a palavra ou expressão segue desenvolvida em nota final.

1756, Março, 16 - Traslado da instituição de capela mandada fundar por Vasco Esteves de Matos nas notas do tabelião de Cinfães, Vicente Esteves, a 13 de Fevereiro de 1350 (o documento diz era de 1388).
Arquivo Histórico Municipal de Lamego, Livro da Provedoria, I, fólios 419-421.

[Continuar a ler...]

domingo, 15 de janeiro de 2012

Votação para melhor blogue regional/local de 2011


Estão abertas as votações no blogue Aventar para, entre outros, o melhor blogue regional de 2011. O História de Cinfães encontra-se entre os nomeados. As votações são até 21 de Janeiro. Podem votar aqui: http://aventar.eu/blogs-do-ano-2011/. Votar é também uma forma de levar o nome de Cinfães à blogosfera de qualidade por isso, desde já, o meu obrigado a todos.

O administrador
N.R.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Heráldica de famílias de Cinfães


Desenho heráldico das armas dos Pintos, ligados a Chã, lugarejo da freguesia de Ferreiros de Tendais. O esboço é da autoria de D. João Ribeiro Gaio, bispo de Malaca e foi incluído na sua obra Coplas às armas de Portugal, manuscrito do século XVI (acessível aqui). D. João Ribeiro Gaio deixou vasta descendência, alguma dela em Cinfães. Era seu bisneto Manuel de Vasconcelos Pereira (1640-1708), familiar do Santo Ofício e nobre proprietário da casa da Fervença, de quem falaremos noutra ocasião.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011


O lugar de Fundoais em 1914
Pintura a óleo sobre tela de Lima Machado Pereira (1877-1945).

Bibliografia cinfanense #10


 Alves, Maria José Galhano; Mota, Teresa; Osório, Conceição- Amândio Barbedo Galhano: 1908-1991. Uma vida, uma causa. Porto: CVRVV, 2005. ISBN 972-97940-4-9.

Foi recentemente (2005) lançado um catálogo alusivo à vida e obra do engenheiro agrónomo Amândio Barbedo Galhano (1908-1991) ligado à Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes. Irmão do antropólogo e fundador do Museu de Etnologia em Lisboa, Fernando Galhano (1904-1995) eram ambos descendentes de famílias de Cinfães (mais propriamente do lugar das Pias). Os Barbedos constituíam um clã com certa notabilidade na região. Foram médicos, eclesiásticos, advogados  e comerciantes, nomeadamente alguns deles destacados ourives na cidade do Porto, onde tinham loja aberta na rua das Flores. De um destes ramos de comerciantes, descendia o Eng.º Amândio Barbedo, como ele próprio refere: "Se na família de meu pai havia certas maneiras menos preconceituosas, a de minha mãe era genuinamente burguesa - avô de cepa duriense [*] com loja de ourives na Rua de Flores e avó saída de negociantes de mercearia por grosso na Rua de São João."
Embora o catálogo não refira expressamente a ligação a Cinfães (o que muito nos admira, não obstante publicar-se uma foto da casa dos Barbedos nas Pias, na página 21), certamente que o ambiente rural do vale do Bestança estimilou a sua curiosidade pela agronomia, curso que seguiu e onde singrou numa florescente carreira ligada à vitivinicultura.

[*] Embora se não refira, pode tratar-se de João Pereira Barbedo noticiado n'O Patriota Portuense em 1821: "João Pereira Barbedo, ourives do ouro, morador na rua das Flores desta cidade, declara ser falsa a notícia, inscrita no Astro da Luzitania, de que lhe aparecerem, algumas das peças que lhe roubara, na noite de 23 de Janeiro […], O Patriota Portuense, n.º 48 (1821).

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Uma viagem sem retorno?

1623, Abril, 2, Oliveira do Douro – Manda (testamento) que redigiu Pêro Rodrigues, abade de Oliveira, a pedido de Damião Cardoso, que tencionava partir para o Brasil. 
Arquivo Diocesano de Lamego, Paroquiais, f. de Oliveira do Douro, L.º 2.º (misto), fl. 139 v.º
Aos dous dias do mes de abril anno de mil e Seis/centos e Vinte E tres dentro Em minha casa estando eu / Pero Rodrigues abbade desta Igreja de São Miguel d oliveira apare/ceo Damião Cardoso filho que ficou de Cosme Ribeiro de / Villa nova E disse que elle estava Em todo Seu Siso E que / Se partia para o brasil E que não Sabia do que deos determinaria / que lhe fizesse Estes apontamentos para descargo de Sua Consciença / Ey como Cristão confessava a Santa Fee catholica E sendo / caso que elle fallecesse deixava que qua lhe dissesse quinze / missas repartidas Em tres officios scilicet cada hum de Sinco missas / E hua Seria cantada Com sua obrada E obradasse hum anno / quero dizer desse esmolla para E [...] E os domingos de / Hum anno a Conta de Sua Legitima E sendo Casa que Sua may / fosse morta o remanecente fiquasse a Seu irmão / baltesar Ribeiro E a Sua Irmãa Catarina Ribeira que / partão irmãa mente Isto disse para ante mim Sobre dito abbade / eu Pero Rodrigues a fiz de minha letra E assinei E fui testemunha / E Antonio filho de Antonio Martins da Bouça E domingos fernandes / da Castinheira E fis estes apontamentos neste Livro de / defuntos para que a todo o tempo se achasse não se acharão mais folhas

Damião Cardoso
Pero Rodrigues

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Uma cura milagrosa em Alhões.

Os habitantes do concelho de Cinfães, antes e depois de 1855, sempre se encomendaram, a si, à sua família e aos seus animais, a vários patronos e matronas, sobretudo à Virgem, mãe e auxiliadora. E não acorreram apenas aos santuários locais, como o da Senhora das Cales, em São Cristóvão, ou o da Senhora da Assunção, em Ruivais, Ferreiros. Iam multidões de cinfanenses às grandes romarias marianas, fosse a Lamego, à Senhora dos Remédios ou à Senhora da Lapa, nos planaltos da Nave. O caso de milagrosa cura de um cinfanense natural de Alhões, graças à intervenção de Nossa Senhora da Lapa ficou registado como memória de uma devoção que ultrapassou montes e vales:

"Manuel António Corrêa, de Alhões, concelho de Sinfães, achando-se, havia seis mezes, atacado de sezões, recorreu com toda a confiança a N. Senhora da Lapa, promettendo vir visitá-la no dia 11 de janeiro, se melhorasse. Com effeito, desde esse dia começou a trabalhar, e nunca mais foi acomettido d'essa doença. Para esta cura não tomou medicamentos alguns."

FERREIRA, Francisco Pinto, padre - Annaes de Nossa Senhora da Lapa. Lisboa: Papelaria Lá Becarre, 1901, p. 24.

Speech by ReadSpeaker