quarta-feira, 2 de março de 2011

Documentos etno-musicológicos de Cinfães (Nespereira e Piães) na colecção Giacometti.


A colecção que reúne a filmografia completa de Michel Giacometti, recentemente lançada pela RTP e pelo jornal Público, inclui um volume dedicado, em parte, a recolhas musicais efectuadas por aquele etno-musicólogo, nas freguesias de Nespereira e Santiago de Piães. O que terá levado Giacometti e a sua equipa a deslocarem-se à serra de Montemuro para gravarem os cramóis e a chula em Córdova (concelho de Resende) e as cantigas de trabalho, por altura do corte e desfolhada do milho, em Nespereira? Como refere a locução da 4.ª série, programa 11 do "Povo de Canta", foi com certeza o trabalho de Vergílio Pereira (a quem o programa é dedicado) que alguns anos antes havia desenvolvido, no contexto da Junta de Província do Douro Litoral, um intenso trabalho de recolha, registo e tratamento de espécimes musicais na região. Do trabalho deste folclorista, resultaram, para Cinfães:

- BONITO, Rebelo e PEREIRA, Vergílio - As "Cantas" e os "Cramóis" do Cancioneiro de Cinfães como formas arcaicas da etnografia musical. Boletim do Douro-Litoral, 1 (1948) [separata] (imagem abaixo)
- PEREIRA, Vergílio - Cancioneiro de Cinfães. Porto: Junta de Província do Douro Litoral,1950



Mas tanto para Resende, como para Arouca foram preparadas outras edições similares que devem ter chamado a atenção de Michel Giacometti quando, 20 anos depois efectuou um périplo pelo país, na busca e preservação de património musical. Este investigador francês que chegou a Portugal na década de 1960, realizou o maior trabalho de recolha sonora e salvaguarda da musicalidade e literatura dita "popular" alguma vez efectuada em Portugal. Com o apoio do maestro Lopes Graça (que desde a década de 30 vinha participando no estudo das canções populares portuguesas) Giacometti lançou-se num ambicioso projecto, que viria a constituir, entre 1970 e 1973, a base do programa televisivo Povo que canta, onde, de resto, foi transmitido o episódio respeitante às gravações efectuadas em Nespereira e Piães. No volume 09 agora publicado, é possível ler a locução do programa (com informações pertinentes sobre as localidades, história dos espécimes audíveis, ect), assistir às referidas filmagens e apreciar, sem harmonizações, aperfeiçoamentos ou quaisquer edições a música tal qual se ouvia há meio século nos campos e encostas da região. Na falta das gravações efectuadas por Vergílio Pereira, este é, para já, o único documento para o estudo daqueles espécimes musicais. E uma oportunidade para observar gestos, vozes, ruídos, paisagens que a fotografia ou o homem não lograram registar.

Grupo de cantadeiras de Nespereira, Cinfães, Povo que canta, programa 11, (C) rtp/tradusom

Piães, cantadeiras, Povo que canta, programa 11, (C) rtp/tradusom

 Michel Giacometti, com as informantes, ou cantadeiras, em Cinfães
Povo que canta, programa 11 (C) rtp/tradusom

LIMA, Paulo, coord. - Michel Giacometti. Filmografia completa, 09. [Lisboa]: Tradusom Produções Culturais, lda., 2010, ISBN 978-972-8644-26. Nota: colecção integral ou parcial pode ser adquirida nas Lojas do Jornal Público, ou aqui.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Proximidades: a "alagoa" de D. João.


Esta montagem fotográfica foi feita em 1996 quando, durante a preparação de um projecto turístico literário para o Montemuro, passei pela Alagoa de D. João. A magnífica depressão, alagadiça e coberta por um manto de várias espécies erváceas e arbustivas, localizada não muito distante da Gralheira e da Panchorra, foi mencionada a voo de pássaro por Eça de Queirós no romance O Crime do Padre Amaro e, com maior rigor, por Abel Botelho no seu conto A Fritada. Em breve aquela magnífica paisagem perderá o aspecto pacífico e selvagem, com a construção de um novo parque eólico. Para memória futura, aqui ficam a fotografias e as palavras de Abel Botelho, a avisar que um dia precisaremos mais da natureza do que hoje da energia que à força lhe retiramos:

"Avançavam cautelosamente per um terreno alagadiço e molle, coberto de herva rasteira e miudinha, e ondes fartas poças de lôdo armavam não raro aos viajantes descuidosos traiçoeiras armadilhas. Era o dorso da Gralheira. Para a esquerda, grande agglomerações caprichosas de urgueiras, verdes e arbustivas, em bellas formações conicas, vegetavam por entre as penhas escalvadas, n'essa promiscuidade gelada dos mausoleus e dos cyprestes n'um vasto cemiterio. Á direita, o terreno deprimia-se gradualmente em desniveis sucessivos, tapetados com abundancia de urzes, de fetos rusticos e de urgueiras, cujo verde, de tons suavemente graduados, marcava nitidamente a espaços a flôr avelludada, amarella ou branca, do sargaço; depois continuava-se n'uma estirada sequencia de valles e corcovas até junto á bacia estreita do Douro, de cujos aprumados contraforeste se avistavam as cristas magestosas, e para além da qual se alteava ainda, azulada e indecisa, a serra do Marão. Na frente, a recortarem-se firmes no azul embaciado de agosto, com uma tinta luminosa e fresca de aguarella, montões gigantes de calhaus pardos de granito, assumindo os mais phantasticos perfis: castellos feudaes arruinados, com torres esborôadas, fossos, barbacans; novellos enormes e redondos, pacientemente dobrados polos seculos; anachoretas esguios, orando curvos e de joelhos, o livro à frente, poisado sobre uma caveira. Ainda na frente, a grande distancia, com o contorno suavisado pola espessura da atmosphera interposta, uma pyramide geodesica de 1.ª ordem, liliputiana, ridicula, mal segura, assentava no craneo angulos d'um cabeço."
BOTELHO, Abel - Mulheres da Beira (contos). Lisboa: Empreza Litteraria Lisbonense, 1898, 147-148.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Um romancista de Cinfães: Guido de Monterey.

Jornal Miradouro, ano 62, n.º 1699, 3.ª série, 25-02-2011, fl. 1


Hoje (25-02-2011), o jornal Miradouro, órgão da imprensa que tem defendido os interesses locais e regionais, brindou-nos com uma imagem do escritor Guido de Monterey, fazendo alusão à sua condição de autor adorado ou detestado. Estou em crer que ninguém de bem "detestará" o sr. Guido de Monterey, dado que é, com certeza, benquisto na sua comunidade e querido pela maioria dos cinfanenses que se habituaram às suas crónicas jornalísticas ou aos seus livros, vendidos por todo o lado, desde livraria a retrosarias. Devo lembrar, aliás, que o primeiro livro que li sobre Cinfães e que despertou em mim o interesse por querer saber mais sobre a minha terra foi o Terras ao Léu: Cinfães.
Os livros de Guido de Monterey, sempre edições do próprio autor, vibram desde a capa até à última página do miolo, por serem profundamente garridos no seu desenho e adjectivados na sua linguagem. De resto, a obra deste escritor, publicista, monógrafo, etc, natural de S. Cristóvão de Nogueira é fecundíssima. Poucos regionalistas da palavra escreveram tanto em tão pouco tempo, editando, lavrando polémicas, guiando turistas por montes e vales, ilhas e cidades e fazendo por escrever história a partir do seu jardim. A sua biografia pode ler-se em várias páginas de grande parte da sua obra, sobretudo a que diz respeito às tais monografias de Cinfães. Quando escreve sobre Cinfães, Guido de Monterey (ou José Rosário Guisande, seu heterónimo) põe sempre algo de si e dos seus nos ensaios e livros que frequentemente inaugura. É famoso, por exemplo, por ilustrar qualquer narrativa com as suas estrelas, estrelinhas e flores, metáforas para as personagens femininas que o marcaram ao longo da sua vida.
Em 1944 passou pelo Seminário Menor, em 1947, pelo Seminário Maior de Lamego e, tendo tentando a Universidade (curso de Direito), logo desistiu, tornando-se um autodidacta da escrita. Num tempo em que a escrita, fosse ela profissional ou meramente recreativa, estava vedado à maioria, Guido de Monterey destacou-se na produção literária do tipo regionalista. Devem-se-lhe páginas realistas de novelas como "Os Bêbados", "Os Penduras", etc, focando tipos e cenários próximos ao autor. No âmbito da História, Guido de Monterey, como se sabe, não é historiador. Como muitos amadores que ao longo dos anos 70, 80 e 90 criaram uma quase escola de monógrafos locais, foi desenvolvendo trabalhos metodologicamente nulos e cientificamente incipientes, que misturam lendas com factos, documentos com divagações pessoais, criando más interpretações e, sobretudo, contribuindo para que a História, já de si complexa, dificilmente seja "lida" por qualquer cidadão, de forma clara e compreensível.
Cabe, porém, destacar a tenacidade do autor e, sobretudo, a sua versatilidade que tem na obra novelística o seu interesse maior e mais grado, quanto a nós. E, infelizmente, nestes quase 70 anos de produção, nunca o município, na pessoa dos seus Presidentes ou da edilidade deu o devido valor à obra deste romancista. Enfim, quando a cultura é um estorvo, tudo atrapalha.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Bibliografia cinfanense #8

 CARDOSO, Manuel - Ó linda Chã (Ferreiros de Tendais - Cinfães). Poemas. [Lamego]: [edição de autor], 1996.

Todas as terras têm o seu poeta. Desde tempos imemoriais, pelo menos desde que o Homem articulou os primeiros sons, que a linguagem cedo terá passado pela poesia, pela mnemónica  - ou seja pela repetição poética de certos acontecimentos. De certa forma, os primeiros historiadores terão sido poetas, recordando eventos e imortalizando cenas de amor, tragédia ou heroicidade. 
Cinfães contará, certamente com um punhado considerável de poetas e poetisas que ao longo dos anos musicaram a labuta com canções herdadas ou de improviso. Nem todas escaparam à morte das gerações, ou ao esquecimento do momento que as tornou efémeras. Felizmente que alguns poetas, como Manuel Cardoso, natural do lugar de Chã, freguesia de Ferreiros de Tendais, deixaram para a posteridade a sua obra. Mais ainda tratando-se de um homem de vários lavores, que cedo deixou a sua terra para procurar ofício  na cidade do Porto. Sabido é que a saudade exalta a veia poética. Talvez tenha começado assim.
O livro de poesia "Ó linda Chã", editado em 1996, com prefácio, selecção e revisão do romancista Guido de Monterey, reúne 154 poemas, quadras que falam sobre saudades, pessoas, casos, lendas, lugares. Não podemos de deixar de assinalar, em tópicos, a semelhança ao livro já aqui citado, Musa Sinfanense. Embora distantes um do outro em quase um século, ambos falam da ausência e da distância.
O livro abre com um prefácio de Guido de Monterey e com um breve texto biográfico, também deste autor. Por ele ficamos a saber que Manuel Cardoso apesar de nascido em Trás-os-Montes, radicada a sua ascendência por terras de Chã. Depois de uma passagem pelo Brasil (o destino de tantos cinfanenses ao longo dos séculos XIX e XX), Manuel Cardoso aprendeu na casa de São José do Porto o ofício de Sapateiro e por aí se fixou, fazendo carreira na famosa Sapataria Pessoa, casa de afamada reputação comercial da cidade que, na iminência de fechar foi adquirida por este industrioso cinfanense. Manuel Cardoso faleceu a 30 de Abril de 1995, sendo o seu corpo transportado até à sua freguesia "natal", Ferreiros de Tendais, onde jaz contemplando a terra que cantou.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O nome Cinfães.

Uma leitora do site "História de Cinfães" questionou-nos sobre porque razão se escreve Cinfães e não Sinfães. De facto a segunda grafia foi, sobretudo, utilizada no século XX, nas variantes Sinfães e Sinfains. Mas erróneamente, já que vinha cortar com uma tradição etimológica medieval e moderna: em 1258, Cinfaes, em 1527, Cynfanes, etc. É com "c" que se faz este topónimo. Passemos a palavra ao etimologista e toponomista, o Doutor A. Almeida Fernandes:

Cinfães: O povoamento nos inícios nacionais, ou seja, de que resultou a povoação actual, fez-se por casais e deu o "burgo", como a Cinfães (Sinfães é escrita errónea) se chamava, hoje a vila desde esse tempo. A origem mais longínqua é uma "villa" Qiff(i)anis, de Qiff(il)a, tendo a nasal final provocado a nasalação, Qin-, que é a que hoje temos, Cin- sobre o concelho e a vila, ver o meu art. Gr.[ande] Enc.[iclopédia Portuguesa e Brasileira], vol. 29, pp. 149-160. (ver 1258 IS 972: " ecclesia de Cinfanes de terra de Sancto Salvatores" estava sob o padroado das ordens do Tempo e do Hospital", e lê-se em IS 973 que "quintana de Sancta Ovaya (Eulália) e "villa de Egregioo et villa de Tuberaes et Portela et Casali et villa de Berudi et Villa Nova et Lauredo de Matto et Lauredo de Jusao et Lauredo de Susao et villa de Cinfaes fuerunt de honor de donno Menendo Moniz" (D. Mem Moniz irmão de Egas Moniz, que com ela compartia segundo as inquirições de 1288. [....]

FERNANDES, A. de Almeida - "Povoações do Distrito de Viseu (origens). Cinfães. Beira Alta, Assembleia Distrital de Viseu, Viseu, vol LXI (2002), 14.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Bibliografia cinfanense: Cinfães. Subsídios para uma Monografia do Concelho, 1954


Disponibilizámos, via facebook, a digitalização de todo o material gráfico publicado em GUIMARÃES, Bertino Daciano R. S. - Cinfães (Subsídios para uma monografia do concelho). Porto: Junta de Província do Douro Litoral, 1954. Trata-se da primeira obra monográfica sobre o município de Cinfães pós-1855. Embora tenha sido escrita com o espírito do Estado Novo, privilegiando, por exemplo, as tradições populares e o folclorismo, consegue reunir um interessante conjunto de documentos históricos, não obstante o seu carácter avulso e, por vezes, cronologicamente descontextualizado. Interessa, sobretudo, o acervo fotográfico publicado (cujos originais desconhecemos o paradeiro) (*), por testemunhar uma época e permitir a caracterização de elementos estruturais arquitectónicos e paisagísticos entretanto desaparecidos. Esta monografia foi confiada a um obscuro publicista e musicólogo do Porto, chamado Bertino Daciano Rocha da Silva Guimarães (nasc. 10-11-1901). Licenciado em Ciências Económicas e Financeira, Bertino Daciano foi professor da Escola Comercial Mousinho da Silveira e director do Instituto de Cegos do Porto. A sua obra é vasta, e entre os vários títulos publicados entre 1921 e 1957, contam-se algumas monografias locais, decerto trabalhos encomendados pela Junta de Província do Douro Litoral que, como todas as congéneres, pretendia estimular sobretudo os estudos etnográficos, tão ao gosto da Ditadura. O frontispício do exemplar que reproduzimos e que integra o acervo da nossa biblioteca, pertenceu a Guilherme Giese, um linguista alemão, especialista em estudos ibéricos, a quem a Junta de Província ofereceu este exemplar, talvez numa das deslocações de Giese ao nosso país.
*Nota: as fotografias foram tiradas ou pertenciam a Nicolau Pinto (fotógrafo profissional de Cinfães), Júlio Bertino (Porto), Jaime de Castro Pinto Bravo  e Dr. Armando de Mattos, etnógrafo ligado à Junta de Província do Douro Litoral.

Património religioso de Cinfães: pagela de Nossa Senhora dos Prazeres.


Três patrimónios: o Património Móvel, o Imóvel e Imaterial. A pagela (com uma belíssima cercadura em estilo Arte Nova); o santuário da Senhora dos Prazeres ou do Senhor dos Enfermos em Macieira (Fornelos) e o culto. Colecção de N.R. É proibida a reprodução não autorizada desta imagem.

Em epígrafe: NOSSA SENHORA DOS PRAZERES / de muitos milagres que se venera na Capela de Macieira / freguesia de Fornelos, concelho de Sinfães; 31,5x21,9 cm, processo litográfico sobre papel [pap. e tipografia Leonesa, Porto], c. 1930?.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Sondagem #1: um ano de blogue.


Durante um ano, sensivelmente desde a abertura deste blogue, mantivemos uma sondagem sobre o que os leitores julgavam deveria melhorar em Cinfães: se as vias de comunicação, se a cultura, se a saúde, se o entretenimento ou o emprego. Em tempos de crise, é natural que a falta de emprego suscite a preocupação de muitos cinfanenses. O que é, de certa forma, incompreensível, é que as estradas continuem a liderar a lista de queixas. Hoje em dia o município está razoavelmente servido de boas vias de comunicação, praticamente todos os lugarejos têm acesso viário, seja por asfalto, seja por empedrado. Talvez o acesso regional ao concelho não seja tão bom como isso, mas é impossível lutar contra a geografia e, como se compreende, não pode haver vias rápidas e auto-estradas para todos os lugares. O país já está estragado e taxado que chegue. Curiosamente muitos se esquecem que, se as estradas trazem progresso, também ajudam ao esvaziar de capital humano... Em relação ao facto do interesse na cultura se encontrar mesmo antes mesmo da saúde e do entretenimento, revela, quanto a nós, que os cinfanenses parecem despertar para a necessidade de promover, conhecer e defender o seu próprio património. De facto, numa região cada vez desprovida de infraestruturas industriais, o turismo é uma forma de prender capitais. Só com um património digno de apresentação e com mensagens turísticas claras, concisas e pedagógicas conseguiremos esse elã. O blogue História de Cinfães é a nossa contribuição para esse desígnio. Obrigado a todos os que nos acompanham.

Nuno Resende

Bibliografia cinfanense: As Memórias Paroquiais de 1758.


CAPELA, J. Viriato e MATOS, Henrique, coord. - As freguesias do Distrito de Viseu nas Memórias Paroquiais de 1758. Memórias, História e Património. Braga: [Universidade do Minho], 2010, ISBN: 978-972-98662-5-8. Preço € 60.


Tendo já saído em Agosto de 2010, não podemos deixar de salientar a importância desta obra para os estudos históricos locais e regionais, nomeadamente para o conhecimento do actual município de Cinfães, no século XVIII. Integrando um projecto que pretende transcrever e analisar todas as Memórias Paroquiais de 1758 de Portugal, este volume (o sexto) contempla o Distrito de Viseu. Foi editado pela Universidade do Minho, sendo o coordenador da obra, o Prof. Doutor José Viriato Capela. Entre a página 221 e a página 258 é possível ler cada uma das memórias produzidas pelos párocos das freguesias do actual município de Cinfães: Alhões (cura Manuel Pinto); Bustelo (sem assinatura); Cinfães (encomendado Heitor Cardoso) (nota 1); Ermida do Douro (Abade Luís Leite Lima); Escamarão (reitor António Pereira de Andrade); Ferreiros de Tendais (abade Manuel Antunes); Fornelos (abade Manuel José Carneiro Rangel); Gralheira (cura Manuel Rodrigues); Moimenta ( pároco José Diogo de Figueiredo); Santa Marinha de Nespereira (abade Abel Monteiro de Carvalho); Santo Erício de Nespereira (reitor Pedro Monteiro Coutinho); Oliveira do Douro (abade Baltasar Manuel de Carvalho Pinto Teixeira); Ramires (sem assinatura); Santiago de Piães (abade Manuel Ferreira da Silva); São Cristóvão de Nogueira (reitor José da Cunha e Gouveia); Souselo (abade Francisco Pereira de Carvalho); Tarouquela (reitor José Carlos de Morais Sarmento); Tendais (abade António Leite Pereira) (nota 2); Travanca (Jorge Garcês de Andrade).
Prós: A transcrição, ainda que depurada da ortografia original, é de fácil leitura; os índices e roteiros onomásticos e devocionais.
Contras: a organização por distrito e municípios pós-liberalismo que deturpa a paisagem administrativa contemporânea da fonte (1758); a actualização da ortografia; os ensaios históricos baseados na divisão diocesana actual; e a existência de bibliografia regional de apoio incompleta; o preço e o peso (o que impede um manuseamento prático...)

NOTAS:
1) Esta Memória fora já transcrita e publicada em GUIMARÃES, Bertino Daciano R. S. - Cinfães (subsídios para uma monografia do concelho). Porto: Junta de Província do Douro Litoral, 1954, pp. 187-203
2) Esta Memória foi transcrita por ROCHA, Arnaldo em "As memórias Paroquiais de 1758 de Santa Cristina de Tendais". Tendedeira, 4 (2004) 5-7. Curiosamente nenhum dos transcritores foi capaz de decifrar a letra do Abade António Leite Pereira no respeitante a uma das respostas do inquérito, a 13.ª quando se questionava sobre as capelas, ermidas e seus respectivos administradores. Quando chegou a vez da de São Pedro, no lugar da Granja, o abade respondeu que desta era administrador o Comendador da Hjlmida, ou seja, Ermida, referindo-se à Comenda de Nossa Senhora da Conceição da Ermida do Paiva a qual ficou como administradora dos bens daquele extinto mosteiro. 
Nota final: as respostas ao inquérito paroquial de Cinfães foram sendo publicados ao longo dos últimos 10 anos pelo escritor novelista Guido de Monterey, nas páginas do jornal Miradouro, mas sem qualquer enquadramento histórico ou devida sistematização. Cremos, por isso que a recém lançada obra da coord. do historiador J. Viriato Capela vem providenciar o manual de consulta e investigação que faltava.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Votos.

Ermida do Senhor do Amparo, f. de Alhões, Cinfães, 2004 (c) Nuno Resende


A todos os leitores, cinfanenses e amigos, o autor do blogue História de Cinfães deseja um Santo Natal.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Para que serve a História?

Muitas pessoas confundem História com estória e consideram ambas as palavras como sinónimo para carolice, distracção, passatempo. Enganam-se. A História é o motor das sociedades, das civilizações. Se não recordássemos, viveríamos envoltos numa espécie de nevoeiro: sem orientação não saberíamos de onde tínhamos vindo, nem para onde deveríamos seguir. Um exemplo muito interessante do resultado  do estudo do Passado é poder acautelar o presente e o futuro. Não se trata do recurso a artes adivinhatórias, mas de um planeamento pensado e sério com base em acontecimentos dos quais já não existe tradição oral, mas que um historiador pode reconstituir analisando ou cruzando documentos. Vejamos o caso dos alagos na região de Cinfães. Em 2005 uma enxurrada provocou o pânico em Vila de Muros; já havia memória de algo semelhante ter acontecido, em 1977, e o História de Cinfães recuperou a notícia de um destes desprendimentos de terra e água que atingiu a aldeia em 1844. Mas noutros locais do actual concelho de Cinfães já sucederam casos semelhantes tendo havido registo de mortos e elevados prejuízos, como o que sucedeu, também em 1844, entre as freguesias de São Cristóvão de Nogueira e Santiago de Piães:

"Segundo participação do Governador Civil de Vizeu, em data de 16 do corrente [Março], consta que a 27 [de Fevereiro] do passado, pelas dez horas da manhã, entre as freguezias de S. Christóvão de Nogueira do concelho de Sinfães e Sant-Yago de Piães, do concelho de Sanfins, houve uma explosão de agua e pedras, que seguiu para o lado opposto da freguezia de S. Christovam, na direcção do ribeiro de Oleiros até ao Douro, ganhando n'este curso grande incremento, e causando muitos estragos em distancia de mais de uma legoa. § Destruiu todos os terrenos, fazendo vallas de 60 palmos de altura, e de 30 braças de largo; levou no seu curso 50 moinhos ou azenhas, entulhou o Doiro, e causou a morte a 8 ou 9 pessoas, entre as quaes havia uma familia inteira. O estrago calcula-se em sessenta contos de réis."  Revista Universal Lisbonense, 1844, p. 392.

Se as devidas autoridades que tratam do desenvolvimento e planeamento urbanístico, se socorressem de Historiadores, talvez os Planos Director Municipais fossem gizados com mais cuidado e pudessem evitar a repetição destes fenómenos ou, pelo menos, salvaguardar pessoas e bens de futuras tragédias. Afinal, a História, como se pode ver, não serve apenas para entreter literatos ou decorar estantes. É uma ciência e, como todas as ciências, deve ter por finalidade servir a Humanidade.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Camilo de passagem.

Embora durante a construção da linha do Douro se tivesse discutido sobre o melhor local para colocar a estação que melhor serviria o concelho de Cinfães (alguns políticos sugeriam a Pala) o certo é que com a edificação da ponte metálica de Porto Antigo na década de 1890, Mosteirô passou a ser um dos principais pontos de paragem daquela via férrea. Por aqui passou Camilo Castelo Branco em 1881, numa das fases mais perturbadas da sua vida:


Estamos os dois selvagens, meu caro Negrão. Tu em Mosteirô e eu em S. Miguel de Seide. Ha sete mezes estive na estação proxima de tua casa. Não podia ir abraçar-te porque acompanhava meu filho Jorge que indoudeceu aos 16 annos, tem hoje 18, e está irremediavelmente perdido. Quando passei vinha das Pedras Salgadas onde elle apenas se demorou 2 horas, e quiz immediatamente oltar para casa. Eu adoro este desgraçado; e o que peço a Deus é que m'o deixe viver assim.

Carta de 1 de Abril de 1881, Visconde de Villa Moura, Camillo inédito, pp. 28-29.

domingo, 14 de novembro de 2010

Revista Prado #4

Foi recentemente lançado o número 4 da Revista Prado, uma edição da Associação para a Defesa do Vale do Bestança. É uma revista de âmbito regional, com um excelente grafismo e com intervenções variadas que vão do ensaio à poesia e à literatura, passando pela fotografia, da responsabilidade de Jorge Ventura. Destacamos neste número, os estudos, tão oportunos, sobre paisagem, património, cultura e planeanento, de Ângela Silva e de Pedro Chamusca e o ensaio histórico sobre ilegitimidade, mulher e família no extinto concelho de Tendais, entre 1751 e 1810, da autoria do historiador cinfanense Nuno Resende. A revista pode ser adquirida no sítio da ADVB.

Mapa de Travanca (1956)

Um mapa da freguesia de Travanca, publicado em BROCHADO, Abílio Costa - «A freguesia de Travanca do concelho de Cinfães. Apontamentos para a sua história, IV: capelas da freguesia. Douro Litoral, Porto, JPDL, 7ª série, I-II, (1956) 69-147.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Bibliografia cinfanense #5

GONÇALVES, Abel, padre - Catarse. [Braga]: [edição do autor], 2007, ISBN: 978-989-20-0860-8.


Chegou-nos recentemente às mãos, por amável oferta do seu autor, o livro Catarse. Trata-se de uma edição de memórias pessoais do Padre Abel Gonçalves, cinfanense, natural do lugar das Pias. É um exercício de lembrança, dolorosa por um lado, saudosa, por outro, dos tempos de Guerra Colonial, que o autor viveu entre 1971 e 1974. E é, também, um olhar-homenagem de e para todos aqueles (muitos cinfanenses) que deixaram a sua terra, uns para não voltarem, outros para a ela regressarem com as inevitáveis marcas da guerra. Este livro é, pois, um documento privilegiado dessa época.
"Abel Gonçalves nasceu no lugar de Pias, freguesia e concelho de Cinfães, a 1 de Novembro de 1931. Em Outubro de 1958 concluiu o Curso de Teologia no Seimnário Menor de Lamego. Em Outubro desse ano, foi nomeado Pároco de Valença do Douro. Após ter passado por várias dioceses, em Março de 1971 foi incorporado no Exército e seguiu com o Batalhão 1911 para a Província Ultramarina da Guiné, com o posto de Alferes. Havia de voltar a África, em 1972. Regressa a Portugal no atribulado ano de 1974. Em 1987, por velhice e doença dos, após vinte anos de serviço efectivo pede a passagem à situação de reforma. Presentemente é um dos capelães da Capela das Almas, no Porto". (da badana)

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Tendais house: um prémio de arquitectura em Cinfães

Foto retirada daqui.

A freguesia de Tendais, no concelho de Cinfães, entrou recentemente para o roteiro da arquitectura contemporânea de qualidade, com a atribuição de um prémio, em Miami, ao arquitecto Fernando Mendes Pinheiro pela habitação que projectou para o lugar de Quinhão (Cabo). 
«A CASA DA ARQUITECTURA inaugura a 5 de Novembro, pelas 21h00, a 3ª exposição do Ciclo “Jovens Arquitectos Premiados” com a apresentação do projecto “Tendais House” distinguido com a medalha de prata na Bienal de Arquitectura de Miami Beach 2009 na categoria “Habitação Unifamiliar” do arquitecto, Fernando Mendes Pinheiro (A43 arquitectura).» Mais informações em Casa da Arquitectura.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Cinfães do Douro, ou apenas Cinfães?

Um dos erros mais comuns que se comete ao escrever ou ao referir-se ao concelho Cinfães é denominá-lo Cinfães do Douro. Esta designação não existe nem nunca existiu como designação oficial. De resto, só se utilizam as expressões "do Douro", "da Serra", "da Beira", "velha", "nova", etcª, quando são conhecidas duas ou mais localidades com o mesmo nome, como as inúmeras Oliveiras que, para se diferenciarem geograficamente entre si acrescentaram o topónimo ou macro-topónimo do território em que estão localizadas (ex.º Oliveira do Douro e Oliveira da Serra). Ora, não existe em Portugal outra povoação com o nome de Cinfães, pelo que nunca foi necessário estabelecer qualquer diferenciação geográfica.
A confusão para a denominação Cinfães do Douro deve residir em dois factos: o primeiro, o mais óbvio, de que Cinfães se encontra próximo daquele rio e daí surja a associação entre ambos; o segundo facto prende-se com o topónimo Sanfins que foi, até 1855, o nome de um dos concelhos que se extinguiu para originar o actual município cinfanense. Pois bem, existem, ao longo do vale duriense, duas (outrora importantes) povoações chamadas Sanfins. Uma em Santiago de Piães e outra no actual concelho de Alijó. Como ambas foram sedes de município até ao Liberalismo, houve necessidade de distingui-las pela sua localização.
Apesar de Sanfins, próximo a Piães, ficar relativamente perto do Douro, recebeu o epíteto "da Beira", pois até ao século XX (antes de ser criada a Província do Douro Litoral) situava-se nessa região e a Sanfins de Alijó, ficou sendo "do Douro" por se encontrar no coração daquela região demarcada. Ora, Cinfães e Sanfins são palavras foneticamente muito próximas e é natural que parte da confusão resida nesse facto. É afinal um absoluto desperdício de palavras e até um contra-senso acrescentar "do Douro", mesmo que, por motivos turísticos que se queira aproximar ao rio uma localidade que, infelizmente, surge amiúde nas notícias por motivos menos honrosos. De resto não existe Baião do Douro ou Resende do Douro.
O topónimo Cinfães é suficiente para nomear esta localidade, de resto hoje, e desde 1855, composta equilibradamente por uma parte serrana e uma  "zona" ribeirinha. O seu caráter reside, aliás, nesse nome único na toponímia portuguesa.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A toponímia em Cinfães.



Cinfães tem um problema toponímico. Quer isto dizer que, na recente febre de baptizar todas as ruas, quelhos, congostas, becos e rotundas, tem-se ignorado que o município possui uma toponímia histórica, construída pelos seus habitantes e tem uma História, que os habitantes e os governantes municipais infelizmente ignoram. Talvez por isso se tenha optado por nomear artérias novas e antigas da vila de Cinfães com nomes de apaniguados partidários, heróis políticos nacionais e, mais raramente, um cinfanense (geralmente o mesmo, ou seja, Serpa Pinto). O problema é, contudo, regionalmente endémico e muito revelador do atraso cultural dos senhores que nos gabinetes das Câmaras decidem estas coisas. Já o é assim pelo menos desde o Estado Novo que baptizou as então pobres ruas de Cinfães com nomes de homens do regime, como Major Monteiro Leite ou Coronel Numa Pompílio. Mas, alguém, sabe quem foram estes homens? o que fizeram por Cinfães e qual a sua importância a nível nacional? Claro que não. Como amanhã ninguém saberá quem foi o fulano ou sicrano que sendo apenas mais um médico, um político, um padre ou um juíz que mais não fizeram do que cumprir a obrigação profissional, vêm o seu nome atribuído a uma rua . Entretanto perde-se a toponímia e a memória histórica, que de tão maltratadas andam pelas ruas da amargura. Ao menos dê-se a uma avenida nova o nome de Avenida dos Cinfanenses, como respeito por quem cá e pelo mundo fora chora a distância à sua terra. Anónimos que construíram com as mãos este concelho e por quem os grandes e poderosos cada vez têm menos respeito.

sábado, 9 de outubro de 2010

Cinfães representada na 1.ª revista dos bens culturais da Igreja em Portugal


Com o artigo: RESENDE, Nuno - "O discurso do tempo: para uma releitura das Memórias Paroquiais de 1758. Invenire, Lisboa: SNBCI, n.º 1 (2010) 14-17.


"Única publicação nacional que se dedica a informar sobre o património cultural, documental e artístico da Igreja Católica em Portugal, aposta na difusão de projectos de salvaguarda e intervenções de valorização, mas também na divulgação de estudos inéditos, propostas de interpretação actuais e obras pouco conhecidas do público em geral. É essa a sua especificidade. A articulação entre temas da actualidade, numa vertente informativa, e estudos de natureza científica, baseados em investigações originais." Esta publicação é de excelente qualidade gráfica e de conteúdos diversificados. Será, com certeza, uma mais valia para o estudo, reconhecimento e salvaguarda do património em Portugal. Pode ser adquirida, aqui.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Bibliografia cinfanense #4


Saíram já as Actas do IV Congresso sobre a Ordem de Cister em Portugal e na Galiza. Sublinhamos o facto de virem a lume, nesta edição, novos dados sobre a presença daquela ordem religiosa no território do actual concelho de Cinfães, nomeadamente em Meridãos, Soutelo, e a Granja, três povoações da freguesia de Tendais. O artigo intitula-se "Escrever História sem palavras: a influência económica e espiritual dos mosteiros cistercienses de Tarouca e Salzedas na serra de Montemuro" e é da autoria de Nuno Resende. Embora se centre numa vasta região entre o Douro e o Paiva, o artigo dedica parte substancial à análise daqueles três casos que revelam a presença e a intervenção monástica a níveis económico e espiritual de e na humanização e no ordenamento territorial do actual concelho de Cinfães. Mais informações, aqui.

sábado, 18 de setembro de 2010

As preocupações de ontem. E as de hoje.

Porto Antigo

«Melhoramentos»

Poucas terras haverá que tanto careçam de melhoramentos relativamente a viação publica, como este concelho.
 
Existem apenas dous trechos de estradas de macadam, um que atravessa a fréguezia de Espadanedo, e penetra nas de Tarouquella e Sozéllo, e outro n’esta villa, que vae terminar em S. Christóvão, proveniente da quinta da Granja, do sr. Pedro de Bourbon. Ha ainda um bocado de poucas dezenas de metros, em Porto Antigo, juncto á ponte de Mosteirô. Tudo isto que é devido apenas ao sr. Conde de Castello de Paiva, é muito pouco para este concelho, onde ha caminhos que são verdadeiros precipicios, e onde e a necessidade de communicações mais commodas muito se faz sentir. A ligação dos trechos de estradas mencionados traria grandes vantagens para o publico, e para o commercio d’esta villa, com a estação de Mosteirô por meio de uma via commoda e por onde possam transitar á vontade os vehiculos: uma estrada de mac-adam que partindo das proximidades do tribunal, para onde a villa tende a deslocar-se, fosse atravessar o Ribeiro Bestança, perto da emboccadura por meio de uma ponte, tinha a grande vantagem de tornar ás povoações de Porto Antigo e Souto do Rio facil a passagem no Bestança, que no inverno sómente se póde fazer em barco. É de tal necessidade esta ponte, que já dous particulares, a ex.mª sr.ª D. Maria, do Souto do Rio, e o sr. Adriano de Serpa, construiram um, n’esse sitio, á custa do seu bolso, a qual foi não ha muito tempo, arrebatada por uma cheia.

Fallando de melhoramentos não podemos occultar que a ligação d’esta villa com Castro Daire traria grande vantagem não sómente ao commercio de Sinfães, mas tambem aos povos de Castro Daire que teriam grande commodidade em se aproveitar d’essa estrada para irem para o comboyo sem terem de dar a volta a Lamego, como fazem agora. (…)
 
A Justiça de Sinfães, 06-06-1897. A fotografia foi extraída de GUIMARÃES, Bertino Daciano R. S. - Cinfães (subsídios para uma monografia do Concelho). Porto: Junta de Província do Douro Litoral, 1954, p. 81, sendo a fotografia da autoria de Júlio Bertino, do Porto.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Dicionário Histórico e Biográfico de Cinfães: A. Cardoso Esteves

António Cardoso Esteves
São Cristóvão de Nogueira, 1886 | 1934
Licenciado em Direito pela U.C.
Administrador Municipal de Castro Daire
Secretário da Presidência do Tribunal da Relação do Porto

O texto que damos aqui à estampa, em formato digital e devidamente transcrito, foi adquirido há alguns anos num alfarrabista do Porto. Artigo anónimo, dactilografado, destinava-se, talvez, a algum jornal local ou regional e ainda que escrito em tom laudatório e hagiográfico é um documento interessante para o conhecimento das relações sociais e do período político de final da Monarquia e transição para a República, cujo centenário este ano se evoca.


(clique sobre as imagens para aumentar)


O Dr. António Cardoso Esteves, nascido no Temporão, lugar da Freguesia de S. Cristóvão de Nogueira, do concelho de Cinfães, foi um democrata convicto que militou no Partido Progressista ao lado de vultos eminentes, de entre os quais haverá que lembrar o "Deputado da Ponte" - o Dr. Amadeu Leite de Vasconcelos - como ele também natural da referida freguesia de S. Cristóvão de Nogueira.

Iniciou a sua carreira profissional em Cinfães como advogado após a sua formatura pela Universidade de Coimbra em 1909, mas em breve ingressou na magistratura, desempenhando funções de Delegado do Ministério Público nos Açores e depois na comarca de Cuba, no Alentejo.

Daqui transitou para o lugar de pólítico de Administrador do concelho de Castro Daire, aproximando-se, portanto, da terra da sua naturalidade, pois são concelhos limítrofes, ambos do Distrito de Viseu.

A sua actividade política dirigira-se sempre no sentido do engrandecimento de toda essa pulquérrima região que lhe servira de berço e que muito amou durante toda a sua relativamente curta existência.

No entanto, os períodos conturbados de antes e a seguir à implantação da República em 1910, a deflagração da primeira Guerra Mundial, e essa época do final duma guerra, que nada resolveu de positivo para a humanidade, e os períodos incertos que se seguiram até à revolta de Braga que culminou com a instauração de um novo regime político, não permitiram que pudesse firmar e afirmar a sua capacidade de homem de acção.
Era, o Dr. António Cardoso Esteves, um político de honestidade e lealdade indesmentíveis, e de princípios firmes, atributos reconhecidos pelos seus próprios adversários políticos.

Quando deixou de ser Administrador do concelho de Castro Daire foi para ocupar o lugar de Secretário da Presidência do Tribunal da Relação do Porto, lugar cujas funções desempenhava quando a morte tragicamente o atingiu em Abril de 1934.
Em todos esses lugares soube granjear amizades firmes e duradouras, porque o seu trato era afável, e sobretudo, a bondade imperava no seu modo de ser e de se conduzir. Tudo isso contribuía para se impôr, como político, à consideração tanto de correligionários como de adversários políticos.
Foi sempre fiel, em quaisquer circunstâncias, ao seu pensamento político, fôssem quais fôssem os regimes ou os governos partidários tão inconstantes no período compreendido entre a implantação da República //

e o advento do regime instaurado após o 28 de Maio de 1926.

Essa sua firmeza de convicções, demonstra o seu caracter digno, que segue em frente por uma linha recta e da qual nada o consegue desviar.

Esta sua firme conduta não podia, naquele conturbado período da politica nacional portuguesa, deixar de lhe criar dissabores morais e físicos, como facilmente se compreende e ainda mais facilmente o compreendem os que viveram nessa época e que ainda tenham a felicidade de viver nesta data.

Sofreu fisicamente, andando "a monte", como então se dizia daqueles que tinham necessidade de se esconder para evitarem ser presos pelas autoridade às ordens dos dirigentes dos partidos adversos então nos "poleiros da governação", e que estendiam a sua influência até às autoridades regionais civis e militares.

Se algumas vezes andou fugido, isto é, escondido, não evitou que também tenha sido detido e estado preso conjuntamente com corregilionários seus às ordens da autoridade civil do concelho.

recordamos alguns desses espíritos liberais que compartilharam com ele as tarimbas da prisão: - o já referido Dr. Amadeu Leite de Vasconcelos, Roque Calheiros, Dr. Cunha, Dr. Arnaldo Reimão da Fonseca, José Ferreira Pinto de Oliveira, e outros...

A política, porém, não representava para ele um trampolim para se alcandorar, mas dado o seu caracter bondoso e justo, procurava através dela que a sociedade encontrasse uma melhor e mais eficiente justiça social.

Teve uma existência curta, falecendo em Abril de 1934 com apenas 48 anos de idade, mas soube impôr-se cirando [sic] amigos, que muito tempo depois ainda o recordavam com amizade, e entre os adversários políticos alguns houve que ainda ha relativamente poucos anos se lhe referiam com palavras respeitosas.

Faz bem recordar pessoas que pelo seu passado tenham dignificado o homem; dar-se a conhecer aos vindouros as lições dessas existêcias [sic] para que possam servir-lhes de modelo e neste caso está a existência da pessoa do Dr. António Cardoso Esteves que acabamos, em traços largos, de referir e de caracterizar.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Cinfães: um percurso em imagens.

Está em preparação a maior base de dados fotográfica sobre o concelho de Cinfães, no Flickr. Visite o site, aprecie, comente, sugira e aprecie. Aqui ficam as primeiras contribuições.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Proximidades.

Anúncio do inicio do século XX. Sendo Aregos uma das estâncias termais mais procuradas em Portugal e, sobretudo, na região Norte, a ela acorriam muitos cinfanenses na busca de alívio para as suas maleitas.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Literatura cinfanense: Alves Pinto (I)


ALVES PINTO, Laurentino (1943-) - Minha Nespereira nossa. [Porto]: edição de autor, 1977, 18,5x12,5 cm (com fotografia do autor e síntese biográfica na contra-capa)

O município de Cinfães possui já uma «tradição» literária de escrita realista e neo-realista, de produção local ou que toma a região como cenário, desde o já aqui referido Abel Botelho, passando por Alves Redol e Papiniano Carlos, até Guido de Monterey, Carlos Oliveira Silvestre e Alves Pinto. Da autoria deste último escritor, apresentamos o livro «Minha Nespereira Nossa», uma incursão memorialística pela freguesia de onde é natural, e cuja escrita privilegia a descrição dos indivíduos populares, ofícios e casos «típicos». Um interessante documento sobre a vivência nespereirense do século XX, escrito nos alvores da democracia da III República e cuja prosa é claramente influenciada pelos autores e temas neo-realistas portugueses.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Centenário da República em Cinfães: antologia photographica #7

Igreja matriz de Cinfães. Postal não circulado, s/ data, colecção de Nuno Resende
(A disponibilização de uma cópia digital desta fotografia está disponível para trabalhos escolares e académicos. Envie o seu pedido para historiadecinfaes@gmail.com)

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Bibliografia cinfanense #3

Musa Sinfanense é um pequeno livro de poesia, da autoria de António Teixeira de Castro Montenegro, sobre quem pouco sabemos. Foi editado em 1938, provável edição de autor com distribuição a cargo da Livraria Progredior, no Porto. Através desde dado e da referência no prefácio, supomos que António Teixeira, embora ligado a Cinfães por laços familiares, devia ter vivido e singrado naquela cidade, (talvez como comerciante ou proprietário), dado que deseja legar 20% sobre o lucro da venda deste pequeno livro a favor dos alunos que frequentarem a Escola oficial masculina n.º 5, na Avenida Baltazar Guedes, ao Bonfim. Dado que a zona oriental do Porto, onde se localizava aquele estabelecimento de ensino, era área particularmente atractiva para migrantes e imigrantes, talvez António de Castro Montenegro aí vivesse ou por lá tivesse passado a caminho ou de retorno do Brasil. Pelos singelos poemas podemos ainda constatar a existência de uma filha, Marília (pp. 10-11), o gosto do autor por Camilo Castelo Branco (p. 17), a sua homenagem aos aviadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral (que em 1938 retumbava ainda como um feito digno dos argonautas da Expansão) e o contacto com alguns dos espaços urbanos no Porto (Palácio de Cristal) e arredores (Leça, Gondomar). O autor dedica, ainda, uma poesia à sua Aldeia (pp. 42-44), sem, contudo, revelar o topónimo. Seria junto ao Paiva, pois a este rio se refere no poema «O primeiro mestre de natação» («o meu Paiva murmurante», p. 52). Sobre o percurso escolar de António Teixeira, é possível acrescentar algumas notas graças à poesia que legou. Em 1911 despediu-se da Escola Normal e passou algum tempo pelo hospital psiquiátrico Conde Ferreira, onde diz ter tirado um curso, «estudando, noite e dia / Letras, direito e até cursando psiquiatria», como refere um curioso poema em que rebate o remoque ou sátira de outrem em relação tal período. Como refere o anúncio na primeira página da obra, estava em preparação o 2.º volume desta Musa Sinfanense que, tanto quanto supomos, não terá chegado a ver a luz do dia. Referência bibliográfica: MONTENEGRO, António Teixeira de Castro - Musa Sinfanense. Porto: [edição de autor], 1938, 71 pp., 19,5x13 cm.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Centenário da República em Cinfães: antologia photographica #6


Igreja de Oliveira do Douro. Postal não circulado de uma colecção de 9 que reproduzem aspectos vários de Oliveira do Douro, finais do século XIX. Colecção particular. Atrás da pequena igreja de Oliveira (que nesta altura ainda não possuía campanário) a imponente Casa da Castanheira com os seus acrescentos e edifícios anexos. Embora suspeitemos que este postal seja anterior à implantação da República, não deixa de ser um documento valiosíssimo para o estudo da arquitectura e da própria evolução história da paisagem por terra de Cinfães, nos últimos 150 anos.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Centenário da República em Cinfães: antologia photographica: #5

Ponte de Porto Antigo dinamitada em Janeiro de 1919 na sequência da «Monarquia do Norte, c. 1919, digitalização de positivo fotográfico em papel, colecção particular de Nuno Resende. A propaganda republicana, após a contenção do movimento (sedeado no Porto entre 19-01 e 23-02-1919) imputou responsabilidades aos monárquicos pela implosão da estrutura. Os monárquicos, em sua defesa, responsabilizaram as tropas de Abel Hipólito (militar e , em 1919, Senador por Viseu). Dado que a República venceu, foram acusados conspiradores realistas de Cinfães, como o Padre Freitas e o amanuense da Câmara Municipal, Alfredo da Silva Pimenta. Este último foi julgado exemplarmente, onde o testemunho de apaniguados do regime substituiu as provas. A ponte é uma boa metáfora para este tempo conturbado: liga duas margens nas duas direcções. A razão está de qual dos lados? (nota: no canto inferior direito é possível ver parte do grande areal de Porto Antigo).

(A disponibilização de uma cópia digital desta fotografia está disponível para trabalhos escolares e académicos. Envie o seu pedido para historiadecinfaes@gmail.com)

Centenário da República em Cinfães: antologia photographica: #4

«Vista das Pias», digitalização de positivo fotográfico em papel, c. 1960/1970, colecção particular de Nuno Resende.

(A disponibilização de uma cópia digital desta fotografia está disponível para trabalhos escolares e académicos. Envie o seu pedido para historiadecinfaes@gmail.com)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Dicionário Histórico e Biográfico de Cinfães: Abel Botelho

ABEL BOTELHO
1855-Set-23, Tabuaço / Argentina, 1917
Militar, escritor e político republicano

Evocar o Centenário da República em Cinfães e não referir o escritor Abel Botelho é passar ao lado da História. Não que o militar, escritor e político republicano esteja de forma directa ligado ao município cinfanense, mas na sua vida e obra vamos encontrar pontos de ligação através dos quais podemos conhecer o ambiente social e político locais nos últimos 150 anos.

Abel Acácio de Almeida Botelho nasceu em Tabuaço, filho de um militar e professor, Luís Carlos de Almeida Botelho, e de uma senhora da pequena nobreza local, D. Maria Preciosa de Azevedo Leitão, da família Leitão que Manuel Gonçalves da Costa refere como arreigados miguelistas (COSTA, M. Gonçalves da Costa – Lutas liberais e miguelistas em Lamego. Braga: edição de autor, 1975 pp. 197198). Tendo ficado órfão de seu pai aos 12 anos, foi encaminhado ao Colégio Militar (que frequentou entre 1867 e 1872), de onde saiu com o posto de aspirante.

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quinta-feira, 3 de junho de 2010

Centenário da República em Cinfães: antologia photographica: #3


Vista geral da vila de Cinfães, finais do séc. XIX, inícios do séc. XX. Digitalização de postal circulado, colecção particular de Nuno Resende.

(A disponibilização de uma cópia digital desta fotografia está disponível para trabalhos escolares e académicos. Envie o seu pedido para historiadecinfaes@gmail.com)

Centenário da República em Cinfães: antologia photographica: #2


Ponte de Caninhas, sobre o rio Paiva, entre os municípios de Cinfães e Castelo de Paiva. Digitalização de postal circulado (ed. Commercio do Porto), início do século XX, colecção particular de Nuno Resende.

(A disponibilização de uma cópia digital deste postal está disponível para trabalhos escolares e académicos. Envie o seu pedido para historiadecinfaes@gmail.com)

Centenário da República em Cinfães: antologia photographica: #1


Vista sobre a desembocadura do rio Paiva e ilha do Outeiro Escamarão (que, como a imagem deixa perceber não era uma ilha mas uma pequena península).
Década de 1960 [?]. Positivo fotográfico da colecção particular de Nuno Resende.

(A disponibilização de uma cópia digital desta fotografia está disponível para trabalhos escolares e académicos. Envie o seu pedido para historiadecinfaes@gmail.com)

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Comemoração do Centenário da República em Cinfães

Obrigado a todos pelas mensagens de apoio contra o triste acto de desrespeito cometido na sequência do projecto de Comemoração do Centenário da República, por nós lançado, em Janeiro deste ano, entre as Escolas de Cinfães. De todas as notas solidárias, não poderia deixar de destacar este sempre arguto e oportuno pensamento poético do Prof. João de Castro Nunes, que me foi dedicado nas listas do hisport.

Abaixo a ladroeira das ideias
que são propriedade pessoal
de quem vida lhes deu, mas que afinal
ninguém respeita, nem sequer a meias!

João de Castro Nunes

Comunicamos que, com o acervo fotográfico disponível, reunido em anos de investigação, iremos promover aqui, neste sítio, o desenvolvimento do projecto em epígrafe. Contamos com a colaboração de todos os estudantes de Cinfães, professores, em suma, todos os cinfanenses, interessados na cultura da sua terra e na promoção de uma mensagem de cidadania para o Futuro.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Comunicado.


(foto 1 - clique para aumentar)


A 4 de Janeiro do presente ano tomei a iniciativa de enviar uma circular aos Conselhos Executivos e Directivos das principais escolas e agrupamentos escolares do município de Cinfães. Numa breve exposição propunha que se congregasse a Escola, através dos seus docentes e discentes, e as comunidades locais. em torno de uma iniciativa inclusiva que recordasse o Centenário da República a partir de uma perspectiva social e dinâmica abrangente. A ideia era resgatar o património fotográfico individual e familiar local dos últimos cem anos, o qual seria digitalizado, devidamente acomodado e estudado com fins pedagógicos e científicos.

De todas as Escolas contactadas, apenas uma professora do grupo de História do Agrupamento de Escolas de Souselo louvou a iniciativa, comunicando a sua adesão à mesma.

Junto com a circular, enviei um memorando (foto 1) que, de forma provisória, dava conta de alguns elementos do projecto, tais como a finalidade, os objectivos e um breve cronograma.
Até ao presente mês (Maio) resposta alguma, oficial, recebi.

Ontem, ao consultar a Revista Municipal Cinfães, no seu número 40 fui confrontado com um anúncio intitulado «Álbum de recordações», onde se solicitava a recolha de fotografias antigas e desenvolvia a ideia de «reunir essas imagens e construir uma base de dados digital que depois poderá ser utilizada para diversos fins: exposições, publicações imprensas [sic], elaboração de postais, colocação na página electrónica da Câmara [...]».

Como se pode comparar pelo memorando em anexo e pela reprodução gráfica do site da Câmara com o texto da revista (foto 2), as semelhanças são gritantes.


(foto 2 - clique para aumentar)

É uma situação, no mínimo flagrante, de plágio. Como cidadão, mas sobretudo como autor e como historiador - ofício já tão pouco dignificado - sinto-me profundamente magoado por ver o desrespeito votado à maior das criações humanas: o pensamento.

Já não se pede que se pague, por que abnegado, o trabalho em prol da própria terra mas haja, pelo menos, respeito pelos direitos autorais e pela livre criação, eixos tão esquecidos e maltratados e, no entanto, contemplados no artigo 42.º da Constituição da República Portuguesa.

Nuno Resende

Publicado em Histport

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Bibliografia cinfanense #2

A freguesia de Travanca

25x18 cm
BROCHADO, Abílio da Costa - A Freguesia de Travanca. Da vida do Povo Português - História, costumes, tradições e linguagem de uma pequena aldeia da Beira-Douro
Separata do Boletim da Casa Regional da Beira Douro
Porto
1957

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Resistência monárquica em Cinfães (1919)


Panfleto de propaganda exaltando a proclamação da monarquia.
Editado pela Junta Monárquica de Nespereira (c. Cinfães)
C. 1919




Publicado em VENTURA, Jorge - «A Monarquia do Norte em Cinfães (relato de alguns episódios). Terras de Serpa Pinto, 8 (1998) 35-68 e aqui.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Dicionário Biográfico de Cinfães: José da Silva Cardoso Pereira e Vasconcelos

José da Silva Cardoso Pereira e Vasconcelos (séc. XVIII, n. Marcelim, Tendais – f. Souto do Rio, Cinfães)
Pescador, comerciante e proprietário
 

José da Silva Cardoso Pereira e Vasconcelos, que terá nascido no final da primeira metade do século XVIII, é um caso de sucesso que contradiz a ideia da sociedade de classes do Antigo Regime, fechada e avessa à mobilidade social. A sua vida diz-nos muito sobre a capacidade empreendedora do homem setecentista e, mais ainda, da tenacidade dos filhos ilegítimos, a quem por lei ou por tradição nem sempre eram dadas as mesmas oportunidades. Encontramos a referência à sua vida no folhetim "Os dois falladores", da autoria do notário A. Cardoso Pinto de Vasconcelos*, publicado no jornal A Justiça:
O Álvaro José Cardoso Pereira de Vasconcelos, que foi capitão de ordenanças [do concelho de Cinfães], casou-se com D. Quitéria Eufrásia Pinto de Vasconcelos; mas deste matrimónio não lhe sobreviveram filhos. Teve, porém, um filho natural de nome José da Silva Cardoso Pereira e Vasconcelos Montenegro, sendo sua mão Maria Rodrigues, solteira, de Marcelim da freguesia de Tendais, filha de Manuel Rodrigues e Natália Rodrigues Ribeiro, do mesmo lugar de Marcelim. Este José da Silva Cardoso Pereira e Vasconcelos Montenegro, filho único, natural e perfilhado pelo pai dito capitão, Álvaro, em vida do pai tomou conta da administração da casa, e pelo seu trabalho de pescador exímio chegando a auferir da pesca 600$000 réis anuais, e de comerciante de frutas de espinho e de madeiras, tornou o cais do Souto do Rio um dos melhores do Rio Douro (1).

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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O Românico de Cinfães

O município de Cinfães acaba de aderir à Rota do Românico sendo incluído num interessante projecto de turismo cultural que há cerca de uma década marca a região do Vale do Sousa. Esperamos que, com esta iniciativa, se olhe com mais atenção para o património religioso e que, sobretudo, se invista mais na salvaguarda e no estudo do legado que recebemos dos nossos antepassados. Não basta, contudo, providenciar sinalética que indique a presença de monumentos. É preciso conhecê-los, respeitar a sua funcionalidade religiosa e compreender a sua existência. P.S. E esperamos que os técnicos tenham o bom senso de ultrapassar os anacronismos burocráticos actuais e, ainda que vinculando Cinfães aos Vales do Sousa e Tâmega, respeitem as especificidades do românico duriense. Até porque a arte e a cultura não se formatam segundo grelhas administrativas actuais...
Fotografia: Igreja de Tarouquela (créditos: Hélder Reis (c) Olhares) um belo exemplar da arquitectura românica, profundamente alterado interiormente e prejudicado pelo enquadramento a que foi submetido.

sábado, 9 de janeiro de 2010

O condestabre de Portugal, : D. Nuno alvres Pereira (1627)

Canto XX
[...]
A muytos terras deu, descanso, & vida,
Rendas, estados, bens, terras reparte,
Deixando aos claros netos igual parte.
Tendaes, terra de Payva, & de Lousada
Maritima Loulé sempre importante,
A desejada, & belicosa Almada
Deu á neta isabel ditosa Infante,
Que já com o claro tio desposada
Antecipava as glorias de adiante,
Para encher de venturas toda Espanha,
E de troféus toda a terra estranha.
[...]

Francisco Rodrigues Lobo

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Bibliografia cinfanense #1

As cantas e os cramóis

24,8x18,6 cm
BONITO, Rebelo Bonito e PEREIRA, Vergílio - As "Cantas" e os "Cramóis" do Cancioneiro de Cinfães como formas arcaicas da Etnografia Musical.
Separata do Boletim do Douro-Litoral (n.º 1, III série)

sábado, 26 de dezembro de 2009



Notícia do «Castelo de Chã» na revista L'Univers: histoire et description de tous les peuples (1846), segundo a apologia de Joaquim de Santa Clara de Sousa Pinto na Revista Panorama . Erroneamente designada por «Castelo», a Torre de Chã foi construída como casa-fortificada de um clã nobiliárquico, à semelhança de muitas outras que pontilhavam na região (São Cipriano, Torre de Paçô, em Oliveira do Douro, etc). No século XIX a família Sousa Pinto, de Fundoais, modelou a imagem actual da Torre, fazendo-a sede da linhagem dos Pintos e fazendo confluir até ela o desejo de um ideal de nobreza romântico (imagem aproveitada pelos escritores da época, como Rebelo da Silva, Alberto Pimentel e Camilo Castelo Branco).

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Guiães (ou Cinfães)

Como aventámos na Monografia de Cinfães, editada em 2000 (Pelouro da C.M. Cinfães), cremos que a localidade de Guiães que Eça refere, pela boca de Jacinto e de José Fernandes no romance «A Cidade e as Serras», poderá ser Cinfães. Admitimos tal hipótese, não apenas pela semelhança dos topónimo s mas pela distância a Tormes e pela descrição da paisagem de Guiães que bem poderia caracterizar a de Cinfães. Se não, «ouçamos»:

«As historias, muito simples e muito caseiras, que eu lhe contava, de Guiães, do abbade, da tia Vicencia, dos nossos parentes da Flôr da Malva, tão sinceramente o interessavam que eu encetára, para seu regalo, a chronica completa de Guiães, com todos os namoricos, e as façanhas de forças, e as desavenças por causa de servidões ou d'aguas. Tambem por vezes nos enfronhavamos, com afferro n'uma partida de gamão, sobre um bello taboleiro de pau preto, com pedras de velho marfim, que nos emprestára o Silverio. Mas nada de certo o encantava tanto como atravessar as casas, pé ante pé, até uma saleta que dava para o pomar, e ahi ficar encostado á janella, sem luz, n'um enlevado socego, a escutar longamente, languidamente, os rouxinoes que cantavam no laranjal.»

Eça de Queirós, A Cidade e as Serras, 1901 [consulta online aqui]

sábado, 7 de novembro de 2009

Notícias de Cinfães (I)



Revista Universal Lisbonense, Tomo III (1843-1844), p. 392. A notícia (datada de 27 de Fevereiro de 1844) reporta-se a um fenómeno conhecido localmente como "alágo" que 1977 e, mais recentemente, em 2005 provocou mortos e diversos estragos materiais na zona de Vila de Mures e Valverde, em Tendais. O deflorestamento ou o desmatamento, que favorecem a erosão dos solo, parece estar na origem de tal fenómeno que permite a formação de bolhas de água e o consequente desprendimento de terras, provocando graves enxurradas.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Agenda #1: conferência sobre Serpa Pinto (1846-1900)



Conferência – A actividade diplomática de Serpa Pinto, o Palácio da Junqueira e os Burnay: “o mundo através de negativos” (colecção de vistas estereoscópicas da Quinta do Paço, Cinfães) Palácio Burnay - Rua da Junqueira, 30 1300 Lisboa [17h30] - Conferencista: Nuno Resende (CEPESE – UP, Doutorando em História de Arte Portuguesa). Para mais informações, consulte o site do IICT.

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