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sábado, 20 de julho de 2013

A Torre da Coelha


No Nobiliário das Gerações de Entre-Douro-e-Minho, do genealogista Manuel de Sousa da Silva escreve-se o seguinte: 

Hé o solar da geração dos Coelhos a quinta que chamão da Coelha em a freguesia de São João de Sinfães, em a qual esteve hua torre, de que se vêem os alicerces em hua cumieira sobre o rio Douro. Consta da Inquirição de el-Rey D. Afonso 3.º que D. Egas Lourenço pessuia por honra os lugares de Cidadela, Souto Painçaes e Teixeirô; em o meio deles está a dita quinta e torre da Coelha sem mais coisa algua, pelo que parece que esta foi a casa do dito D. Egas Lourenço e que lhe sucedeo nela seu filho Soeiro Viegas Coelho, que tomou o apelido dela e ficou a seus descendentes, devia de ficar a seo filho Pedro Soares Coelho, que não teve geração e, por essa razão passou ao Mosteiro de Santa Clara de Entre-Ambos-os-Rios […] [1] 

Na posse destes elementos fomos procurar os vestígios da torre da Coelha. Mesmo que Manuel de Sousa da Silva não nos fornecesse elementos tão úteis, como os que situavam a torre nas proximidades de Cidadelhe, Souto, Painsais e Teixeirô, o facto de o topónimo Coelha ainda persistir seria suficiente para, com exactidão, encontrar tão extraordinário lugar. Efectivamente referimo-nos do solar de uma das mais importantes famílias portuguesas da Idade Média, onde poderá ter vivido João Soares Coelho, trineto de Egas Moniz (dito o Aio), trovador e homem influente da corte de Afonso III. Este facto tem sido ignorado pela História local, de tal forma que nem a Arqueologia logrou registar este arqueossítio nos estudos arqueológicos concelhios.





Contudo, num proeminente outeiro à vista do Douro, a norte da aldeia de Painsais, é possível encontrar o sítio de implantação da torre da Coelha, apenas recordada por uma placa toponímica à beira da estrada municipal que liga a EN 222 ao lugar do Casal. Um caminho empedrado conduz ao morro onde subsistem interessantes exemplares de moradias setecentistas e algumas ruínas que, associadas a notáveis afloramentos graníticos podem indicar o exacto local onde esteve edificada tão importante residência senhorial. As fotografias seguintes são esclarecedoras do local e dos vestígios remanescentes (clique para ampliar):

Vista sobre o outeiro da Coelha

Alguns vestígios de edificações no outeiro

Vista do outeiro da Coelha sobre o Douro




Reaproveitar estas ruínas, tendo em consideração o seu valor patrimonial e histórico seria, com certeza, uma mais valia para a região, tão depauperada em termos culturais.


Notas
[1] Silva, Manuel Sousa da- Nobiliário das Gerações de Entre-Douro-e-Minho. [s.l.]: Carvalhos de Basto, 2000, vol. 1, p. 301.
 

terça-feira, 10 de abril de 2012

Cinfães: apontamentos genealógicos #1

A 29 de Outubro de 1727 casaram-se, na igreja de Tarouquela, António Moreira  e Andreza Pinta (1). O nubente era natural do lugar da Lage, freguesia de Moimenta, onde moravam os seus pais Francisco Moreira e Maria Cardosa. A noiva, embora o reitor de Tarouquela o não refira, teria nascido na freguesia de Real, de onde provinha quer o seu pai, João Pinto de Miranda, solteiro, quer a sua mãe, Ana Nunes, viúva. A circunstância de o matrimónio não se realizar na terra da contraente leva-nos a pensar que, visto tratar-se de uma filha ilegítima, ocorresse o enlace fora da tradição e longe dos círculos familiares da nubente.

[Continuar a ler...]

sexta-feira, 18 de março de 2011

Bibliografia cinfanense #9


MELO, Teodoro, frei / transc. de REIS, José António - Textual genealogico de cujos titulos se provam a Arvore dos Morgados de Velludo e Collegio da Baeta [1731]. Porto: [edição de autor], 2010, ISBN 989-20-2227.

Frei Teodoro de Melo, um Religioso do Convento de Cristo de Tomar natural do lugar de Enxertado, concelho de Resende, foi o autor de alguns trabalhos sobre a família e linhagem dos Morgados de Velude ou Veludo. Este vínculo, que recebeu o título de um lugar ainda hoje existente na freguesia de Cinfães foi criado em 1388, por Vasco Esteves de Matos e traduzia-se, no século XVIII (altura em que Frei Teodoro nasceu e viveu), numa poderosa instituição familiar, que superintendia vários direitos  e propriedades no Douro, na Beira e em Coimbra. 
O primeiro morgado, Martim Vasques de Matos viveu, como o pai, por terras cinfanenses e comprometeu-se, pelas cláusulas da escritura de instituição vincular, a zelar pela fábrica e missas impostas na capela de Santo António, adossada à igreja matriz de São João Baptista de Cinfães, - capela essa que ainda hoje existe, embora se trate de uma reconstrução setecentista. Como tal, apesar da uma política matrimonial que os afastou de Cinfães, os Malheiros de Melo (apelidos que tomaram os descendentes dos morgados) tinham neste concelho os seus lugares principais, fosse no pequeno lugarejo de Velude, fosse no panteão da igreja matriz, onde ainda hoje se exibem os vetustos mausoléus dos instituidores. Aqui paravam nas suas deslocações, aqui vinham tratar dos seus negócios e aqui casavam e, como tal, o território era-lhes familiar e com certeza querido. Esta proximidade ditava que os investimentos familiares não fossem apenas privados, num tempo e num espaço em que o planeamento urbanístico quase não existiam, não sendo por isso de admirar que, cerca do ano de 1693, o morgado Manuel Carneiro de Melo, pai de Frei Teodoro, tenha pago a fábrica da nova Ponte das Pias, "instando pela utilidade pública". Não era apenas, uma questão de utilidade pública, era, como no caso da construção da Ponte de Covelas, mais ou menos contemporânea da das pias, uma forma de afirmação nobiliárquica. Mas o investimento em pontes e caminhos, acto comum na nobreza da época, não era meramente simbólico, revertia a favor das linhagens num acesso mais célere a pessoas e bens do seu interesse.
Das obras produzidas por Frei Teodoro de Melo, chegaram aos nossos dias dois códices depositados nos Reservados da Biblioteca Pública Municipal do Porto. O primeiro, por nós já referido: Textual Genealógico de cujos titulos se provam a Arvore de Morgados de Velludo e Colegio da Baeta em tudo, ou em parte, e as mais que se seguirem [1731] (BPMP, Reservados, doc. 701) e um outro, colossal trabalho genealógico sobre os mesmos Morgados de Veludo, intitulado Nobiliário Particular e Prova das Memórias da Casa dos Morgados de Veludo e Colégio da Baeta com as verdadeiras genealogias das Família com que prendem e que dela se derivam até o ano de 1733, (BPMP, Reservados, Doc. 229). Esta segunda obra fazia parte de um tratado que versava igualmente sobre as condições da terra e a origem da nobreza, num exercício comum para a época. Embora alvo de uma incipiente análise histórica e de uma crítica pouco objectiva, pontuada por alguns anacronismos, um apócrafo deste tratado foi  editado pela Câmara Municipal de Resende, sob o estudo do padre Joaquim Correia Duarte ( – Resende no século XVIII. Lamego: C.M.R., 2004).
Mais recentemente veio a lume a edição transcrita  do Textual Genealógico, cuja capa reproduzimos acima. Da autoria do genealogista José António Reis, a edição daquele códice permite lançar luz sobre um vasto leque de anotações potencialmente riquíssimas em termos historiográficos, dado que, ao contrário da maioria dos trabalhos genealógicos da época (de teor mais ou menos laudatório), o Textual reproduz uma súmula de fontes primárias utilizada por Frei Teodoro de Melo para as suas árvores e descendências. Em 563 pontos, o religioso de Tomar exara dados colhidos em escrituras de dote, instituições vinculares, testamentos, tombos, etc, indicando a data, local de produção e arquivamento e sua autoria, frequentemente tabeliães cujas notas se perderam.
É por isso, de saudar a publicação de tão valioso documento para a História Local e Regional, nomeadamente para que seja possível aprofundar o conhecimento do passado de indivíduos ligados a Cinfães e à evolução deste território.
Prós: a edição de fontes constitui, sempre, uma mais-valia para a historiografia;
Contras: a inexistência de índices toponímicos e onomásticos, que dificulta a busca de denominações.
Bibliografia adicional sobre os Morgados de Velude e frei Teodoro:

DUARTE, Joaquim Correia – Resende no século XVIII. Lamego: Câmara Municipal de Resende, 2004;
GAIO, Manuel José da Costa Felgueiras - Nobiliário de famílias de Portugal. Braga: Carvalhos de Basto, 1989– 1990 (título de MATOS, § N2 e PINTOS, § 187 e seguintes).
MENDES, Nuno Miguel de Resende Jorge - Retratos de Terra e de Família. Porto: Câmara Municipal de Cinfães, 1997 (onde, a pp.85 a 91, o genealogista José Cabral Pinto de Rezende disserta sobre um ramo ilegítimo desta família, que subsiste na freguesia de Tendais);
PINTO, Joaquim Caetano - Resende nas letras. Autores, obras, antologia. Braga: [edição de autor], 1985.;
REZENDE, José Cabral Pinto de e RESENDE, Miguel Pinto de - Famílias nobres nos concelhos de Cinfães, Ferreiros e Tendais, nos séculos XVI, XVII e XVIII. Braga: [Carvalhos de Basto], 1988.

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