![]() |
| Sem o devido enquadramento histórico, demográfico e político, qualquer calçada pode ser chamada de romana. |
Excerto de:
Resende, Nuno- Fervor & Devoção: Património, culto e espiritualidade nas ermidas de Montemuro (séculos XVI a XVIII). Porto: Universidade do Porto, 2012. Dissertação de doutoramento em História da Arte Portuguesa. Disponível em-linha.
[…]
A discussão sobre o trajecto das vias romanas em Portugal constituiu um
dos assuntos mais debatidos na historiografia e na arqueologia ao longo do último
século. Concomitante a este debate foi a destruição quase compulsiva do
património viário que pudesse ajudar a esclarecer este obscuro ponto da
história da engenharia.
Desde o período da Regeneração que os velhos traçados e o seu
revestimento foram sendo substituídos ou desmantelados para dar lugar a novas
vias, edificadas com recurso a novas técnicas e novos materiais. A alteração da
paisagem e da percepção do homem que agora transita pelas novas vias, a outras
velocidades e com recurso a outros meios de transporte menos propícios à
observação, tem deturpado a leitura da paisagem de tal forma que qualquer
calçada remanescente é confundida com via antiga. A sua conservação, a
inexistência de documentação específica sobre a planificação destas estradas ou
caminhos, e a ausência total de estudos sobre a sua concepção e construção,
deixaram mais dúvidas do que aquelas que foi possível esclarecer apenas com
recursos às conhecidas fontes clássicas.
De resto, o mesmo pensamento aplica-se a períodos posteriores,
nomeadamente à Idade Média e ao período moderno. Se muito pouco se sabe sobre
as estradas medievais (e nesta medievalidade incluímos a presença multi-étnica,
desde os Suevos aos Muçulmanos), menos ainda logramos vislumbrar sobre a
edificação da estrutura viária moderna e contemporânea anteriores às
planificações conceptualizadas no Liberalismo.
Na região de Montemuro são incipientes os estudos sobre a rede viária mormente
a existência de vias romanas tenha preocupado alguns investigadores. Sobre tais
canais se fundamentaria a posterior circulação, como se os homens dos séculos
seguintes fossem inaptos ou incapazes de utilizarem ou melhorarem o legado
técnico que receberam. Sempre actual e pertinente, portanto, a crítica de C. A.
Ferreira de Almeida: «terrível obsessão considerarem-se todas as calçadas
velhas como romanas como se estas fossem eternas e como se depois dos romanos
se não construíssem outras. Obsessão mais comum ainda considerarem-se romanas
todas as velhas pontes como se a Idade Média tivesse ignorado a sua construção
ou fosse, económicamente, impotente para as fazer.»(1)




















