terça-feira, 23 de outubro de 2012

Pormenores de Cinfães #1

Representação heráldica de D. Manuel de Vasconcelos Pereira, bispo de Lamego.

D. Manuel de Vasconcelos Pereira, nasceu em Castro Daire em 1731 e faleceu em Lamego, no ano de 1786. Foi bispo desta diocese a partir de 1772. Em Cinfães assinala-se a sua presença através desta representação heráldica, no ático do retábulo de Santo António, localizado na capela do mesmo nome, panteão dos morgados de Veludo. Aquando das obras de construção da nova igreja, concluída em 1776, foi edificada uma nova capela e nela este retábulo que recorda a devoção antoniana dos morgados de Veludo. D. Manuel era cunhado de D. Doroteia Joaquina Malheiro de Melo que em 1776 era a representante do vínculo de Veludo, senhora da casa do Enxertado em Resende, como se alude na inscrição aposta do lado esquerdo (do do ponto de vista do observador) do retábulo de Santo António (ver imagem abaixo). D. Doroteia era casada com o desembargador juiz da coroa, João Ferreira Ribeiro de Lemos, ambos pais do 1.º Barão de Lazarim, homónimo de seu tio, o prelado de Lamego.

Retábulo de Santo António na igreja matriz de Cinfães

domingo, 19 de agosto de 2012

OS SEMBLANOS: a epopeia de uma família

De origem toponímica (existe a povoação da Semblana no Alentejo), profissional (de semblar, ofício do ensamblador) ou mesmo corruptela de Sempliciano, como afirma Felgueiras Gaio o apelido Semblano parece ser estranho à região de Oliveira do Douro até ao século XVII. Contudo, através do enlace de António Barbedo Pereira com Maria de Amaral, ocorrido a 25 de Agosto de 1690, inicia-se uma profícua descendência de Semblanos a sul do Douro. A epopeia desta família, marcada por uma ascensão social vertiginosa, é um exemplo que pode não ser extravagante à sociedade hierarquizada do Antigo Regime, mas certamente não constituiria a norma para uma ascenção social dificultada pela organização em famílias e pureza de sangue, que a Igreja e o Estado acalentavam.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Dicionário Biográfico e Histórico de Cinfães: António Jorge de Figueiredo


Chalé de São João, Valverde, f. Tendais.

António Jorge de Figueiredo
(Meridãos, f. Tendais 1873 - Valverde, f. Tendais, 1937)
Bacharel em direito, escritor e pensador

António Jorge de Figueiredo nasceu a 8 de Outubro de 1873, no lugar de Meridãos da freguesia de Tendais. Filho de Manuel da Silva de Figueiredo e de sua mulher Augusta de Jesus Jorge de Resende (ou Gouveia), António descendia, por parte do pai e da mãe, das principais famílias de proprietários de Tendais: os Jorges, naturais do Outeiro de Meridãos e os Mendes de Vasconcelos, de Mourelos (1). Fruto de um casamento consanguíneo, prática comum numa freguesia geográfica e socialmente fechada, o pequeno António foi criado num universo de onde dificilmente se distanciaria: misto de oficiais do extinto município de Tendais e proprietários que frequentemente exerciam, sem menosprezo pelo seu estatuto, o trabalho braçal da lavoura. O desafogo financeiro e a condição dos seus pares permitiram-lhe obter uma educação apenas acessível a alguns, facto o que lhe permitiu seguir estudos superiores, findos os preparatórios (2) .

segunda-feira, 9 de julho de 2012

segunda-feira, 2 de julho de 2012

A posta (correio) em Cinfães no século XIX.



Em 1868 a gestão dos correios dividia-se em Círculos e estando já formado o actual concelho de Cinfães, o território deste sujeitava-se aos círculos postais de Coimbra e Viseu. A Coimbra seguia a posta expedida de Souselo, Travanca e Nespereira. Todo o restante município servia-se dos serviços centrais de Viseu. Consultando a sinalética do mapa ficamos a saber que existia uma direcção de correio na cabeça do concelho (Cinfães) e três delegações nas freguesias de Piães (Sanfins), Ferreiros de Tendais e Nespereira. Boassas era a única aldeia que auferia da vantagem de possuir correio fora daquela repartição.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Muralhas das Portas


Cinfães, Alhões

O rectângulo a vermelho indica vestígios da muralha ainda visíveis


As ruínas da muralhas sitas próxima às Portas de Montemuro, entre as freguesias de Alhões e Ester e na divisão dos concelhos de Cinfães e Castro Daire, constituem provavelmente um dos melhores e maiores exemplares conhecidos de uma estrutura destinada especificamente à defesa da linha do Douro no período da Reconquista. Embora a maioria dos autores, desde Amorim Girão (1940)[1], João de Almeida (1943)[2], João Silva (1963)[3] e J. Inês Vaz (1986)[4] tivessem sugerido, quer a fábrica castreja, quer a organização daquele espaço pelos Romanos, o certo é que o carácter inacabado da construção, a ausência de traçado urbanístico e o posicionamento roqueiro estratégico (do local avista-se o maciço da Estrela), apontam para o resultado de uma situação bélica transitória. Somos, por isso, incitados a aceitar a teoria de um investigador local, Arnaldo Rocha [5] que em artigo de 1992 imputou aos contendores do período pré ou pós Reconquista o planeamento e edificação desta estrutura, posicionando-a cronologicamente entre os séculos VIII e XI. Afinando um pouco mais esta datação, diríamos (apontando exemplos conhecidos para a zona de Leão) que a muralha das Portas (com um perímetro de cerca de 1500 metros quadrados) serviu o avanço cristão por volta do ano mil, quando o Douro foi transposto pelos cristão e os castelos de São Martinho e Lamego (na encosta norte do Montemuro) foram tomados por Fernando I, em 1057. É assim provável que, escolhendo um local estratégico, num dos pontos mais elevados da serra de Montemuro (ela própria uma muralha) à cabeceira de um vale de fractura, os exércitos cristãos tenham iniciado uma fortaleza ou atalaia como forma de consolidar as posições a sul do Douro e que tal obra, mercê da rápida tomada da Beira (demorou apenas um ano a tomar Viseu, depois da cidade de Lamego) ficasse incompleta.
Trata-se de um singular exemplar de arquitectura militar que, pelo seu significado histórico, simboliza o apaziguar da região e a abertura às novas correntes artísticas.
Infelizmente desde que se multiplicaram as estradas de acesso para acesso às torres eólicas este património (não obstante a sua classificação) tem vindo a ser alvo de constantes agressões.

NOTAS

domingo, 10 de junho de 2012

Um tributo aos "senhores" do rio.

Octávio L. Filgueiras, Escamarão, 1956

Se grande parte do actual município de Cinfães viveu da serra, a outra dependeu do rio.
Na foto o lançamento de um rabão carvoeiro, fotografia de Octávio Lixa Filgueiras, colhida no Escamarão, 1956 (publicada em Filgueiras, Octávio Lixa- A propósito da protecção mágica dos barcos. Lisboa: Centro de Estudos da Marinha, 1978.)

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Uma fotografia literária.

Cozinha de habitação cinfanense, 2012. (C) Nuno Resende
Um só aposento, acanhado e imundo, frio como um in pace, e que a noite parece ter forrado todo com pedaços do treva. O sobrado, de largas tábuas de castanho, repelindo-se hostilmente, é mole, e falso como o lodo. Cobrem as tábuas espessíssimos estratos de um mixto singular de poeira, lama, água e detritos orgânicos, escorregadio e pérfido, todo orografado em saliências altas como serras, em abismos gretados e torvos, lembrando o revolto planisfério da lua... aqui áspero como lixa, além untuoso como o talco, acolá instável como um pântano, ali duro e polido como a lousa... mais difícil certamente de pisar sem risco iminente de queda do que esses pavimentos axaroados dos salões aristocráticos de Yeddo.
E um dos laços mais perigosos armados pelo serrano contra o habitante da cidade, o sobrado do seu casebre. A bota nada pode com ele; só o amplo tamanco ferrado é capaz de o dominar.
Pois tinha destas cordilheiras gordurosas a nossa casa de Aveloso. A direita da porta de entrada acumulavam-se em desordem uma cadeira de pau, um escabelo, um ancinho desdentado, três enormes chocalhos de cobre para gado, e uma foice roçadoira; de encontro à parede contígua, duas enormes arcas de carvalho, altas como homens e amplas como toneis, cambadas e ciclópicas, com os braços das fechaduras pendentes como orelhas de um velho quadrúpede estropiado, guardavam religiosamente, de séculos, as colheitas anuais da batata e do centeio; na parede seguinte, frente à porta, dois exíguos beliches, à ilharga um do outro, separados da sala por uns fumados tabiques de pinho, alojavam dois catres asquerosos, verdadeiro asilo da porcaria, conúbio inviolável de mil coisas esfarrapadas, gordas e repugnantes, que a luz nunca ousara tocar, e cujo só aspecto despertava visões aterradores de intoleráveis suplícios de sucção; depois, ao terceiro muro, o da esquerda, encostava a lareira, flanqueada por dois longos bancos de pinho, ressequidos e hirtos como troncos de árvores de floresta por onde tivesse lavrado um incêndio. A esquerda da porta, uma mesa cambaleante sustentava loiças de barro vidrado ou negro, de formas rudimentares; do tecto fuliginoso, deixando ver o reverso das telhas, pendem dois presuntos e algumas peças de fumeiro; e o forno a um ângulo da casa, e a gamela do pão junto à muralha, e a dobadoira ali ao meio, e uma prateleira pejada de pequeninos queijos, e os panos de serguilha, e as mantas de lã, e os promontórios da boroa, e os cajados, e a grande talha de barro com o azeite, e a panela com as cinzas, e a caixa dos ovos, e a do sal, e muitos outros miúdos objectos matizando e atravacando aquele recinto lôbrego e desconfortável, dando-lhe a fisionomia própria, o tom particular.
E havia ainda, lutuosamente pesando por toda a parte, essa côr fumada e mortal que nas longas veladas de inverno vai assentando a combustão incompleta e lenta dos enormes brasidos da lareira.

Abel Botelo, Mulheres da Beira, da Colecção Lusitânia. Sobre Abel Botelho ver o que escrevemos aqui.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

À volta dos "pelourinhos" de Tendais.

 Pseudo-pelourinho de Tendais (1997), lugar de Enxidrô
[foto de Nuno Resende (c) todos os direitos reservados]

Na segunda edição do livro do sr. Eurico de Ataíde Malafaia, Pelourinhos Portugueses, publicado pela Imprensa nacional da Casa da Moeda em 2005, vem indicado como pelourinho de Ferreiros de Tendais, uma coluna que foi içada em 1997 à beira da estrada no lugar de Enchidrou (a grafia é do mesmo autor). Ora nem este pilar teve alguma vez a função de pelourinho, nem Enchidrou se situa ou situou alguma vez no concelho de Ferreiros de Tendais. O lugar chamado Enxidrô situa-se no termo da freguesia de Tendais e integrou o extinto concelho com o mesmo nome e limites, que alçou a sua picota no lugar de Quinhão, junto à igreja matriz, próximo do adro, como convinha a castigos públicos que se praticavam nos pelourinhos. O que resta do pelourinho de Tendais, fomos encontrá-lo em 2000, metade a servir de esteio ao portão de uma habitação particular e a outra parte arrumada numa corte, então a ser desmantelada. E era este o seu estado.


 Presentemente desconhecemos o destino destas pedras que, compostas, deveriam constituir um pelourinho do período manuelino, muito semelhante ao do próximo concelho do Rossão:

[Fotografia extraída de: Correia, Alberto; Alves, Alexandre; Vaz, João Inês- Castro Daire. Viseu: Câmara Municipal de Castro Daire, 1995.]

Sobre o paradeiro do pelourinho de Ferreiros de Tendais - que poderia estar localizado nas imediações da igreja, como em Tendais - nada sabemos. O único original, tido como pelourinho do concelho de Sanfins, é o de Nespereira. O da vila é uma reconstituição livre do século XX, pois deveria estar nas proximidades da casa de audiências primitiva, abaixo de Minhoso e á vista da velha igreja matriz. Oportunamente voltaremos a este assunto.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Um aroma a santidade.



Gazeta de Lisboa Occidental, n.º   19 (ano de 1738)

Dona Mariana Cláudia Teodora de Serpa Pinto nasceu na Torre de Chã, freguesia de São Pedro de Ferreiros de Tendais em 1666 (foi baptizada a 29 de Agosto desse ano) e faleceu na casa do Outeiro, lugar de Boassas, freguesia de Oliveira do Douro 5 de Abril de 1738. Tinha sido casada com o sargento-mor das ordenanças do concelho de Ferreiros de Tendais, António de Serpa Pinto da Costa . Foram pais de, entre outros, José Carlos de Serpa Pinto da Costa, trisavô do explorador Alexandre Alberto Serpa Pinto (1846-1900).

terça-feira, 10 de abril de 2012

Cinfães: apontamentos genealógicos #1

A 29 de Outubro de 1727 casaram-se, na igreja de Tarouquela, António Moreira  e Andreza Pinta (1). O nubente era natural do lugar da Lage, freguesia de Moimenta, onde moravam os seus pais Francisco Moreira e Maria Cardosa. A noiva, embora o reitor de Tarouquela o não refira, teria nascido na freguesia de Real, de onde provinha quer o seu pai, João Pinto de Miranda, solteiro, quer a sua mãe, Ana Nunes, viúva. A circunstância de o matrimónio não se realizar na terra da contraente leva-nos a pensar que, visto tratar-se de uma filha ilegítima, ocorresse o enlace fora da tradição e longe dos círculos familiares da nubente.

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terça-feira, 6 de março de 2012

Souselo em 1870.

Este livro é verdadeiramente aldeão. Nasceu duma saudade, - da saudade dos ocasos e das alvoradas duma aldeia e anima-se duma esperança, - de ser lido nos alegres serões daquelas serras, que o inspiraram. Costumei-me a viver no campo desde pequeno. Sozello, uma aldeola que se não encontra, talvez, na carta de Portugal, era tudo o que podia haver de suavemente delicioso para a minha infância, mea regna, como diria qualquer estudantinho de latinidade.
Sol fóra, quando as aves davam rebate nas ramagens do pomar, levantava-me para ir ter com os camponeses meus amigos e mais madrugadores do que eu. Já os encontrava na safra alegres e infatigáveis. Conversávamos todos os dias. Eu escutava-os, sentado a vê-los trabalhar e eles, sempre cuidadosos na tarefa, contavam casos de bruxas, histórias de amores e tradições do sítio.
Admirava-me eu de que nenhum dos ceifeiros aproveitasse uma aberta para se queixar da sorte que os obrigava ao rude trabalho (…)
(…) os camponeses do sítio, - qual rapazinho era eu.
Vão passados quatorze anos depois disto e durante tão longo período tenho continuado a visitar a aldeia de longe a longe.
Não encontro diferença: a mesma serenidade e o mesmo remanso! Muitos dos camponeses do sítio, que eram velhos há quatorze anos, morreram já. Escuso de perguntar por um que falte; é olhar para o cemitério e vêr uma cruz de mais…
De resto está tudo como era: Os mesmos tectos colmados, o mesmo presbitério voltado ao ocidente e, em oposição ao presbitério, a mesma casa de escola, pequena como qualquer colmeia, a olhar para o levante, que é de onde aparecem os astros… Sempre se me afigurou que devera ser esta a verdadeira posição das escolas. E, de manhã ou de tarde, os mesmos murmúrios nas ramagens, a mesma festa no ar e a mesma tranquilidade no coração!

segunda-feira, 5 de março de 2012

Património que se perde.

Nota: a fotografia foi colhida de espaço público e, como especifica a legislação em vigor, não viola o direito à privacidade.  
Clique na imagem para aumentar.

Em 2004 "descobrimos" a quintã de Paredes (f. Oliveira do Douro), ou o que restava do edifício medieval foreiro à Comenda de Gundar (c. Amarante), provável herdeiro de uma torre senhorial que aqui existia. Passados oito anos, constatamos (embora nos fosse difícil reconhecer o edifício, tais as modificações que sofreu) que tinha sido ferozmente alterado: ao gracioso patim sucedeu um volumoso "contentor", acrescentados vãos, fechadas as juntas e (pasme-se) cimentadas as arestas limadas ou biseladas que datavam esta estrutura do século XVI - uma das poucas ainda existentes em território cinfanense. Não julgamos os seus proprietários, legítimos executores das obras. Mas talvez com um pouco de pedagogia por parte das autoridades que gerem e fiscalizam o património este crime urbanístico, histórico e cultural pudesse ser evitado. Infelizmente as entidades governamentais portuguesas continua a deixar desaparecer as únicas indústrias que podem ajudar  reverter o caminho para a crise: a Cultura e o Turismo.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

"Diversões carnavalescas em Cinfães" (1945)

Desde o dia de S. Sebastião até terça-feira de Entrudo, os rapazes e raparigas, em todos os domingos, fazem seus bailes, em casa própria ou alugada para êsse fim; e, durante o baile, divertem-se, jogando o Carnaval.
Aqui é costume dizer-se: - «S. Sebastião, laranja na mão» - para significar que neste dia (20 de Janeiro) começam os folguedos do Entrudo, em que, antigamente, predominava a chapauzada de água fria, e o jôgo das laranjas, arremessadas, às vezes, com grande violência, entre os foliões que, em algumas destas pugnas, bem se molestavam, quando pretendiam divertir-se.
As antigas cavalhadas de fantasiados vão sendo substituídas por grupos grotescos de mascarados, a cujos grupos não falta o velho da moca, que é fortemente tosado, na sua descomunal corcunda, pelos seus companheiros de folia, armados de bexigas de porco, com grande algazarra dos circunstantes que assistem à brincadeira.
O velho, empunhando a moca, defende-se como pode: mas não consegue pôr em debandada o grupo dos bexigueiros, que de todo o lado o acometem, com notável destreza.

Manuel de Castro Pinto Bravo

BRAVO, Manuel de Castro Pinto - Diversões carnavalescas em Cinfães. Douro Litoral, n.º 3    (1945), p. 58

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Dicionário Histórico e Biográfico de Cinfães: João Teixeira de Vasconcelos

Despercebido aos olhos de quem visita o cemitério de Cinfães, na sua secção mais antiga, está um vetusto mausoléu com inscrições que o tempo e o desinteresse ocultaram. Trata-se do jazigo de João Teixeira de Vasconcelos e de sua mulher, que a inscrição funerária descreve com as seguintes palavras:
Jazigo de João Teixeira de Vasconcellos professor
escriptor, latinista natural d'esta villa
e de sua mulher D. Ana Rita Emerenci
ana, de S. Romão d Arêgos Rezende
nascidos elle em 10 de Julho de 1804
e fallecido em 1 de fevereiro de 1881
ella em 8 de setembro de 1803
e falecida em 12 de [...] 188[0]?


Quem foi João Teixeira de Vasconcelos?
Como o seu epitáfio refere, foi um professor de latim que exerceu o seu magistério na primeira metade do século XIX. Nasceu em Cinfães (Dom Joaquim de Azevedo di-lo de Fornelos) (1), filho de Francisco José Teixeira, de Eiriz e de Ana da Silva e Vasconcelos, desta freguesia e concelho e aqui faleceu, na companhia do padre João Teixeira de Vasconcelos, seu filho, que era em 1881 abade colado nesta paróquia.
Como refere o seu biógrafo, Joaquim Caetano Pinto, que reclama para Resende a honra de tão ilustre pedagogo, João Teixeira foi humanista insigne e professor publico de Gramática Latina, tendo regido esta cadeira de 1828 a 1833 (2).
Em 1835 exerceu o seu múnus em Resende, tendo alcançado a jubilação em 1858, ano em que foi leccionar a cadeira de latim no Colégio da Formiga, lugar que ocupou durante cerca de um ano. Transitou, depois, para Castelo Branco tendo vivido e ensinado nesta cidade durante um decénio. Em 1869 deixou definitivamente o ensino, regressando a Cinfães. Embora se conheçam algumas traduções publicadas da sua autoria, João Teixeira de Vasconcelos apenas editou uma sebenta de Gramática:

Vasconcelos, João Teixeira de: Curso de Grammatica portugueza e latina, e de latinidade. Porto, Tip.  Commercial, 1837 [2 tomos num volume: o 1.° contém a Grammatica e o 2.ª a Latinidade].
B.N.L.: L. 24.860 P.

Notas:
(1) Cf. Azevedo, Joaquim de - Historia Eclesiastica da cidade e Bispado de Lamego. Porto: [Typographia do Jornal do Porto], 1877, p. 254-255.

(2) João Teixeira de Vasconcelos - em PINTO, Joaquim Caetano - Resende nas letras: autores, obras, antologia. Braga: [edição do autor], 1985.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Instituição da capela dos de Velude (1350)

No dia 16 de Março de 1756, o escrivão da Provedoria da Comarca de Lamego, José de Sequeira Pereira, dirigiu-se ao lugar do Enxertado, do concelho de Resende. Aí o esperava José de Melo Perestrelo, nobre senhor da casa daquele lugar e descendente dos Morgados de Velude, que na sua posse tinha cópia da escritura original da fundação do vínculo. Esta instituição definia, mais do que um conjunto de bens indivisíveis para usufruto do administrador, um conjunto de regras e património destinado à manutenção de um património religioso linhagístico. Em suma, tratava-se da fundação de uma capela - nos sentidos jurídico e físico do termo. Esta capela situava-se, então, no coxão da ossia da igreja de São João Baptista de Cinfães, onde o instituidor, Vasco Esteves de Matos e sua mulher deviam deitar-se para dormir o sono eterno. Embora a capela original já não exista, mercê das modificações setecentistas, ainda subsistem os dois moimentos, encaixados em dois arcossólios. Para salvaguardar o dito documento de instituição procedeu-se à sua transcrição no livro da Provedoria. Graças a este facto é-nos possível vislumbrar um pouco da vida e do quotidiano de um nobre de Cinfães no século XIV. Continuando a nossa política de pedagogia pela história, disponibilizamos aqui a transcrição paleográfica do traslado de 1756, devidamente anotado. Posteriormente publicaremos o testamento do primeiro morgado, Martim Esteves de Matos. Relembramos que, quer a transcrição, quer as anotações e o preâmbulo podem ser divulgados, mas não sem a devida citação.


TRANSCRIÇÃO
Respeitamos a ortografia e desdobrámos as abreviaturas. Os fólios e anotações à legibilidade ou estado do documento vão entre parêntesis rectos. Os negritos indicam que a palavra ou expressão segue desenvolvida em nota final.

1756, Março, 16 - Traslado da instituição de capela mandada fundar por Vasco Esteves de Matos nas notas do tabelião de Cinfães, Vicente Esteves, a 13 de Fevereiro de 1350 (o documento diz era de 1388).
Arquivo Histórico Municipal de Lamego, Livro da Provedoria, I, fólios 419-421.

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domingo, 15 de janeiro de 2012

Votação para melhor blogue regional/local de 2011


Estão abertas as votações no blogue Aventar para, entre outros, o melhor blogue regional de 2011. O História de Cinfães encontra-se entre os nomeados. As votações são até 21 de Janeiro. Podem votar aqui: http://aventar.eu/blogs-do-ano-2011/. Votar é também uma forma de levar o nome de Cinfães à blogosfera de qualidade por isso, desde já, o meu obrigado a todos.

O administrador
N.R.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Heráldica de famílias de Cinfães


Desenho heráldico das armas dos Pintos, ligados a Chã, lugarejo da freguesia de Ferreiros de Tendais. O esboço é da autoria de D. João Ribeiro Gaio, bispo de Malaca e foi incluído na sua obra Coplas às armas de Portugal, manuscrito do século XVI (acessível aqui). D. João Ribeiro Gaio deixou vasta descendência, alguma dela em Cinfães. Era seu bisneto Manuel de Vasconcelos Pereira (1640-1708), familiar do Santo Ofício e nobre proprietário da casa da Fervença, de quem falaremos noutra ocasião.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011


O lugar de Fundoais em 1914
Pintura a óleo sobre tela de Lima Machado Pereira (1877-1945).

Bibliografia cinfanense #10


 Alves, Maria José Galhano; Mota, Teresa; Osório, Conceição- Amândio Barbedo Galhano: 1908-1991. Uma vida, uma causa. Porto: CVRVV, 2005. ISBN 972-97940-4-9.

Foi recentemente (2005) lançado um catálogo alusivo à vida e obra do engenheiro agrónomo Amândio Barbedo Galhano (1908-1991) ligado à Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes. Irmão do antropólogo e fundador do Museu de Etnologia em Lisboa, Fernando Galhano (1904-1995) eram ambos descendentes de famílias de Cinfães (mais propriamente do lugar das Pias). Os Barbedos constituíam um clã com certa notabilidade na região. Foram médicos, eclesiásticos, advogados  e comerciantes, nomeadamente alguns deles destacados ourives na cidade do Porto, onde tinham loja aberta na rua das Flores. De um destes ramos de comerciantes, descendia o Eng.º Amândio Barbedo, como ele próprio refere: "Se na família de meu pai havia certas maneiras menos preconceituosas, a de minha mãe era genuinamente burguesa - avô de cepa duriense [*] com loja de ourives na Rua de Flores e avó saída de negociantes de mercearia por grosso na Rua de São João."
Embora o catálogo não refira expressamente a ligação a Cinfães (o que muito nos admira, não obstante publicar-se uma foto da casa dos Barbedos nas Pias, na página 21), certamente que o ambiente rural do vale do Bestança estimilou a sua curiosidade pela agronomia, curso que seguiu e onde singrou numa florescente carreira ligada à vitivinicultura.

[*] Embora se não refira, pode tratar-se de João Pereira Barbedo noticiado n'O Patriota Portuense em 1821: "João Pereira Barbedo, ourives do ouro, morador na rua das Flores desta cidade, declara ser falsa a notícia, inscrita no Astro da Luzitania, de que lhe aparecerem, algumas das peças que lhe roubara, na noite de 23 de Janeiro […], O Patriota Portuense, n.º 48 (1821).

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Uma viagem sem retorno?

1623, Abril, 2, Oliveira do Douro – Manda (testamento) que redigiu Pêro Rodrigues, abade de Oliveira, a pedido de Damião Cardoso, que tencionava partir para o Brasil. 
Arquivo Diocesano de Lamego, Paroquiais, f. de Oliveira do Douro, L.º 2.º (misto), fl. 139 v.º
Aos dous dias do mes de abril anno de mil e Seis/centos e Vinte E tres dentro Em minha casa estando eu / Pero Rodrigues abbade desta Igreja de São Miguel d oliveira apare/ceo Damião Cardoso filho que ficou de Cosme Ribeiro de / Villa nova E disse que elle estava Em todo Seu Siso E que / Se partia para o brasil E que não Sabia do que deos determinaria / que lhe fizesse Estes apontamentos para descargo de Sua Consciença / Ey como Cristão confessava a Santa Fee catholica E sendo / caso que elle fallecesse deixava que qua lhe dissesse quinze / missas repartidas Em tres officios scilicet cada hum de Sinco missas / E hua Seria cantada Com sua obrada E obradasse hum anno / quero dizer desse esmolla para E [...] E os domingos de / Hum anno a Conta de Sua Legitima E sendo Casa que Sua may / fosse morta o remanecente fiquasse a Seu irmão / baltesar Ribeiro E a Sua Irmãa Catarina Ribeira que / partão irmãa mente Isto disse para ante mim Sobre dito abbade / eu Pero Rodrigues a fiz de minha letra E assinei E fui testemunha / E Antonio filho de Antonio Martins da Bouça E domingos fernandes / da Castinheira E fis estes apontamentos neste Livro de / defuntos para que a todo o tempo se achasse não se acharão mais folhas

Damião Cardoso
Pero Rodrigues

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Uma cura milagrosa em Alhões.

Os habitantes do concelho de Cinfães, antes e depois de 1855, sempre se encomendaram, a si, à sua família e aos seus animais, a vários patronos e matronas, sobretudo à Virgem, mãe e auxiliadora. E não acorreram apenas aos santuários locais, como o da Senhora das Cales, em São Cristóvão, ou o da Senhora da Assunção, em Ruivais, Ferreiros. Iam multidões de cinfanenses às grandes romarias marianas, fosse a Lamego, à Senhora dos Remédios ou à Senhora da Lapa, nos planaltos da Nave. O caso de milagrosa cura de um cinfanense natural de Alhões, graças à intervenção de Nossa Senhora da Lapa ficou registado como memória de uma devoção que ultrapassou montes e vales:

"Manuel António Corrêa, de Alhões, concelho de Sinfães, achando-se, havia seis mezes, atacado de sezões, recorreu com toda a confiança a N. Senhora da Lapa, promettendo vir visitá-la no dia 11 de janeiro, se melhorasse. Com effeito, desde esse dia começou a trabalhar, e nunca mais foi acomettido d'essa doença. Para esta cura não tomou medicamentos alguns."

FERREIRA, Francisco Pinto, padre - Annaes de Nossa Senhora da Lapa. Lisboa: Papelaria Lá Becarre, 1901, p. 24.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Centenário da República em Cinfães: antologia photographica: #6

Ponte sobre o Cabrum. Postal não circulado (de uma série de imagens da freguesia de Oliveira do Douro, colecção particular, primeiros anos do século XX.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

A importância dos caminhos.

Troço pavimentado de caminho regional, que liga as povoação de Granja (Tendais) a Alhões. Junto ao ribeiro da Gateira, 1997. Fotografia de Nuno Resende (C) todos os direitos reservados.



A serra de Montemuro e, concretamente o município de Cinfães estiveram mais uma vez representados no âmbito da investigação histórica nacional. Na sequência do I Encontro RuralRePort, que serviu para discutir e equacionar o nascimento de uma entidade de Estudos de História da Ruralidade, o historiador Nuno Resende apresentou um projecto intitulado: "Contributos para o estudo, sistematização e salvaguarda dos caminhos rurais." Numa breve lista de intenções, o investigador formulou a necessidade de melhor se conhecer, em termos culturais, artísticos e funcionais, o caminho rural que marcou a paisagem portuguesa ao longo de séculos e que tem vindo a desaparecer, em função do novo ladrilho granítico de tom azul, do asfalto e mesmo do cimento. Nesse sentido foi apresentado um projecto para o inventário, estudo e salvaguarda de percursos regionais (numa primeira fase) na região de Montemuro. Entre os exemplos apresentados de calçadas, pontes e outras infra-estruturas associadas aos caminhos, estiveram alguns tipos trilhos pavimentados ainda conservados em Tendais e Cinfães, e as pontes de Covelas, Soutelo e Ana Loba (Alhões). O blogue História de Cinfães irá dando conta deste projecto à medida que for implementado.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Dicionário Histórico e Biográfico de Cinfães: Lima Machado Pereira.


Está patente, até dia 24 deste mês, no Museu Nacional Soares dos Reis (Porto), uma exposição sobre o mestre pintor Artur Loureiro que marcou o panorama artístico português e australiano de finais do século XIX e primeira vintena do século XX. A mostra integra um espólio variado, grande parte dele inédito, sobre a sua fulgurante, extraordinária e eclética carreira que o levou do Porto à Europa e à Austrália, onde ainda hoje é tido como nome maior da pintura e do movimento arts & crafts. Seu amigo e discípulo foi Lima Machado Pereira, que morou largos anos em Boassas, Cinfães.

António Joaquim Fernandes de Lima (que mais tarde adoptou o nome artístico de Lima Machado Pereira), nasceu na freguesia de Cedofeita, Porto, a 30-12-1877 e faleceu na casa do Oratório, lugar de Lodeiro, freguesia de Oliveira do Douro, a 25-12-1945. Nascido numa família de comerciantes dedicou-se à pintura já bastante tardiamente, sendo seu mestre e amigo, Artur Loureiro quando este vivia já uma fase avançada da sua carreira, como artista consagrado - entretanto regressado da Austrália (1901) para onde fora trabalhar anos antes.
Lima Machado Pereira (assinando já com os apelidos do seu mecenas e cunhado, o Visconde de Machado Pereira, que contribuiu para a sua sustentação em Paris) frequentou as melhores escolas europeias da época, e bebeu na capital francesa todas as influências que esperavam beber os bolseiros ou artistas livres que lá se dirigiam. Porém, a Guerra de 1914-18 obrigou-o a deixar os estudos académicos e a regressar ao Porto, onde prosseguiu a sua aprendizagem na Escola de Belas Artes, sendo então aluno de Marques de Oliveira e Teixeira Lopes.
Escolheu Cinfães para instalar o seu atelier e o seu eremitério.

Na terra que o seu coração e o seu pensamento elegera, lá em cima, nas serranias da proximidade do Douro, ele criara o seu último e verdadeiro ninho. No ponto mais elevado duma colina, entre pinheiros da sua particular simpatia, afastado do mundo, mandou construir uma casa, com espaçosa oficina, onde realizou a maior e melhor parte da sua obra magnífica. § A Casa do Oratório, como passou a chamar-se, era na realidade um encantador retiro de devoção artística. Toda rodeada de árvores a cuja sombra, nas calmosas tardes de verão, o Pintor se acolhia para as estudar e nas telas inteligentemente, amorosamente traduzir, Lima Machado Pereira de tal modo àquele ambiente se afeiçoara que só por absoluta necessidade uma ou outra vez o abandonara. (1)

Foi nesta casa que o pintor faleceu no dia de Natal de 1945 e de onde colheu os motivos, as paisagens e os tipos que incluiu na sua notável obra. Os montes bravios, os pinheiros (tão difíceis de reproduzir nas suas agulhas e padrões irregulares) (2), cenas campestres e alguns modelos das aldeias vizinhas de Fundoais e Boassas, constituíram alguns dos tópicos que, infelizmente, jazem praticamente desconhecidos. Ao seu talento como pintor juntou, também, a capacidade para converter em tridimensionalidade o que registava em tela. Executou inúmeras esculturas, nomeadamente a que imortalizou o filho dilecto de Cinfães, Serpa Pinto, inaugurada em 1946, no principal jardim da vila (3). A sua obra, integral ou fragmentada, depositada na casa do Oratório, tem aparecido à venda em vários leilões, durante os últimos 10 anos, e a sua dispersão constituirá uma perda irreparável a todos os níveis: local, pois as suas pinturas e esculturas são o documento de uma época e de uma região e nacional, já que se eclipsa um testemunho da vitalidade artística do realismo expressivo dos primeiros anos do século XX.


Notas:
(1) LOPES, Joaquim - Actualidade artística portuense. Ocidente, n.ºs 105-108 (1947) 34 e 35.
(2) Foi com a obra Pinheiros velhos, pinheiros novos que ele impressionou os críticos e causou polémica. Este quadro integrou o espólio da Casa Museu Fernando de Castro e está hoje nas reservas do Museu Nacional Soares dos Reis
(3) Sobre a inauguração deste busto, ver o artigo de VENTURA, Jorge - Aspectos de uma homenagem a Serpa Pinto. Terras de Serpa Pinto, n.º 7 (1997), 103-121. A ligação entre Carlota de Serpa Pinto e o pintor Lima Machado Pereira derivava da proximidade entre as propriedades de ambos. Para chegar à Quinta do Paço, proveniente de Mosteirô (a estação ferroviária que servia Cinfães), era necessário passar à porta da casa do Oratório. Ambas as habitações foram, nos anos 20, 30 e 40, lugares de convívio e tertúlia, como esclarece uma crónica do crítico Manoel de Sousa Pinto, em 1922: "Fernandes Lima - Lima Machado Pereira na arte - vive quasi todo o ano em Fundoais, lá para as bandas acidentadas da Gralheira, visinho e conviva habitual do solar da gentilissima Clarinha - essa deliciosa Quinta do Paço, rica dos variados panoramas da Beira-Douro e fértil em horas dum encanto raro", PINTO, Manoel de Sousa - As exposições. A Ilustração Portugueza, n.º 840 (1922), p. 281.

Espólio do Pintor Lima Machado Pereira. Catálogo de "Leilão de Pintura e Escultura Portuguesa". Lisboa: Palácio do Correio Velho, 2002

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Dicionário Histórico e Biográfico de Cinfães: Augusto Brochado

Na foto, um aspecto de Ervilhais, lugar na extinta freguesia de Santo Erício de Nespereira, 
terra da família paterna de Augusto Brochado, (c) NR (2011).



Augusto Pinto Brochado
Valbom, São Cristóvão de Nogueira, 1862-1885.
Escritor e pensador.

Augusto Brochado nasceu a 1 de Outubro de 1862, em Valbom, na freguesia de São Cristóvão de Nogueira e faleceu, no mesmo lugar, 23 anos depois, a 31 de Dezembro de 1885. No entanto, apesar de uma curta existência, o seu nome marcou uma geração e poderia ter integrado o conjunto de pensadores que interveio nos destinos do Portugal de finais de oitocentos se a morte o não tivesse arrebatado quando completava o 4.º ano do curso de Direito.

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quinta-feira, 24 de março de 2011

Bibliografia cinfanense #10: Sinfaníadas.

Sinfaniadas_capa

 Sinfaníadas (capa)

Sinfaníadas é o título de um livro de poesias da autoria de João Baptista Pinto Saraiva (1866-1948) com ilustrações de Alberto de Sousa (1880-1961). Foi editado em 1938 pelo autor (sendo depositária a Livraria Bertrand, em Lisboa) e compõe-se de um proémio e quatro cantos formados por poemas decassilábicos, inspirados assim nas obras clássicas e renascentistas, fazendo, assim, jus à escola parnasiana a que pertencia João Saraiva. O livro abre com uma dedicatória ao Conselheiro Fernando Martins de Carvalho (1872-1947), uma das mais respeitadas figuras do Direito em Portugal durante o Estado Novo, sobre cuja família e casa de veraneio (a quinta de Santa Bárbara, em Cinfães) a obra disserta, intercalando sátiras aos costumes da época e à política, com notas mitológicas e laudações às gentes da terra e à fertilidade do território -«amena região onde em favor os deuses se esmeraram» (Proémio, II).
Durante os anos 30 e 40, primeiros decénios da Segunda República, Cinfães recebeu redobrada atenção por parte de algumas famílias de elite que nela possuíam solar, agora tornado habitação sazonal. Período em que a ideia de ruralidade consagrava o intrínseco espírito nacional, os chalets do Paço, em Fundoais, as casas da Castanheira e da Calçada em Oliveira do Douro, ou a quinta de Santa Bárbara junto à pequena vila de Cinfães, tornaram-se refúgio dos novos senhores do poder, ou a ele ligados, onde acorriam ilustres visitantes do regime, provenientes de Lisboa, de Coimbra ou do Porto, mau grado em redor daqueles solarengos redutos literários e tertulianos, grassar apenas a incultura temporal e espiritual. Foi a época do folclorismo, do pitoresco, do popular, por oposição às elites letradas que educavam o "povo" pelos trajes garridos, as cantas e as danças.
O livro descreve, aliás, esse clima tertuliano, guardado pelo «asilo de Santa Bárbara», ali transposto desde os botequins de Coimbra, decerto frequentados por ambos, poeta e conselheiro, a quem unia, ainda, o facto terem prestado serviços, quer à Monarquia, quer a República.
Embora seja uma obra do tipo laudatório, redigido como homenagem a um mecenas, homem das letras, da cultura e da jurisprudência, Sinfaníadas é uma valiosa obra poética e gráfica, repleta de pequenas e cuidadas aguarelas de Alberto de Sousa, um dos maiores e melhores ilustradores do seu tempo. Desde a imagem da capa, que representa o belo portão da quinta na vila de Cinfães, passando pelos barcos em Souto do Rio (p. 15), até à igreja de Escamarão, ou o canastro estampado na contra-capa (ícones e "bucolismos estado-novistas"), este opúsculo é um excelente documento sobre a forma como um certo conjunto de indivíduos via, fosse de Lisboa, ou de dentro dos muros de uma aristocrática quinta, o mundo rural português dos primeiros anos de uma longa ditadura.

SARAIVA, João, texto / SOUSA, Alberto de, ilust. - Sinfaníadas. Lisboa: [edição de autor], 1938.

sábado, 19 de março de 2011

Breve história da ermida de São Pedro do Campo


S. Pedro Primeiro Chefe da Igreja / ROGAI POR NÓS / Tendais - Cinfães; 31,5x21,9 cm, processo litográfico sobre papel c. 1980?.

«Num extenso planalto deserto e inóspito, onde aqui e acolá crescem tojos e fetos surge surpreendente e em dias de nevoeiro como que nas próprias nuvens a Capela de S. Pedro do Campo. § Junto à capela encontramos pedras antigas, mamoas que eram locais sagrados e tumulares de sociedades e cultos pré-históricos. § Sabemos que a memória do sagrado perdura e se converte, sabemos que Pedro em aramaico significa "pedra", "rocha". § Temos pois aqui, neste entorno, em redor da capela, um espaço sagrado que perdurou no tempo e que hoje é anualmente motivo de romaria. § Da origem da capela não temos registos mas sabemos que no início do século XVIII já aqui, por onde passava uma estrada medieval, se realizava a feira da freguesia de Tendais, e é verosímil que nessa altura a capela já existisse. § Devido à pureza dos seus ares serviu este local também para tratar a tuberculose, sendo que a casa junto à capela, construção do século XIX pode ter servido pata abrigo de doentes ou de passantes ocasionais, para além do apoio do culto. § No vento sopram muitas histórias por este campo, das gentes que o percorreram que aqui enterraram os seus mortos, adoraram os seus deuses, fizeram e desfizeram os seus negócios e onde até hoje S. Pedro, no dia 29 de Junho, é celebrado.»

Este texto pode ler-se num expositor colocado um pouco abaixo da ermida de São Pedro do Campo, na freguesia de Tendais, concelho de Cinfães. Como tem sido apanágio, de Cinfães e de outros municípios do país, a promoção turística é preparada através da colagem de chavões recolhidos em obras de publicistas e monógrafos locais pouco preparados para a interpretação de documentos e para análise histórica. Em vez de um trabalho criterioso de inventário e estudo do património por especialistas (Historiadores, Arqueólogos, Antropólogos), assumem-se textos não académicos e crónicas mais ou menos pessoais, como material devidamente fundamentado. O resultado é este: muitos adjectivos, misturas de conceitos, suposições e considerações supérfluas, com base em leituras “à la minute” que reproduzem frases ou ridículas ou ininteligíveis. Não perderemos muito tempo a dissecar as expressões “pedras antigas”, “locais sagrados e tumulares”, nem sequer as asserções sobre os “bons ares” do local e o possível sanatório que existiria no Campo, para tratamento da tuberculose que, de tão estapafúrdias, não merecem qualquer comentário. Tentaremos abordar, de forma sucinta (até porque não abundam as fontes históricas) e clara, a eclosão e a evolução do culto a São Pedro, no sítio do Campo, planalto hoje marcado pela disseminação incontrolável de aerogeradores eólicos, mas ainda um dos locais de destino (mais recreativo e menos religioso) de muitos cinfanenses e de outros visitantes.

 HISTÓRIA DA ERMIDA DE SÃO PEDRO DO CAMPO

sexta-feira, 18 de março de 2011

Bibliografia cinfanense #9


MELO, Teodoro, frei / transc. de REIS, José António - Textual genealogico de cujos titulos se provam a Arvore dos Morgados de Velludo e Collegio da Baeta [1731]. Porto: [edição de autor], 2010, ISBN 989-20-2227.

Frei Teodoro de Melo, um Religioso do Convento de Cristo de Tomar natural do lugar de Enxertado, concelho de Resende, foi o autor de alguns trabalhos sobre a família e linhagem dos Morgados de Velude ou Veludo. Este vínculo, que recebeu o título de um lugar ainda hoje existente na freguesia de Cinfães foi criado em 1388, por Vasco Esteves de Matos e traduzia-se, no século XVIII (altura em que Frei Teodoro nasceu e viveu), numa poderosa instituição familiar, que superintendia vários direitos  e propriedades no Douro, na Beira e em Coimbra. 
O primeiro morgado, Martim Vasques de Matos viveu, como o pai, por terras cinfanenses e comprometeu-se, pelas cláusulas da escritura de instituição vincular, a zelar pela fábrica e missas impostas na capela de Santo António, adossada à igreja matriz de São João Baptista de Cinfães, - capela essa que ainda hoje existe, embora se trate de uma reconstrução setecentista. Como tal, apesar da uma política matrimonial que os afastou de Cinfães, os Malheiros de Melo (apelidos que tomaram os descendentes dos morgados) tinham neste concelho os seus lugares principais, fosse no pequeno lugarejo de Velude, fosse no panteão da igreja matriz, onde ainda hoje se exibem os vetustos mausoléus dos instituidores. Aqui paravam nas suas deslocações, aqui vinham tratar dos seus negócios e aqui casavam e, como tal, o território era-lhes familiar e com certeza querido. Esta proximidade ditava que os investimentos familiares não fossem apenas privados, num tempo e num espaço em que o planeamento urbanístico quase não existiam, não sendo por isso de admirar que, cerca do ano de 1693, o morgado Manuel Carneiro de Melo, pai de Frei Teodoro, tenha pago a fábrica da nova Ponte das Pias, "instando pela utilidade pública". Não era apenas, uma questão de utilidade pública, era, como no caso da construção da Ponte de Covelas, mais ou menos contemporânea da das pias, uma forma de afirmação nobiliárquica. Mas o investimento em pontes e caminhos, acto comum na nobreza da época, não era meramente simbólico, revertia a favor das linhagens num acesso mais célere a pessoas e bens do seu interesse.
Das obras produzidas por Frei Teodoro de Melo, chegaram aos nossos dias dois códices depositados nos Reservados da Biblioteca Pública Municipal do Porto. O primeiro, por nós já referido: Textual Genealógico de cujos titulos se provam a Arvore de Morgados de Velludo e Colegio da Baeta em tudo, ou em parte, e as mais que se seguirem [1731] (BPMP, Reservados, doc. 701) e um outro, colossal trabalho genealógico sobre os mesmos Morgados de Veludo, intitulado Nobiliário Particular e Prova das Memórias da Casa dos Morgados de Veludo e Colégio da Baeta com as verdadeiras genealogias das Família com que prendem e que dela se derivam até o ano de 1733, (BPMP, Reservados, Doc. 229). Esta segunda obra fazia parte de um tratado que versava igualmente sobre as condições da terra e a origem da nobreza, num exercício comum para a época. Embora alvo de uma incipiente análise histórica e de uma crítica pouco objectiva, pontuada por alguns anacronismos, um apócrafo deste tratado foi  editado pela Câmara Municipal de Resende, sob o estudo do padre Joaquim Correia Duarte ( – Resende no século XVIII. Lamego: C.M.R., 2004).
Mais recentemente veio a lume a edição transcrita  do Textual Genealógico, cuja capa reproduzimos acima. Da autoria do genealogista José António Reis, a edição daquele códice permite lançar luz sobre um vasto leque de anotações potencialmente riquíssimas em termos historiográficos, dado que, ao contrário da maioria dos trabalhos genealógicos da época (de teor mais ou menos laudatório), o Textual reproduz uma súmula de fontes primárias utilizada por Frei Teodoro de Melo para as suas árvores e descendências. Em 563 pontos, o religioso de Tomar exara dados colhidos em escrituras de dote, instituições vinculares, testamentos, tombos, etc, indicando a data, local de produção e arquivamento e sua autoria, frequentemente tabeliães cujas notas se perderam.
É por isso, de saudar a publicação de tão valioso documento para a História Local e Regional, nomeadamente para que seja possível aprofundar o conhecimento do passado de indivíduos ligados a Cinfães e à evolução deste território.
Prós: a edição de fontes constitui, sempre, uma mais-valia para a historiografia;
Contras: a inexistência de índices toponímicos e onomásticos, que dificulta a busca de denominações.
Bibliografia adicional sobre os Morgados de Velude e frei Teodoro:

DUARTE, Joaquim Correia – Resende no século XVIII. Lamego: Câmara Municipal de Resende, 2004;
GAIO, Manuel José da Costa Felgueiras - Nobiliário de famílias de Portugal. Braga: Carvalhos de Basto, 1989– 1990 (título de MATOS, § N2 e PINTOS, § 187 e seguintes).
MENDES, Nuno Miguel de Resende Jorge - Retratos de Terra e de Família. Porto: Câmara Municipal de Cinfães, 1997 (onde, a pp.85 a 91, o genealogista José Cabral Pinto de Rezende disserta sobre um ramo ilegítimo desta família, que subsiste na freguesia de Tendais);
PINTO, Joaquim Caetano - Resende nas letras. Autores, obras, antologia. Braga: [edição de autor], 1985.;
REZENDE, José Cabral Pinto de e RESENDE, Miguel Pinto de - Famílias nobres nos concelhos de Cinfães, Ferreiros e Tendais, nos séculos XVI, XVII e XVIII. Braga: [Carvalhos de Basto], 1988.

domingo, 6 de março de 2011

A República em Cinfães: uma estória mal contada.

(C) Câmara Municipal de Cinfães

A Câmara Municipal de Cinfães lançou, recentemente ,uma Agenda Escolar para 2011 dedicada ao tema da "República", aludindo, embora tarde, aos Centenários comemorados em 2010. Além de informações básicas e algumas trivialidades, o executor desta obra, incluiu uma listagem (de resto incompleta) dos Presidentes da Câmara desde 1855 até hoje, e uma "história" da República em Cinfães. A leitura deste texto, que podia ser proveitosa para os alunos do concelho, alguns deles ávidos por conhecerem a evolução da sua terra, resulta em mais uma triste demonstração de incultura.
Nesse sentido, e utilizando este espaço, tentarei minorar o impacto que tal texto poderá ter na comunidade docente e discente, efectuando algumas notas e comentários ao mesmo. A itálico segue o texto original, a negrito, intercaladas, as minhas anotações:

(C) Câmara Municipal de Cinfães


A partir da reforma implementada por Costa Cabral, em 1842, o concelho de Cinfães obteve os actuais contornos geográficos e administrativos [mentira: a primeira alteração dos limites municipais do velho concelho medieval deu-se em 1836, com o Código Administrativo de Silva Passos] mas só a 24 de Outubro de 1855 é que foi promulgado o decreto-lei que formalizou o decreto-lei que formalizou a constituição do convo concelho. E assim surge, em Dezembro daquele ano, a primeira câmara eleita, do actual concelho. No entanto, não foi pacífica a situação nos anos que se seguiram. [não? e qual a razão? quais os intervenientes? as circunstâncias de tal situação?] Já antes do 5 de Outubro de 1910, Pedro Pinto Miranda, tentou organizar uma força republicana no concelho e consegui a aderência [aderência é para os autocolantes, adesão é para as pessoas] de elementos valorosos [e quem foram esses elementos, e valorosos porquê?]. E, após, a revolução de 5 de Outubro, proclamou a República nos Paços do concelho e indicou ao governador civil os nomes do administrador e dos cidadãos que deviam constituir a comissão administrativa republicana do município [de resto, uma obrigação imposta a todos os municípios pelo novo regime]. Mas os monárquicos continuaram a assediar (escusado o termo) e ocuparam mesmo os cargos administrativos [o republicanismo, em Cinfães, município rural, profundamente avesso ao anti-clericalismo, por muitos "adesivos" (1) que tivesse, era um concelho essencialmente fiel ao regime monárquico deposto, por isso os cargos administrativos acabavam por cair na mão de monárquicos ou ex-monárquicos]. Assim foi em 24 de Dezembro de 1917 quando o Padre José Vieira Gonçalves de Freitas e o seu bando monárquico [aqui não se devia aplicar a expressão pejorativa "bando", dado que se trata de pessoas e não de aves] tomou posse como administrador. A instabilidade do governo de então, levou a que os monárquicos constinuassem "a sua guerrilha; ao ponto de dinamitarem a ponte de Mosteiro [leia-se Mosteirô], para bloquearem a entrada.
[Nova mentira e nova inexactidão: em primeiro lugar não foi a instabilidade do governo de então que levou ao suposto assalto do Padre José Vieira Gonçalves de Freitas; a oportunidade do Sidonismo abriu a porta a muitos ex-monárquicos ou sidonistas para para combater o Partido Democrático que desde 1911 governava o país, apesar da Constituição republicana permitir o multi-partidarismo; em segundo lugar não havia um clima de guerrilha em Cinfães, entre monárquicos e republicanos, como o texto, insidiosamente, faz crer; existiu, isso sim, em Janeiro de 1919, uma adesão muito expressiva, aliás, à monarquia do Norte, ou seja à restauração do Reino de Portugal, com sede no Porto, a que se juntaram os municípios do Norte do país; Cinfães também aderiu na pessoa do Padre José de Freitas. A dinamitação da Ponte de Mosteirô surge na sequência deste movimento da Monarquia do Norte, mas ainda hoje não se sabe quem levou a cabo tal acto: se os monárquicos, se as tropas republicanas. De facto, se os monárquicos queriam suster o avanço republicano a sul do Douro, estando as tropas de Abel Hipólito, governador civil de Viseu, na margem de Cinfães, também a estas interessava conter o movimento monárquico na margem norte. De qualquer forma, como a História é frequentemente escrita pelos vencedores, a República usou os implicados no movimento monárquico de 1919 como exemplos para futuras revoltas, punindo-os em julgamentos pouco claros]. 
Por isso, como professor e historiador, só posso lamentar e repudiar o epílogo que se segue, sobretudo porque escrito e dirigido a crianças:

Contudo, o castigo recai sobre os "maus" e são presos os autores de tal acto. Mas a República conseguiu sobreviver até aos nossos dias. Por isso, é com sabor republicano que estamos a celebrar o centenário da República.

Realmente, e como vivemos em República, alguma historiografia e alguns estoriadores têm qualificado os republicanos como os "bons" e os monárquicos, os "maus". Esta visão maniqueísta, não só compromete a nossa História, mas contribui para a deseducação. Em História não há bons, nem maus. Existem factos, registados em documentos, que o historiador interpreta, tão-só.
A má qualidade informativa, gramatical e histórica deste texto anónimo, mas da responsabilidade da Câmara Municipal, instituição pública que superintende à Cultura e a Educação no município, só se anula, em parte, pela sua reduzida dimensão. Neste caso, pode dizer-se que a ignorância foi uma benção. Mas até quando poderá continuar a subsidiar-se o mau, o desinformativo, o tendencioso? Até quando poderá alimentar-se a Cultura a chavões, a Educação com palavras vãs, e o Turismo com paisagem, gastronomia e artesanato? Se a História é alma de um povo, parece que cada dia que passa, nos tornamos um simples corpo vazio, desmoralizado, tristemente pobre e andrajoso...



Nota 1: Adesivo foi o nome encontrado pela comunicação social para designar os monárquicos que, para acederem a cargos públicos ou políticos, se fizeram republicanos, após o 5 de Outubro de 1910.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Documentos etno-musicológicos de Cinfães (Nespereira e Piães) na colecção Giacometti.


A colecção que reúne a filmografia completa de Michel Giacometti, recentemente lançada pela RTP e pelo jornal Público, inclui um volume dedicado, em parte, a recolhas musicais efectuadas por aquele etno-musicólogo, nas freguesias de Nespereira e Santiago de Piães. O que terá levado Giacometti e a sua equipa a deslocarem-se à serra de Montemuro para gravarem os cramóis e a chula em Córdova (concelho de Resende) e as cantigas de trabalho, por altura do corte e desfolhada do milho, em Nespereira? Como refere a locução da 4.ª série, programa 11 do "Povo de Canta", foi com certeza o trabalho de Vergílio Pereira (a quem o programa é dedicado) que alguns anos antes havia desenvolvido, no contexto da Junta de Província do Douro Litoral, um intenso trabalho de recolha, registo e tratamento de espécimes musicais na região. Do trabalho deste folclorista, resultaram, para Cinfães:

- BONITO, Rebelo e PEREIRA, Vergílio - As "Cantas" e os "Cramóis" do Cancioneiro de Cinfães como formas arcaicas da etnografia musical. Boletim do Douro-Litoral, 1 (1948) [separata] (imagem abaixo)
- PEREIRA, Vergílio - Cancioneiro de Cinfães. Porto: Junta de Província do Douro Litoral,1950



Mas tanto para Resende, como para Arouca foram preparadas outras edições similares que devem ter chamado a atenção de Michel Giacometti quando, 20 anos depois efectuou um périplo pelo país, na busca e preservação de património musical. Este investigador francês que chegou a Portugal na década de 1960, realizou o maior trabalho de recolha sonora e salvaguarda da musicalidade e literatura dita "popular" alguma vez efectuada em Portugal. Com o apoio do maestro Lopes Graça (que desde a década de 30 vinha participando no estudo das canções populares portuguesas) Giacometti lançou-se num ambicioso projecto, que viria a constituir, entre 1970 e 1973, a base do programa televisivo Povo que canta, onde, de resto, foi transmitido o episódio respeitante às gravações efectuadas em Nespereira e Piães. No volume 09 agora publicado, é possível ler a locução do programa (com informações pertinentes sobre as localidades, história dos espécimes audíveis, ect), assistir às referidas filmagens e apreciar, sem harmonizações, aperfeiçoamentos ou quaisquer edições a música tal qual se ouvia há meio século nos campos e encostas da região. Na falta das gravações efectuadas por Vergílio Pereira, este é, para já, o único documento para o estudo daqueles espécimes musicais. E uma oportunidade para observar gestos, vozes, ruídos, paisagens que a fotografia ou o homem não lograram registar.

Grupo de cantadeiras de Nespereira, Cinfães, Povo que canta, programa 11, (C) rtp/tradusom

Piães, cantadeiras, Povo que canta, programa 11, (C) rtp/tradusom

 Michel Giacometti, com as informantes, ou cantadeiras, em Cinfães
Povo que canta, programa 11 (C) rtp/tradusom

LIMA, Paulo, coord. - Michel Giacometti. Filmografia completa, 09. [Lisboa]: Tradusom Produções Culturais, lda., 2010, ISBN 978-972-8644-26. Nota: colecção integral ou parcial pode ser adquirida nas Lojas do Jornal Público, ou aqui.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Proximidades: a "alagoa" de D. João.


Esta montagem fotográfica foi feita em 1996 quando, durante a preparação de um projecto turístico literário para o Montemuro, passei pela Alagoa de D. João. A magnífica depressão, alagadiça e coberta por um manto de várias espécies erváceas e arbustivas, localizada não muito distante da Gralheira e da Panchorra, foi mencionada a voo de pássaro por Eça de Queirós no romance O Crime do Padre Amaro e, com maior rigor, por Abel Botelho no seu conto A Fritada. Em breve aquela magnífica paisagem perderá o aspecto pacífico e selvagem, com a construção de um novo parque eólico. Para memória futura, aqui ficam a fotografias e as palavras de Abel Botelho, a avisar que um dia precisaremos mais da natureza do que hoje da energia que à força lhe retiramos:

"Avançavam cautelosamente per um terreno alagadiço e molle, coberto de herva rasteira e miudinha, e ondes fartas poças de lôdo armavam não raro aos viajantes descuidosos traiçoeiras armadilhas. Era o dorso da Gralheira. Para a esquerda, grande agglomerações caprichosas de urgueiras, verdes e arbustivas, em bellas formações conicas, vegetavam por entre as penhas escalvadas, n'essa promiscuidade gelada dos mausoleus e dos cyprestes n'um vasto cemiterio. Á direita, o terreno deprimia-se gradualmente em desniveis sucessivos, tapetados com abundancia de urzes, de fetos rusticos e de urgueiras, cujo verde, de tons suavemente graduados, marcava nitidamente a espaços a flôr avelludada, amarella ou branca, do sargaço; depois continuava-se n'uma estirada sequencia de valles e corcovas até junto á bacia estreita do Douro, de cujos aprumados contraforeste se avistavam as cristas magestosas, e para além da qual se alteava ainda, azulada e indecisa, a serra do Marão. Na frente, a recortarem-se firmes no azul embaciado de agosto, com uma tinta luminosa e fresca de aguarella, montões gigantes de calhaus pardos de granito, assumindo os mais phantasticos perfis: castellos feudaes arruinados, com torres esborôadas, fossos, barbacans; novellos enormes e redondos, pacientemente dobrados polos seculos; anachoretas esguios, orando curvos e de joelhos, o livro à frente, poisado sobre uma caveira. Ainda na frente, a grande distancia, com o contorno suavisado pola espessura da atmosphera interposta, uma pyramide geodesica de 1.ª ordem, liliputiana, ridicula, mal segura, assentava no craneo angulos d'um cabeço."
BOTELHO, Abel - Mulheres da Beira (contos). Lisboa: Empreza Litteraria Lisbonense, 1898, 147-148.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Um romancista de Cinfães: Guido de Monterey.

Jornal Miradouro, ano 62, n.º 1699, 3.ª série, 25-02-2011, fl. 1


Hoje (25-02-2011), o jornal Miradouro, órgão da imprensa que tem defendido os interesses locais e regionais, brindou-nos com uma imagem do escritor Guido de Monterey, fazendo alusão à sua condição de autor adorado ou detestado. Estou em crer que ninguém de bem "detestará" o sr. Guido de Monterey, dado que é, com certeza, benquisto na sua comunidade e querido pela maioria dos cinfanenses que se habituaram às suas crónicas jornalísticas ou aos seus livros, vendidos por todo o lado, desde livraria a retrosarias. Devo lembrar, aliás, que o primeiro livro que li sobre Cinfães e que despertou em mim o interesse por querer saber mais sobre a minha terra foi o Terras ao Léu: Cinfães.
Os livros de Guido de Monterey, sempre edições do próprio autor, vibram desde a capa até à última página do miolo, por serem profundamente garridos no seu desenho e adjectivados na sua linguagem. De resto, a obra deste escritor, publicista, monógrafo, etc, natural de S. Cristóvão de Nogueira é fecundíssima. Poucos regionalistas da palavra escreveram tanto em tão pouco tempo, editando, lavrando polémicas, guiando turistas por montes e vales, ilhas e cidades e fazendo por escrever história a partir do seu jardim. A sua biografia pode ler-se em várias páginas de grande parte da sua obra, sobretudo a que diz respeito às tais monografias de Cinfães. Quando escreve sobre Cinfães, Guido de Monterey (ou José Rosário Guisande, seu heterónimo) põe sempre algo de si e dos seus nos ensaios e livros que frequentemente inaugura. É famoso, por exemplo, por ilustrar qualquer narrativa com as suas estrelas, estrelinhas e flores, metáforas para as personagens femininas que o marcaram ao longo da sua vida.
Em 1944 passou pelo Seminário Menor, em 1947, pelo Seminário Maior de Lamego e, tendo tentando a Universidade (curso de Direito), logo desistiu, tornando-se um autodidacta da escrita. Num tempo em que a escrita, fosse ela profissional ou meramente recreativa, estava vedado à maioria, Guido de Monterey destacou-se na produção literária do tipo regionalista. Devem-se-lhe páginas realistas de novelas como "Os Bêbados", "Os Penduras", etc, focando tipos e cenários próximos ao autor. No âmbito da História, Guido de Monterey, como se sabe, não é historiador. Como muitos amadores que ao longo dos anos 70, 80 e 90 criaram uma quase escola de monógrafos locais, foi desenvolvendo trabalhos metodologicamente nulos e cientificamente incipientes, que misturam lendas com factos, documentos com divagações pessoais, criando más interpretações e, sobretudo, contribuindo para que a História, já de si complexa, dificilmente seja "lida" por qualquer cidadão, de forma clara e compreensível.
Cabe, porém, destacar a tenacidade do autor e, sobretudo, a sua versatilidade que tem na obra novelística o seu interesse maior e mais grado, quanto a nós. E, infelizmente, nestes quase 70 anos de produção, nunca o município, na pessoa dos seus Presidentes ou da edilidade deu o devido valor à obra deste romancista. Enfim, quando a cultura é um estorvo, tudo atrapalha.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Bibliografia cinfanense #8

 CARDOSO, Manuel - Ó linda Chã (Ferreiros de Tendais - Cinfães). Poemas. [Lamego]: [edição de autor], 1996.

Todas as terras têm o seu poeta. Desde tempos imemoriais, pelo menos desde que o Homem articulou os primeiros sons, que a linguagem cedo terá passado pela poesia, pela mnemónica  - ou seja pela repetição poética de certos acontecimentos. De certa forma, os primeiros historiadores terão sido poetas, recordando eventos e imortalizando cenas de amor, tragédia ou heroicidade. 
Cinfães contará, certamente com um punhado considerável de poetas e poetisas que ao longo dos anos musicaram a labuta com canções herdadas ou de improviso. Nem todas escaparam à morte das gerações, ou ao esquecimento do momento que as tornou efémeras. Felizmente que alguns poetas, como Manuel Cardoso, natural do lugar de Chã, freguesia de Ferreiros de Tendais, deixaram para a posteridade a sua obra. Mais ainda tratando-se de um homem de vários lavores, que cedo deixou a sua terra para procurar ofício  na cidade do Porto. Sabido é que a saudade exalta a veia poética. Talvez tenha começado assim.
O livro de poesia "Ó linda Chã", editado em 1996, com prefácio, selecção e revisão do romancista Guido de Monterey, reúne 154 poemas, quadras que falam sobre saudades, pessoas, casos, lendas, lugares. Não podemos de deixar de assinalar, em tópicos, a semelhança ao livro já aqui citado, Musa Sinfanense. Embora distantes um do outro em quase um século, ambos falam da ausência e da distância.
O livro abre com um prefácio de Guido de Monterey e com um breve texto biográfico, também deste autor. Por ele ficamos a saber que Manuel Cardoso apesar de nascido em Trás-os-Montes, radicada a sua ascendência por terras de Chã. Depois de uma passagem pelo Brasil (o destino de tantos cinfanenses ao longo dos séculos XIX e XX), Manuel Cardoso aprendeu na casa de São José do Porto o ofício de Sapateiro e por aí se fixou, fazendo carreira na famosa Sapataria Pessoa, casa de afamada reputação comercial da cidade que, na iminência de fechar foi adquirida por este industrioso cinfanense. Manuel Cardoso faleceu a 30 de Abril de 1995, sendo o seu corpo transportado até à sua freguesia "natal", Ferreiros de Tendais, onde jaz contemplando a terra que cantou.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O nome Cinfães.

Uma leitora do site "História de Cinfães" questionou-nos sobre porque razão se escreve Cinfães e não Sinfães. De facto a segunda grafia foi, sobretudo, utilizada no século XX, nas variantes Sinfães e Sinfains. Mas erróneamente, já que vinha cortar com uma tradição etimológica medieval e moderna: em 1258, Cinfaes, em 1527, Cynfanes, etc. É com "c" que se faz este topónimo. Passemos a palavra ao etimologista e toponomista, o Doutor A. Almeida Fernandes:

Cinfães: O povoamento nos inícios nacionais, ou seja, de que resultou a povoação actual, fez-se por casais e deu o "burgo", como a Cinfães (Sinfães é escrita errónea) se chamava, hoje a vila desde esse tempo. A origem mais longínqua é uma "villa" Qiff(i)anis, de Qiff(il)a, tendo a nasal final provocado a nasalação, Qin-, que é a que hoje temos, Cin- sobre o concelho e a vila, ver o meu art. Gr.[ande] Enc.[iclopédia Portuguesa e Brasileira], vol. 29, pp. 149-160. (ver 1258 IS 972: " ecclesia de Cinfanes de terra de Sancto Salvatores" estava sob o padroado das ordens do Tempo e do Hospital", e lê-se em IS 973 que "quintana de Sancta Ovaya (Eulália) e "villa de Egregioo et villa de Tuberaes et Portela et Casali et villa de Berudi et Villa Nova et Lauredo de Matto et Lauredo de Jusao et Lauredo de Susao et villa de Cinfaes fuerunt de honor de donno Menendo Moniz" (D. Mem Moniz irmão de Egas Moniz, que com ela compartia segundo as inquirições de 1288. [....]

FERNANDES, A. de Almeida - "Povoações do Distrito de Viseu (origens). Cinfães. Beira Alta, Assembleia Distrital de Viseu, Viseu, vol LXI (2002), 14.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Bibliografia cinfanense: Cinfães. Subsídios para uma Monografia do Concelho, 1954


Disponibilizámos, via facebook, a digitalização de todo o material gráfico publicado em GUIMARÃES, Bertino Daciano R. S. - Cinfães (Subsídios para uma monografia do concelho). Porto: Junta de Província do Douro Litoral, 1954. Trata-se da primeira obra monográfica sobre o município de Cinfães pós-1855. Embora tenha sido escrita com o espírito do Estado Novo, privilegiando, por exemplo, as tradições populares e o folclorismo, consegue reunir um interessante conjunto de documentos históricos, não obstante o seu carácter avulso e, por vezes, cronologicamente descontextualizado. Interessa, sobretudo, o acervo fotográfico publicado (cujos originais desconhecemos o paradeiro) (*), por testemunhar uma época e permitir a caracterização de elementos estruturais arquitectónicos e paisagísticos entretanto desaparecidos. Esta monografia foi confiada a um obscuro publicista e musicólogo do Porto, chamado Bertino Daciano Rocha da Silva Guimarães (nasc. 10-11-1901). Licenciado em Ciências Económicas e Financeira, Bertino Daciano foi professor da Escola Comercial Mousinho da Silveira e director do Instituto de Cegos do Porto. A sua obra é vasta, e entre os vários títulos publicados entre 1921 e 1957, contam-se algumas monografias locais, decerto trabalhos encomendados pela Junta de Província do Douro Litoral que, como todas as congéneres, pretendia estimular sobretudo os estudos etnográficos, tão ao gosto da Ditadura. O frontispício do exemplar que reproduzimos e que integra o acervo da nossa biblioteca, pertenceu a Guilherme Giese, um linguista alemão, especialista em estudos ibéricos, a quem a Junta de Província ofereceu este exemplar, talvez numa das deslocações de Giese ao nosso país.
*Nota: as fotografias foram tiradas ou pertenciam a Nicolau Pinto (fotógrafo profissional de Cinfães), Júlio Bertino (Porto), Jaime de Castro Pinto Bravo  e Dr. Armando de Mattos, etnógrafo ligado à Junta de Província do Douro Litoral.

Património religioso de Cinfães: pagela de Nossa Senhora dos Prazeres.


Três patrimónios: o Património Móvel, o Imóvel e Imaterial. A pagela (com uma belíssima cercadura em estilo Arte Nova); o santuário da Senhora dos Prazeres ou do Senhor dos Enfermos em Macieira (Fornelos) e o culto. Colecção de N.R. É proibida a reprodução não autorizada desta imagem.

Em epígrafe: NOSSA SENHORA DOS PRAZERES / de muitos milagres que se venera na Capela de Macieira / freguesia de Fornelos, concelho de Sinfães; 31,5x21,9 cm, processo litográfico sobre papel [pap. e tipografia Leonesa, Porto], c. 1930?.

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