segunda-feira, 21 de junho de 2010
segunda-feira, 14 de junho de 2010
Bibliografia cinfanense #3
Musa Sinfanense é um pequeno livro de poesia, da autoria de António Teixeira de Castro Montenegro, sobre quem pouco sabemos. Foi editado em 1938, provável edição de autor com distribuição a cargo da Livraria Progredior, no Porto. Através desde dado e da referência no prefácio, supomos que António Teixeira, embora ligado a Cinfães por laços familiares, devia ter vivido e singrado naquela cidade, (talvez como comerciante ou proprietário), dado que deseja legar 20% sobre o lucro da venda deste pequeno livro a favor dos alunos que frequentarem a Escola oficial masculina n.º 5, na Avenida Baltazar Guedes, ao Bonfim. Dado que a zona oriental do Porto, onde se localizava aquele estabelecimento de ensino, era área particularmente atractiva para migrantes e imigrantes, talvez António de Castro Montenegro aí vivesse ou por lá tivesse passado a caminho ou de retorno do Brasil. Pelos singelos poemas podemos ainda constatar a existência de uma filha, Marília (pp. 10-11), o gosto do autor por Camilo Castelo Branco (p. 17), a sua homenagem aos aviadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral (que em 1938 retumbava ainda como um feito digno dos argonautas da Expansão) e o contacto com alguns dos espaços urbanos no Porto (Palácio de Cristal) e arredores (Leça, Gondomar). O autor dedica, ainda, uma poesia à sua Aldeia (pp. 42-44), sem, contudo, revelar o topónimo. Seria junto ao Paiva, pois a este rio se refere no poema «O primeiro mestre de natação» («o meu Paiva murmurante», p. 52). Sobre o percurso escolar de António Teixeira, é possível acrescentar algumas notas graças à poesia que legou. Em 1911 despediu-se da Escola Normal e passou algum tempo pelo hospital psiquiátrico Conde Ferreira, onde diz ter tirado um curso, «estudando, noite e dia / Letras, direito e até cursando psiquiatria», como refere um curioso poema em que rebate o remoque ou sátira de outrem em relação tal período. Como refere o anúncio na primeira página da obra, estava em preparação o 2.º volume desta Musa Sinfanense que, tanto quanto supomos, não terá chegado a ver a luz do dia. Referência bibliográfica: MONTENEGRO, António Teixeira de Castro - Musa Sinfanense. Porto: [edição de autor], 1938, 71 pp., 19,5x13 cm.sexta-feira, 11 de junho de 2010
Centenário da República em Cinfães: antologia photographica #6

Igreja de Oliveira do Douro. Postal não circulado de uma colecção de 9 que reproduzem aspectos vários de Oliveira do Douro, finais do século XIX. Colecção particular. Atrás da pequena igreja de Oliveira (que nesta altura ainda não possuía campanário) a imponente Casa da Castanheira com os seus acrescentos e edifícios anexos. Embora suspeitemos que este postal seja anterior à implantação da República, não deixa de ser um documento valiosíssimo para o estudo da arquitectura e da própria evolução história da paisagem por terra de Cinfães, nos últimos 150 anos.
segunda-feira, 7 de junho de 2010
Centenário da República em Cinfães: antologia photographica: #5
Ponte de Porto Antigo dinamitada em Janeiro de 1919 na sequência da «Monarquia do Norte, c. 1919, digitalização de positivo fotográfico em papel, colecção particular de Nuno Resende. A propaganda republicana, após a contenção do movimento (sedeado no Porto entre 19-01 e 23-02-1919) imputou responsabilidades aos monárquicos pela implosão da estrutura. Os monárquicos, em sua defesa, responsabilizaram as tropas de Abel Hipólito (militar e , em 1919, Senador por Viseu). Dado que a República venceu, foram acusados conspiradores realistas de Cinfães, como o Padre Freitas e o amanuense da Câmara Municipal, Alfredo da Silva Pimenta. Este último foi julgado exemplarmente, onde o testemunho de apaniguados do regime substituiu as provas. A ponte é uma boa metáfora para este tempo conturbado: liga duas margens nas duas direcções. A razão está de qual dos lados? (nota: no canto inferior direito é possível ver parte do grande areal de Porto Antigo).(A disponibilização de uma cópia digital desta fotografia está disponível para trabalhos escolares e académicos. Envie o seu pedido para historiadecinfaes@gmail.com)
sexta-feira, 4 de junho de 2010
Dicionário Histórico e Biográfico de Cinfães: Abel Botelho
ABEL BOTELHO1855-Set-23, Tabuaço / Argentina, 1917
Militar, escritor e político republicano
Evocar o Centenário da República em Cinfães e não referir o escritor Abel Botelho é passar ao lado da História. Não que o militar, escritor e político republicano esteja de forma directa ligado ao município cinfanense, mas na sua vida e obra vamos encontrar pontos de ligação através dos quais podemos conhecer o ambiente social e político locais nos últimos 150 anos.
Abel Acácio de Almeida Botelho nasceu em Tabuaço, filho de um militar e professor, Luís Carlos de Almeida Botelho, e de uma senhora da pequena nobreza local, D. Maria Preciosa de Azevedo Leitão, da família Leitão que Manuel Gonçalves da Costa refere como arreigados miguelistas (COSTA, M. Gonçalves da Costa – Lutas liberais e miguelistas em Lamego. Braga: edição de autor, 1975 pp. 197198). Tendo ficado órfão de seu pai aos 12 anos, foi encaminhado ao Colégio Militar (que frequentou entre 1867 e 1872), de onde saiu com o posto de aspirante.
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quinta-feira, 3 de junho de 2010
Centenário da República em Cinfães: antologia photographica: #3

Vista geral da vila de Cinfães, finais do séc. XIX, inícios do séc. XX. Digitalização de postal circulado, colecção particular de Nuno Resende.
(A disponibilização de uma cópia digital desta fotografia está disponível para trabalhos escolares e académicos. Envie o seu pedido para historiadecinfaes@gmail.com)
(A disponibilização de uma cópia digital desta fotografia está disponível para trabalhos escolares e académicos. Envie o seu pedido para historiadecinfaes@gmail.com)
Centenário da República em Cinfães: antologia photographica: #2

Ponte de Caninhas, sobre o rio Paiva, entre os municípios de Cinfães e Castelo de Paiva. Digitalização de postal circulado (ed. Commercio do Porto), início do século XX, colecção particular de Nuno Resende.
(A disponibilização de uma cópia digital deste postal está disponível para trabalhos escolares e académicos. Envie o seu pedido para historiadecinfaes@gmail.com)
Centenário da República em Cinfães: antologia photographica: #1

Vista sobre a desembocadura do rio Paiva e ilha do Outeiro Escamarão (que, como a imagem deixa perceber não era uma ilha mas uma pequena península).
Década de 1960 [?]. Positivo fotográfico da colecção particular de Nuno Resende.
(A disponibilização de uma cópia digital desta fotografia está disponível para trabalhos escolares e académicos. Envie o seu pedido para historiadecinfaes@gmail.com)
Década de 1960 [?]. Positivo fotográfico da colecção particular de Nuno Resende.
(A disponibilização de uma cópia digital desta fotografia está disponível para trabalhos escolares e académicos. Envie o seu pedido para historiadecinfaes@gmail.com)
segunda-feira, 10 de maio de 2010
Comemoração do Centenário da República em Cinfães
Obrigado a todos pelas mensagens de apoio contra o triste acto de desrespeito cometido na sequência do projecto de Comemoração do Centenário da República, por nós lançado, em Janeiro deste ano, entre as Escolas de Cinfães. De todas as notas solidárias, não poderia deixar de destacar este sempre arguto e oportuno pensamento poético do Prof. João de Castro Nunes, que me foi dedicado nas listas do hisport.
Abaixo a ladroeira das ideias
que são propriedade pessoal
de quem vida lhes deu, mas que afinal
ninguém respeita, nem sequer a meias!
João de Castro Nunes
de quem vida lhes deu, mas que afinal
ninguém respeita, nem sequer a meias!
João de Castro Nunes
Comunicamos que, com o acervo fotográfico disponível, reunido em anos de investigação, iremos promover aqui, neste sítio, o desenvolvimento do projecto em epígrafe. Contamos com a colaboração de todos os estudantes de Cinfães, professores, em suma, todos os cinfanenses, interessados na cultura da sua terra e na promoção de uma mensagem de cidadania para o Futuro.
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Comunicado.
A 4 de Janeiro do presente ano tomei a iniciativa de enviar uma circular aos Conselhos Executivos e Directivos das principais escolas e agrupamentos escolares do município de Cinfães. Numa breve exposição propunha que se congregasse a Escola, através dos seus docentes e discentes, e as comunidades locais. em torno de uma iniciativa inclusiva que recordasse o Centenário da República a partir de uma perspectiva social e dinâmica abrangente. A ideia era resgatar o património fotográfico individual e familiar local dos últimos cem anos, o qual seria digitalizado, devidamente acomodado e estudado com fins pedagógicos e científicos.
De todas as Escolas contactadas, apenas uma professora do grupo de História do Agrupamento de Escolas de Souselo louvou a iniciativa, comunicando a sua adesão à mesma.
Junto com a circular, enviei um memorando (foto 1) que, de forma provisória, dava conta de alguns elementos do projecto, tais como a finalidade, os objectivos e um breve cronograma.
Até ao presente mês (Maio) resposta alguma, oficial, recebi.
Ontem, ao consultar a Revista Municipal Cinfães, no seu número 40 fui confrontado com um anúncio intitulado «Álbum de recordações», onde se solicitava a recolha de fotografias antigas e desenvolvia a ideia de «reunir essas imagens e construir uma base de dados digital que depois poderá ser utilizada para diversos fins: exposições, publicações imprensas [sic], elaboração de postais, colocação na página electrónica da Câmara [...]».
Como se pode comparar pelo memorando em anexo e pela reprodução gráfica do site da Câmara com o texto da revista (foto 2), as semelhanças são gritantes.
É uma situação, no mínimo flagrante, de plágio. Como cidadão, mas sobretudo como autor e como historiador - ofício já tão pouco dignificado - sinto-me profundamente magoado por ver o desrespeito votado à maior das criações humanas: o pensamento.
Já não se pede que se pague, por que abnegado, o trabalho em prol da própria terra mas haja, pelo menos, respeito pelos direitos autorais e pela livre criação, eixos tão esquecidos e maltratados e, no entanto, contemplados no artigo 42.º da Constituição da República Portuguesa.
De todas as Escolas contactadas, apenas uma professora do grupo de História do Agrupamento de Escolas de Souselo louvou a iniciativa, comunicando a sua adesão à mesma.
Junto com a circular, enviei um memorando (foto 1) que, de forma provisória, dava conta de alguns elementos do projecto, tais como a finalidade, os objectivos e um breve cronograma.
Até ao presente mês (Maio) resposta alguma, oficial, recebi.
Ontem, ao consultar a Revista Municipal Cinfães, no seu número 40 fui confrontado com um anúncio intitulado «Álbum de recordações», onde se solicitava a recolha de fotografias antigas e desenvolvia a ideia de «reunir essas imagens e construir uma base de dados digital que depois poderá ser utilizada para diversos fins: exposições, publicações imprensas [sic], elaboração de postais, colocação na página electrónica da Câmara [...]».
Como se pode comparar pelo memorando em anexo e pela reprodução gráfica do site da Câmara com o texto da revista (foto 2), as semelhanças são gritantes.
É uma situação, no mínimo flagrante, de plágio. Como cidadão, mas sobretudo como autor e como historiador - ofício já tão pouco dignificado - sinto-me profundamente magoado por ver o desrespeito votado à maior das criações humanas: o pensamento.
Já não se pede que se pague, por que abnegado, o trabalho em prol da própria terra mas haja, pelo menos, respeito pelos direitos autorais e pela livre criação, eixos tão esquecidos e maltratados e, no entanto, contemplados no artigo 42.º da Constituição da República Portuguesa.
Nuno Resende
Publicado em Histport
sexta-feira, 2 de abril de 2010
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
Resistência monárquica em Cinfães (1919)

Panfleto de propaganda exaltando a proclamação da monarquia.
Editado pela Junta Monárquica de Nespereira (c. Cinfães)
C. 1919
Publicado em VENTURA, Jorge - «A Monarquia do Norte em Cinfães (relato de alguns episódios). Terras de Serpa Pinto, 8 (1998) 35-68 e aqui.
domingo, 24 de janeiro de 2010
Dicionário Biográfico de Cinfães: José da Silva Cardoso Pereira e Vasconcelos
José da Silva Cardoso Pereira e Vasconcelos
(séc. XVIII, n. Marcelim, Tendais – f. Souto do Rio, Cinfães)
Pescador, comerciante e proprietário
Pescador, comerciante e proprietário
José da Silva Cardoso Pereira e Vasconcelos, que terá nascido no final da primeira metade do século XVIII, é um caso de sucesso que contradiz a ideia da sociedade de classes do Antigo Regime, fechada e avessa à mobilidade social. A sua vida diz-nos muito sobre a capacidade empreendedora do homem setecentista e, mais ainda, da tenacidade dos filhos ilegítimos, a quem por lei ou por tradição nem sempre eram dadas as mesmas oportunidades. Encontramos a referência à sua vida no folhetim "Os dois falladores", da autoria do notário A. Cardoso Pinto de Vasconcelos*, publicado no jornal A Justiça:
O Álvaro José Cardoso Pereira de Vasconcelos, que foi capitão de ordenanças [do concelho de Cinfães], casou-se com D. Quitéria Eufrásia Pinto de Vasconcelos; mas deste matrimónio não lhe sobreviveram filhos. Teve, porém, um filho natural de nome José da Silva Cardoso Pereira e Vasconcelos Montenegro, sendo sua mão Maria Rodrigues, solteira, de Marcelim da freguesia de Tendais, filha de Manuel Rodrigues e Natália Rodrigues Ribeiro, do mesmo lugar de Marcelim. Este José da Silva Cardoso Pereira e Vasconcelos Montenegro, filho único, natural e perfilhado pelo pai dito capitão, Álvaro, em vida do pai tomou conta da administração da casa, e pelo seu trabalho de pescador exímio chegando a auferir da pesca 600$000 réis anuais, e de comerciante de frutas de espinho e de madeiras, tornou o cais do Souto do Rio um dos melhores do Rio Douro (1).
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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
O Românico de Cinfães
O município de Cinfães acaba de aderir à Rota do Românico sendo incluído num interessante projecto de turismo cultural que há cerca de uma década marca a região do Vale do Sousa. Esperamos que, com esta iniciativa, se olhe com mais atenção para o património religioso e que, sobretudo, se invista mais na salvaguarda e no estudo do legado que recebemos dos nossos antepassados. Não basta, contudo, providenciar sinalética que indique a presença de monumentos. É preciso conhecê-los, respeitar a sua funcionalidade religiosa e compreender a sua existência. P.S. E esperamos que os técnicos tenham o bom senso de ultrapassar os anacronismos burocráticos actuais e, ainda que vinculando Cinfães aos Vales do Sousa e Tâmega, respeitem as especificidades do românico duriense. Até porque a arte e a cultura não se formatam segundo grelhas administrativas actuais...sábado, 9 de janeiro de 2010
O condestabre de Portugal, : D. Nuno alvres Pereira (1627)
Canto XX
[...]
A muytos terras deu, descanso, & vida,
Rendas, estados, bens, terras reparte,
Deixando aos claros netos igual parte.
Tendaes, terra de Payva, & de Lousada
Maritima Loulé sempre importante,
A desejada, & belicosa Almada
Deu á neta isabel ditosa Infante,
Que já com o claro tio desposada
Antecipava as glorias de adiante,
Para encher de venturas toda Espanha,
E de troféus toda a terra estranha.
[...]
Francisco Rodrigues Lobo
Canto XX
[...]
A muytos terras deu, descanso, & vida,
Rendas, estados, bens, terras reparte,
Deixando aos claros netos igual parte.
Tendaes, terra de Payva, & de Lousada
Maritima Loulé sempre importante,
A desejada, & belicosa Almada
Deu á neta isabel ditosa Infante,
Que já com o claro tio desposada
Antecipava as glorias de adiante,
Para encher de venturas toda Espanha,
E de troféus toda a terra estranha.
[...]
Francisco Rodrigues Lobo
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
sábado, 26 de dezembro de 2009
Notícia do «Castelo de Chã» na revista L'Univers: histoire et description de tous les peuples (1846), segundo a apologia de Joaquim de Santa Clara de Sousa Pinto na Revista Panorama . Erroneamente designada por «Castelo», a Torre de Chã foi construída como casa-fortificada de um clã nobiliárquico, à semelhança de muitas outras que pontilhavam na região (São Cipriano, Torre de Paçô, em Oliveira do Douro, etc). No século XIX a família Sousa Pinto, de Fundoais, modelou a imagem actual da Torre, fazendo-a sede da linhagem dos Pintos e fazendo confluir até ela o desejo de um ideal de nobreza romântico (imagem aproveitada pelos escritores da época, como Rebelo da Silva, Alberto Pimentel e Camilo Castelo Branco).
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
A ermida de São Pedro do Campo (Tendais)
Fotografia de Jorge Ventura (c)(Em breve publicaremos aqui a história desta ermida)
JÁ DISPONÍVEL (CLICAR)
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Guiães (ou Cinfães)
Como aventámos na Monografia de Cinfães, editada em 2000 (Pelouro da C.M. Cinfães), cremos que a localidade de Guiães que Eça refere, pela boca de Jacinto e de José Fernandes no romance «A Cidade e as Serras», poderá ser Cinfães. Admitimos tal hipótese, não apenas pela semelhança dos topónimo s mas pela distância a Tormes e pela descrição da paisagem de Guiães que bem poderia caracterizar a de Cinfães. Se não, «ouçamos»:
«As historias, muito simples e muito caseiras, que eu lhe contava, de Guiães, do abbade, da tia Vicencia, dos nossos parentes da Flôr da Malva, tão sinceramente o interessavam que eu encetára, para seu regalo, a chronica completa de Guiães, com todos os namoricos, e as façanhas de forças, e as desavenças por causa de servidões ou d'aguas. Tambem por vezes nos enfronhavamos, com afferro n'uma partida de gamão, sobre um bello taboleiro de pau preto, com pedras de velho marfim, que nos emprestára o Silverio. Mas nada de certo o encantava tanto como atravessar as casas, pé ante pé, até uma saleta que dava para o pomar, e ahi ficar encostado á janella, sem luz, n'um enlevado socego, a escutar longamente, languidamente, os rouxinoes que cantavam no laranjal.»
Eça de Queirós, A Cidade e as Serras, 1901 [consulta online aqui]
«As historias, muito simples e muito caseiras, que eu lhe contava, de Guiães, do abbade, da tia Vicencia, dos nossos parentes da Flôr da Malva, tão sinceramente o interessavam que eu encetára, para seu regalo, a chronica completa de Guiães, com todos os namoricos, e as façanhas de forças, e as desavenças por causa de servidões ou d'aguas. Tambem por vezes nos enfronhavamos, com afferro n'uma partida de gamão, sobre um bello taboleiro de pau preto, com pedras de velho marfim, que nos emprestára o Silverio. Mas nada de certo o encantava tanto como atravessar as casas, pé ante pé, até uma saleta que dava para o pomar, e ahi ficar encostado á janella, sem luz, n'um enlevado socego, a escutar longamente, languidamente, os rouxinoes que cantavam no laranjal.»
Eça de Queirós, A Cidade e as Serras, 1901 [consulta online aqui]
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
sábado, 7 de novembro de 2009
Notícias de Cinfães (I)
Revista Universal Lisbonense, Tomo III (1843-1844), p. 392. A notícia (datada de 27 de Fevereiro de 1844) reporta-se a um fenómeno conhecido localmente como "alágo" que 1977 e, mais recentemente, em 2005 provocou mortos e diversos estragos materiais na zona de Vila de Mures e Valverde, em Tendais. O deflorestamento ou o desmatamento, que favorecem a erosão dos solo, parece estar na origem de tal fenómeno que permite a formação de bolhas de água e o consequente desprendimento de terras, provocando graves enxurradas.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Agenda #1: conferência sobre Serpa Pinto (1846-1900)
domingo, 18 de outubro de 2009
A República vista de Cinfães.
«Os republicanos e o comicio do Porto»
No meio da crise angustiosa, que temos atravessado, e continua, vemos os republicanos, propugnadores das ideias avançadas, apparecerem na praça publica, a fazer manifestações ruidosas, a voltar aos ventos e encher os ouvidos da plebe, de palavras de patriotismo, com o fim, não de resolver o momentoso problema da dificil situação economica e financeira, que nos assoberba, mas -oh! patriotas- para tão sómente crearem difficuldades ao governo.
Discursos, palavras, gestos declamatorios, telegrammas para a imprensa estrangeira annunciando a revolução, eis as armas que de se serve esse grupo de portuguezes para salvar a situação.
Só a república -entendem esses senhores- póde salvar o nosso credito abalado, restaurar as nossas finanças e melhorar a situação economica do paiz.
É ridiculo esse movimento; magoa até, vêr meia duzia de aventureiros, appellidarem-se de portuguezes, todos inchados de patriotismo, apresentaram-se para salvar a patria, quando, na quasi totalidade, ignoram os principios mais rudimentares de administração publica e desconhecem por completo a forma de restaurar o nosso credito e finanças.
Nem um plano, nem um alvitre, sequer, indicam. Cerebros vasios que, na sua ignorancia, pretendem saltar por cima dos homens praticos e de reconhecido saber, para impõrem uma ideia ao paiz que poderá ser bonita como ideal, mas deixaria em peor estado a nossa situação.
Quando, depois do ultimatum houve o movimento contra a Inglaterra pelo assalto de tigre com que nos feriu na nossa dignidade nacional, houve enthusiasmo que, por vezes, subiu até ao delirio, e a resistencia, embora exhorbitante, produziu algum resultado util.
Assim houve, e ainda ha, quem movido justamento pelo odio contra a Inglaterra, repudiasse productos da industria ingleza, para se fornecer dos de industria nacional. Este facto é legitimamente patriotico. (…)
Á semelhança do que se fez desejaria eu que esses patriotas republicanos, em vez de blafesmarem na praça publica, e insultarem pela imprensa as instituições e os homens publicos, se congregassem e unissem em um só pensamento, promovendo por todos os meios uma grande subscripção que tendesse a exonerar-nos dos encargos que pesam sobre a nação; que apresentassem e publicassem planos financeiros com o mesmo fim; e finalmente que fizessem alguma cousa de util e proveitoso para o paiz.
F., - A Justiça [de Cinfães], 5-Setembro-1897.
Discursos, palavras, gestos declamatorios, telegrammas para a imprensa estrangeira annunciando a revolução, eis as armas que de se serve esse grupo de portuguezes para salvar a situação.
Só a república -entendem esses senhores- póde salvar o nosso credito abalado, restaurar as nossas finanças e melhorar a situação economica do paiz.
É ridiculo esse movimento; magoa até, vêr meia duzia de aventureiros, appellidarem-se de portuguezes, todos inchados de patriotismo, apresentaram-se para salvar a patria, quando, na quasi totalidade, ignoram os principios mais rudimentares de administração publica e desconhecem por completo a forma de restaurar o nosso credito e finanças.
Nem um plano, nem um alvitre, sequer, indicam. Cerebros vasios que, na sua ignorancia, pretendem saltar por cima dos homens praticos e de reconhecido saber, para impõrem uma ideia ao paiz que poderá ser bonita como ideal, mas deixaria em peor estado a nossa situação.
Quando, depois do ultimatum houve o movimento contra a Inglaterra pelo assalto de tigre com que nos feriu na nossa dignidade nacional, houve enthusiasmo que, por vezes, subiu até ao delirio, e a resistencia, embora exhorbitante, produziu algum resultado util.
Assim houve, e ainda ha, quem movido justamento pelo odio contra a Inglaterra, repudiasse productos da industria ingleza, para se fornecer dos de industria nacional. Este facto é legitimamente patriotico. (…)
Á semelhança do que se fez desejaria eu que esses patriotas republicanos, em vez de blafesmarem na praça publica, e insultarem pela imprensa as instituições e os homens publicos, se congregassem e unissem em um só pensamento, promovendo por todos os meios uma grande subscripção que tendesse a exonerar-nos dos encargos que pesam sobre a nação; que apresentassem e publicassem planos financeiros com o mesmo fim; e finalmente que fizessem alguma cousa de util e proveitoso para o paiz.
F., - A Justiça [de Cinfães], 5-Setembro-1897.
Nota: Este artigo refere-se ao comício realizado na rua do Bonjardim no dia 13 de Junho de 1897 e onde Afonso Costa, que mais tarde haveria de ser um dos mais destacados paladinos do extremismo republicano português, fez um discurso inflamado perante um auditório de comerciantes e caixeiros - território humano bastante susceptível de adesão aos movimentos minoritários e revolucionários do republicanismo. Era aliás esta pequena burguesia, juntamente com o proletariado e operariado rural destacado no Porto, que levava até Cinfães os ideais de república, que relutantemente contaminariam os jornaleiros, lavradores ou proprietários locais, pouco instruídos, pouco politizados e tementes à Religião.
Dicionário Biográfico de Cinfães: Padre Patrício Correia Peixoto
Padre Patrício Correia Peixoto
Tendais, 1723 - Cinfães, 1799
Paróco de Cinfães, mentor da reedificação da igreja matriz de Cinfães
Lemos recentemente no blogue de um conterrâneo cinfanense que a igreja matriz de Cinfães tinha sido obra de Nicolau Nasoni. O autor do blogue não sabia onde tinha obtido tal informação, mas é seguro que a tenha colhido numa obra monográfica local, destas que continuamente vão deseducando a nossa juventude, com informações históricas incorrectas e um palavreado inócuo que em nada contribui nem para o conhecimento, nem para a educação, muito menos para a salvaguarda do património cultural.
Esses monógrafos amadores, cheios de lirismo, são da mesma cepa dos que espalharam aos quatro ventos que a ponte de Covelas, sobre o rio Bestança, era do românica, quando a mesma ponte está perfeitamente datada de 1762, sendo portanto, um belíssimo revivalismo do período barroco que em nada deslustra a importância da construção. Infelizmente, basta percorrer a internet para perceber que o erro se repetiu até à náusea e provavelmente se repetirá ad aeternum, graças às afirmações categóricas de um ou outro mal preparado "estoriador". Ora se o erro da "deficiente" datação da ponte de Covelas é dos do tipo de palmatória, considerar a igreja de Cinfães como da autoria de Nasoni, - o famoso projectista da torre dita dos Clérigos, no Porto -, pode ser mais difícil de destrinçar para quem não for Historiador da Arte. Sem documentos, apenas com base em conjecturas derivadas da comparação de um outro pormenor, facilmente se atribuem autorias. O facto é que a igreja de Cinfães, bonito exemplar de um barroco regionalista, que se destaca entre as suas congéneres pela graciosidade do enquadramento decorativo do vão principal, foi concluída já Nasoni vivia o seu "canto de cisne".Os historiadores da obra daquele grande pintor italiano nunca incluíram, nem como trabalho documentado, nem como trabalho atribuído, a igreja de Cinfães entre os vários trabalhos executados por Nasoni em Portugal. Contudo, não podemos deixar de frisar a importância arquitectónica deste edifício. Como todos os templos católicos, ele dominou a paisagem local e definiu os eixos de urbanização que a vila de Cinfães conhece hoje. Isto desde o 3.ª quartel do século XVIII, quando foi concluído. Porém, muito antes existia no mesmo local uma igreja mais pequena, que o Padre Heitor Cardoso, em 1758, descreveu nos seguintes termos: tem a dita Igreja coatro Altares a saber o Altar Mor, a donde esta, o Sacrario; e outro de Nosa Senhora do Rosario com a sua Imagem e outro de S. Joam Baptista com a sua Imagem e outro de Sancta Catherina com a sua Imagem e a Igreya nam tem mais que huma só Naue. Talvez fosse este templo o edifício medieval onde o morgado Vasco Esteves de Matos instituiu, em 1388, a cabeça do seu vínculo, numa capela adossada à nave que, transformando-se, chegou até aos nossos dias. E é provável que seja dessa igreja o tímpano agora exposto no exterior, que o padre Alfredo Pimenta conjecturava (erroneamente quanto a nós) ser do período visigótico. Sem dados arqueológicos e documentais, não há razão para excluir a hipótese de ter sido aqui a sede da terra de São Salvador, cujo orago, testemunho da Reconquista, foi depois substituído pelo de São João, o Baptista, pacificado o território - agora em busca de bênção para a fertilidade da terra. Voltaremos, um dia, a este tímpano e ao seu percurso histórico. Para já interessa saber quem foi o mentor do projecto da actual igreja de Cinfães e conhecer um pouco mais sobre a sua construção e valor artístico.
O Padre Patrício Correia Peixoto nasceu lugar do Cabo, termo da aldeia de Quinhão, da paróquia de Santa Cristina de Tendais, nos primeiros dias do ano de 1723. Foram seus pais Bernardo Correia Peixoto, do mesmo lugar de Quinhão e Maria Rodrigues, de Mourelos. Por via paterna descendia o pequeno Patrício do Doutor Mateus Peixoto de Sá, que fora Ouvidor da Casa de Bragança e, segundo alguns autores, secretário de Estado do rei Filipe II. Como veio tão ilustre família para Tendais?
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Esses monógrafos amadores, cheios de lirismo, são da mesma cepa dos que espalharam aos quatro ventos que a ponte de Covelas, sobre o rio Bestança, era do românica, quando a mesma ponte está perfeitamente datada de 1762, sendo portanto, um belíssimo revivalismo do período barroco que em nada deslustra a importância da construção. Infelizmente, basta percorrer a internet para perceber que o erro se repetiu até à náusea e provavelmente se repetirá ad aeternum, graças às afirmações categóricas de um ou outro mal preparado "estoriador". Ora se o erro da "deficiente" datação da ponte de Covelas é dos do tipo de palmatória, considerar a igreja de Cinfães como da autoria de Nasoni, - o famoso projectista da torre dita dos Clérigos, no Porto -, pode ser mais difícil de destrinçar para quem não for Historiador da Arte. Sem documentos, apenas com base em conjecturas derivadas da comparação de um outro pormenor, facilmente se atribuem autorias. O facto é que a igreja de Cinfães, bonito exemplar de um barroco regionalista, que se destaca entre as suas congéneres pela graciosidade do enquadramento decorativo do vão principal, foi concluída já Nasoni vivia o seu "canto de cisne".Os historiadores da obra daquele grande pintor italiano nunca incluíram, nem como trabalho documentado, nem como trabalho atribuído, a igreja de Cinfães entre os vários trabalhos executados por Nasoni em Portugal. Contudo, não podemos deixar de frisar a importância arquitectónica deste edifício. Como todos os templos católicos, ele dominou a paisagem local e definiu os eixos de urbanização que a vila de Cinfães conhece hoje. Isto desde o 3.ª quartel do século XVIII, quando foi concluído. Porém, muito antes existia no mesmo local uma igreja mais pequena, que o Padre Heitor Cardoso, em 1758, descreveu nos seguintes termos: tem a dita Igreja coatro Altares a saber o Altar Mor, a donde esta, o Sacrario; e outro de Nosa Senhora do Rosario com a sua Imagem e outro de S. Joam Baptista com a sua Imagem e outro de Sancta Catherina com a sua Imagem e a Igreya nam tem mais que huma só Naue. Talvez fosse este templo o edifício medieval onde o morgado Vasco Esteves de Matos instituiu, em 1388, a cabeça do seu vínculo, numa capela adossada à nave que, transformando-se, chegou até aos nossos dias. E é provável que seja dessa igreja o tímpano agora exposto no exterior, que o padre Alfredo Pimenta conjecturava (erroneamente quanto a nós) ser do período visigótico. Sem dados arqueológicos e documentais, não há razão para excluir a hipótese de ter sido aqui a sede da terra de São Salvador, cujo orago, testemunho da Reconquista, foi depois substituído pelo de São João, o Baptista, pacificado o território - agora em busca de bênção para a fertilidade da terra. Voltaremos, um dia, a este tímpano e ao seu percurso histórico. Para já interessa saber quem foi o mentor do projecto da actual igreja de Cinfães e conhecer um pouco mais sobre a sua construção e valor artístico.
O Padre Patrício Correia Peixoto nasceu lugar do Cabo, termo da aldeia de Quinhão, da paróquia de Santa Cristina de Tendais, nos primeiros dias do ano de 1723. Foram seus pais Bernardo Correia Peixoto, do mesmo lugar de Quinhão e Maria Rodrigues, de Mourelos. Por via paterna descendia o pequeno Patrício do Doutor Mateus Peixoto de Sá, que fora Ouvidor da Casa de Bragança e, segundo alguns autores, secretário de Estado do rei Filipe II. Como veio tão ilustre família para Tendais?
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O «nascimento» do concelho de Cinfães.

Terminadas as recentes comemorações sobre o 150º aniversário do concelho de Cinfães, parece-me absolutamente necessário esclarecer alguns pontos que a este assunto dizem respeito.
Logo aqui cabe dizer que o concelho de Cinfães é muito anterior a 1855. A sua constituição ou fundação, se a tal podemos chamar, perde-se numa acumulação de usos e de costumes que nem sempre resultam de uma outorga oficial, emanada do poder régio, senhorial ou eclesiástico, se não da consuetudinariedade, ou seja da prática regular de certos hábitos e ritos de uma ou mais comunidades. Neste caso é impossível estabelecer uma data concisa para o seu «nascimento». Sabe-se, porém, que este pequeno concelho se estreitava entre os rios Douro, Bestança e Sampaio, alcançando, a Sul, os cumes do Montemuro, nas alturas de São Pedro do Campo, da Franqueira e do Fojo, onde marcos o separavam dos município de Nogueira, Tendais, Sanfins, Cabril e Alvarenga.
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Logo aqui cabe dizer que o concelho de Cinfães é muito anterior a 1855. A sua constituição ou fundação, se a tal podemos chamar, perde-se numa acumulação de usos e de costumes que nem sempre resultam de uma outorga oficial, emanada do poder régio, senhorial ou eclesiástico, se não da consuetudinariedade, ou seja da prática regular de certos hábitos e ritos de uma ou mais comunidades. Neste caso é impossível estabelecer uma data concisa para o seu «nascimento». Sabe-se, porém, que este pequeno concelho se estreitava entre os rios Douro, Bestança e Sampaio, alcançando, a Sul, os cumes do Montemuro, nas alturas de São Pedro do Campo, da Franqueira e do Fojo, onde marcos o separavam dos município de Nogueira, Tendais, Sanfins, Cabril e Alvarenga.
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«Em Tendaes»

«Como de costume, realisou-se no passado Domingo, n’esta freguezia, a festa da padroeira, Stª. Christina. Esteve bastante animada, fazendo-se ouvir a música de Sinfães, que, como sempre, agradou, e subindo ao pulpito o reverendo Thomé Pinto Cardoso, muito digno parocho de Nespereira, que fez um bom discurso. Distinguiu-se na ornamentação da egreja o armador Carolino Corrêa d’Alvarenga, tornando-se principalmente digno da menção na maneira como dizpôs os andores, no que se distingue bastante de todos os armadores que, que alli teem ido. § Outrora esta festividade era muito concorrida, tornando-a atrahente a chegada dos romeiros, que do S. Macario por alli abordavam, com chapeus ornados de ramos e imagens de santos, em alegres descantes. N’esse tempo, viam-se grandes alas desde o Adro velho até ao Jogo, formadas pelas vendedeiras de fructas, que procuravam vender o melhor que podiam, podendo os romeiros escolher à vontade, e saborear o espectaculo das fructas maduras, que faziam crescer a agua na bocca, e despertavam o apetite, ao mesmo tempo que impregnavam o ar de delicioso aroma, mais suave e apperitivo do que o das essencias enfrascadas. § Que saudades d’esse tempo!»
S/ indicação de autor - «Em Tendaes». A Justiça (1898).
S/ indicação de autor - «Em Tendaes». A Justiça (1898).
sábado, 17 de outubro de 2009
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Dicionário Biográfico de Cinfães (II)
Alexandre Alberto de Serpa Pinto ou Alexandre Alberto de Serpa Pinto da Costa
(Vimieiro, ? - Vimieiro, 1839)
No ano em que se assinalam dois séculos passados sobre as invasões francesas e as guerras peninsulares, é impossível ignorar a figura de Alexandre Alberto de Serpa Pinto. O município de Cinfães que, embora não sendo a sua terra natal o é dos seus pais e avós, não o devia fazer, prestando o devido reconhecimento (talvez toponímico) a um dos mais importantes homens do Liberalismo – e, logo, da Democracia Portuguesa. Este militar, filho do Capitão-mor de ordenanças do Concelho de Ferreiros de Tendais, António de Serpa Pinto da Costa (bap. 02-06-1743) e de sua mulher Ana Angélica Maria Pinto de Abreu (fal. 15-11-1825), nasceu provavelmente em Vimieiro (freguesia de Sande, hoje c. de Marco de Canaveses), entre as décadas de 1760 e 1770, e distinguiu-se, numa primeira fase da sua vida, na defesa miliciana contra os invasores franceses e, depois, nas campanhas liberais do Porto e ainda no clima político que se lhe seguiu. Criado no seio de uma das mais nobres famílias das governanças do concelho de Ferreiros de Tendais (a qual tinha solar em Boassas), com ligações muito vincadas ao Porto e ao Minho, Alexandre Alberto, primogénito de nove irmãos, foi encaminhado para uma carreira de letras que já haviam seguido alguns dos seus familiares maternos, nomeadamente o seu tio-avó Quintiliano Pontes de Lacerda *, da Casa de Castro de Cio, Procurador do Estado de Bragança. Encontramo-lo, pois, em Coimbra, matriculado em 1799 no 2.º ano do curso de Direito, (AUC, Direito, 31-X-1798, matrícula, 2.º ano 2-X-1799), Universidade onde terá sorvido as ideias políticas e recebido os ventos ideológicos que o levarão a combater como militar pelo País e a servir o partido de D. Pedro de Bragança, Imperador do Brasil e Rei de Portugal. De facto poucos anos depois da sua formatura, a Europa seria varrida pelo Imperialismo tentacular de Napoleão. Portugal não escapa à cobiça hegemónica do Imperador dos Franceses e Alexandre Alberto não hesita em pegar em armas. Como homem de confiança do malogrado Freire de Andrade, executa serviços de espionagem, vigiando o General Loison ("o maneta"), que preparava a primeira invasão ao solo português (1807). Depois, destacou-se na libertação e defesa das cidades de Abrantes, Coimbra e Tui. Sobre o ataque a esta, em que se distinguiu ao lado do major Sebastião Pinto de Araújo e do Tenente Sá Baptista, foi escrito: «à frente de fracas forças atacou energicamente três mil soldados inimigos que se encontravam em Tui, pondo-os em completa debandada» (GEPB, vol. 28, pp. 464-465). Este feito e em particular a táctica que utilizou na conquista daquela cidade espanhola foram recentemente abordadas num Congresso sobre as Invasões Peninsulares. Durante a 3.ª invasão, ainda participou na libertação da cidade de Coimbra. Foi um dos bravos que desembarcou na praia do Mindelo, em Julho de 1832, ao lado de D. Pedro, tendo participado na conquista e defesa do Porto contra o exército miguelista - de forma tão briosa e corajosa que foi condecorado com o grau de Cavaleiro de Torre e Espada. Mas A.A. de Serpa Pinto não se notabilizou apenas no período das Invasões Francesas e das guerras liberais, como militar. Participou na construção do Portugal Liberal, como deputado às Cortes em 1823, 1834-1836 e 1838-1839. Deve-se-lhe uma intervenção na sessão de 20 de Maio de 1823, aquando de um projecto de divisão do território, em que agrupavam no Julgado de Cinfães os concelhos de Cinfães, Ferreiros de Tendais, São Cristóvão de Nogueira e Sanfins e no de Arouca, o de Tendais, entre outros. A este propósito, interviu, dizendo: «Eu queria que para este julgado [de Cinfães] passasse o concelho de Tendaes, que tem todas as communicações com Ferreiros, e confina com elle: além de que ficando pertencendo a Arouca tem de passar muitas, e mui altas montanas, intransitaveis no inverno». Assim foi aprovada esta moção, devendo-se a A.A. Serpa Pinto da Costa uma contribuição para a construção do actual município de Cinfães. Em 1836 esteve envolvido, com os dois filhos -António de Serpa Pinto e José Maria de Serpa Pinto * -, no movimento cartista que culminou na Convenção de Chaves (20-9-1837). Casou duas vezes, a primeira com a sua prima e parente, Joaquina Antónia de Lacerda da Silveira Ataíde Vasconcelos, da casa de Castro de Cio (Ferreiros de Tendais), de quem houve cinco filhas (uma delas Carlota Cacilda, mãe do explorador e africanista Alexandre Alberto da Rocha de Serpa Pinto*) e dois filhos, atrás referidos, ambos militares destacando-se o General José Maria de Serpa Pinto * (nascido em Boassas e baptizado em Oliveira do Douro a 20-03-1819). Casou a segunda vez com Isabel Laureana Mourão Figaniére (fal. a 31 de Agosto de 1867), irmã do Visconde de Figaniére, de cujo matrimónio houve dois filhos. Pensa-se que Alexandre Alberto de Serpa Pinto, como muitos liberais do seu tempo pertenceu à Maçonaria. Foi do Conselho da Rainha D. Maria II, Fidalgo da Casa Real (por alvará de 13 de Outubro de 1815), Comendador na Ordem de Cristo, Cavaleiro da Torre e Espada (como já referimos), condecorado com a cruz nº 3 da Guerra Peninsular, administrador da capela de Santa Maria Madalena, das Caldas de Aregos (administração que a rainha D. Maria estendeu por 2 vidas em memória do filho de A.A., José Maria, falecido em combate no Rossilhão, cf. Gazeta de Lisboa de 3 de Junho de 1794) e da capela de São Francisco da Vila de Setúbal, além das patentes militares que mencionámos. Faleceu em 1839, na sua quinta do Vimieiro, da freguesia de Sande. BIBLIOGRAFIA: S.A. - «Alexandre Alberto de Serpa Pinto». In Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol. 28, pp. 464-465; REZENDE, José Cabral e REZENDE, Miguel Pinto de - Famílias nobres nos concelhos de Cinfães, Ferreiros e Tendais nos séculos XVI, XVII e XVIII. Porto: ed. [Carvalhos de Basto], 1988, p. 133; PINTO, Agostinho Albano da Silveira et alli - Resenha das familias titulares e grandes de Portugal, 2.ª edição. Lisboa: Edição de Empreza Editora de F.A. da Silva, 1991; PINTO, Luiz Bernardo Carneiro - «Descendências e origens» - VIII - Casa do Vimieiro, Raizes e Memórias, n.º 11 (1985) 179-180; AGUIAR, Manuel Vieira de, padre - Descrição histórica, corográfica e folclórica de Marco de Canaveses. Porto: Edição de Esc. tip. oficina de S. José, 1947, p. 215. Nota: a biografia dos nomes assinalados com asterisco (*) será desenvolvida em outros verbetes.
© Nuno Resende, Dicionário Biográfico e Histórico de Cinfães, n.º 2, 2009
(Vimieiro, ? - Vimieiro, 1839)
No ano em que se assinalam dois séculos passados sobre as invasões francesas e as guerras peninsulares, é impossível ignorar a figura de Alexandre Alberto de Serpa Pinto. O município de Cinfães que, embora não sendo a sua terra natal o é dos seus pais e avós, não o devia fazer, prestando o devido reconhecimento (talvez toponímico) a um dos mais importantes homens do Liberalismo – e, logo, da Democracia Portuguesa. Este militar, filho do Capitão-mor de ordenanças do Concelho de Ferreiros de Tendais, António de Serpa Pinto da Costa (bap. 02-06-1743) e de sua mulher Ana Angélica Maria Pinto de Abreu (fal. 15-11-1825), nasceu provavelmente em Vimieiro (freguesia de Sande, hoje c. de Marco de Canaveses), entre as décadas de 1760 e 1770, e distinguiu-se, numa primeira fase da sua vida, na defesa miliciana contra os invasores franceses e, depois, nas campanhas liberais do Porto e ainda no clima político que se lhe seguiu. Criado no seio de uma das mais nobres famílias das governanças do concelho de Ferreiros de Tendais (a qual tinha solar em Boassas), com ligações muito vincadas ao Porto e ao Minho, Alexandre Alberto, primogénito de nove irmãos, foi encaminhado para uma carreira de letras que já haviam seguido alguns dos seus familiares maternos, nomeadamente o seu tio-avó Quintiliano Pontes de Lacerda *, da Casa de Castro de Cio, Procurador do Estado de Bragança. Encontramo-lo, pois, em Coimbra, matriculado em 1799 no 2.º ano do curso de Direito, (AUC, Direito, 31-X-1798, matrícula, 2.º ano 2-X-1799), Universidade onde terá sorvido as ideias políticas e recebido os ventos ideológicos que o levarão a combater como militar pelo País e a servir o partido de D. Pedro de Bragança, Imperador do Brasil e Rei de Portugal. De facto poucos anos depois da sua formatura, a Europa seria varrida pelo Imperialismo tentacular de Napoleão. Portugal não escapa à cobiça hegemónica do Imperador dos Franceses e Alexandre Alberto não hesita em pegar em armas. Como homem de confiança do malogrado Freire de Andrade, executa serviços de espionagem, vigiando o General Loison ("o maneta"), que preparava a primeira invasão ao solo português (1807). Depois, destacou-se na libertação e defesa das cidades de Abrantes, Coimbra e Tui. Sobre o ataque a esta, em que se distinguiu ao lado do major Sebastião Pinto de Araújo e do Tenente Sá Baptista, foi escrito: «à frente de fracas forças atacou energicamente três mil soldados inimigos que se encontravam em Tui, pondo-os em completa debandada» (GEPB, vol. 28, pp. 464-465). Este feito e em particular a táctica que utilizou na conquista daquela cidade espanhola foram recentemente abordadas num Congresso sobre as Invasões Peninsulares. Durante a 3.ª invasão, ainda participou na libertação da cidade de Coimbra. Foi um dos bravos que desembarcou na praia do Mindelo, em Julho de 1832, ao lado de D. Pedro, tendo participado na conquista e defesa do Porto contra o exército miguelista - de forma tão briosa e corajosa que foi condecorado com o grau de Cavaleiro de Torre e Espada. Mas A.A. de Serpa Pinto não se notabilizou apenas no período das Invasões Francesas e das guerras liberais, como militar. Participou na construção do Portugal Liberal, como deputado às Cortes em 1823, 1834-1836 e 1838-1839. Deve-se-lhe uma intervenção na sessão de 20 de Maio de 1823, aquando de um projecto de divisão do território, em que agrupavam no Julgado de Cinfães os concelhos de Cinfães, Ferreiros de Tendais, São Cristóvão de Nogueira e Sanfins e no de Arouca, o de Tendais, entre outros. A este propósito, interviu, dizendo: «Eu queria que para este julgado [de Cinfães] passasse o concelho de Tendaes, que tem todas as communicações com Ferreiros, e confina com elle: além de que ficando pertencendo a Arouca tem de passar muitas, e mui altas montanas, intransitaveis no inverno». Assim foi aprovada esta moção, devendo-se a A.A. Serpa Pinto da Costa uma contribuição para a construção do actual município de Cinfães. Em 1836 esteve envolvido, com os dois filhos -António de Serpa Pinto e José Maria de Serpa Pinto * -, no movimento cartista que culminou na Convenção de Chaves (20-9-1837). Casou duas vezes, a primeira com a sua prima e parente, Joaquina Antónia de Lacerda da Silveira Ataíde Vasconcelos, da casa de Castro de Cio (Ferreiros de Tendais), de quem houve cinco filhas (uma delas Carlota Cacilda, mãe do explorador e africanista Alexandre Alberto da Rocha de Serpa Pinto*) e dois filhos, atrás referidos, ambos militares destacando-se o General José Maria de Serpa Pinto * (nascido em Boassas e baptizado em Oliveira do Douro a 20-03-1819). Casou a segunda vez com Isabel Laureana Mourão Figaniére (fal. a 31 de Agosto de 1867), irmã do Visconde de Figaniére, de cujo matrimónio houve dois filhos. Pensa-se que Alexandre Alberto de Serpa Pinto, como muitos liberais do seu tempo pertenceu à Maçonaria. Foi do Conselho da Rainha D. Maria II, Fidalgo da Casa Real (por alvará de 13 de Outubro de 1815), Comendador na Ordem de Cristo, Cavaleiro da Torre e Espada (como já referimos), condecorado com a cruz nº 3 da Guerra Peninsular, administrador da capela de Santa Maria Madalena, das Caldas de Aregos (administração que a rainha D. Maria estendeu por 2 vidas em memória do filho de A.A., José Maria, falecido em combate no Rossilhão, cf. Gazeta de Lisboa de 3 de Junho de 1794) e da capela de São Francisco da Vila de Setúbal, além das patentes militares que mencionámos. Faleceu em 1839, na sua quinta do Vimieiro, da freguesia de Sande. BIBLIOGRAFIA: S.A. - «Alexandre Alberto de Serpa Pinto». In Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol. 28, pp. 464-465; REZENDE, José Cabral e REZENDE, Miguel Pinto de - Famílias nobres nos concelhos de Cinfães, Ferreiros e Tendais nos séculos XVI, XVII e XVIII. Porto: ed. [Carvalhos de Basto], 1988, p. 133; PINTO, Agostinho Albano da Silveira et alli - Resenha das familias titulares e grandes de Portugal, 2.ª edição. Lisboa: Edição de Empreza Editora de F.A. da Silva, 1991; PINTO, Luiz Bernardo Carneiro - «Descendências e origens» - VIII - Casa do Vimieiro, Raizes e Memórias, n.º 11 (1985) 179-180; AGUIAR, Manuel Vieira de, padre - Descrição histórica, corográfica e folclórica de Marco de Canaveses. Porto: Edição de Esc. tip. oficina de S. José, 1947, p. 215. Nota: a biografia dos nomes assinalados com asterisco (*) será desenvolvida em outros verbetes.
© Nuno Resende, Dicionário Biográfico e Histórico de Cinfães, n.º 2, 2009
Dicionário Biográfico de Cinfães: Giraldo Giraldes, o sem pavor
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| O lugar de Chã, Ferreiros de Tendais |
Militar e
mercenário (séc. XII)
Figura controversa de contornos míticos
que alimentou o espírito nacionalista português em várias épocas, Giraldo
Girlades Gizado figura na História de Portugal como um caudilho de D. Afonso
Henriques, «herói» destemido que recebeu o epíteto de Sem Pavor e ficou ligado à tomada de Évora, que uma certa
historiografia modelou como empresa táctica e mestra. Hoje, graças ao
levantamento documental e a novas fontes históricas é possível gizar uma ideia
mais clara, não tanto de Giraldo Giraldes, sobre quem poucos registos existem,
mas sobre seus congéneres: soldados mercenários, bandoleiros, que combatiam a
troco de soldo, sem que os movessem intuitos religiosos ou de identidade.
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