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segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Dicionário biográfico e histórico de Cinfães: Martim de Figueiredo (séculos XV-XVI)


Vista sobre a igreja de Piães colhida de Nossa Senhora do Socorro. Fotografia de N. Resende (c) 2010



Martim ou Martinho de Figueiredo aparece na documentação pontifícia do primeiro quartel do século XVI como «reitor da igreja paroquial de São Tiago de Piães» (1). Entre 1501 e 1520 sucedem-se os pedidos de indulto para prorrogação do recebimento de ordens sacras enquanto não terminasse os seus estudos.
Este caso demonstra o tipo de clima religioso e político que se vivia na Europa cristã de então, em que era concedido a um indivíduo leigo o benefício de cargos e rendimentos religiosos, como o que Martim Figueiredo recebia por ser reitor de Piães – mesmo sem ter recebido ordens sacras.
No entanto, as súplicas dirigidas ao Pontífice são reveladoras do percurso e estatuto do seu requerente. Nos primeiros decénios do século XVI, reinando D. Manuel, um português corria várias universidades de Itália, procurando uma formação e um conhecimento que não receberia no seu país-natal.
O Humanismo é um movimento cultural que reflecte as preocupações do homem de quatrocentos para retornar ao Passado clássico, procurando uma renovação e um florescimento do Homem enquanto produtor e usufrutuário de saber.
As circunstâncias descritas conferem com Martim Eanes de Figueiredo, cujo nome soa na História de Portugal associado a outras figuras do Humanismo português, como André de Resende, Sá de Meneses e Aires Barbosa, seu sobrinho e contemporâneo nos estudos.
Martim de Figueiredo foi doutor em Direitos (Canónico e Civil), desembargador do Paço e senador de Portugal durante o reinado de D. Manuel I e ainda professor na Universidade de Lisboa.
Em 1529, pouco antes de falecer, publicou uma obra comentário à História Natural de Plínio, enciclopédia publicada entre 77 e 79 e que constitui uma das primeiras grandes fontes de informação do mundo ocidental. O seu Commentum in Plinii naturalis historiae prologum a iuris utriusque doctore Martin Figuereto editum serenissimi Portugaliae Regis senatora, constitui o seu principal legado escrito.
Ainda em Itália teve como mestre Angelo Ambrogini  ou Angelo Poliziano dramaturgo e poeta de Florença, um dos responsáveis pelo brilho literário do Renascimento.
É-lhe atribuída uma obra que ficou por concluir até ao século XVIII, mas que se tivesse sido executada teria contribuído para a melhoria de circulação no rio Douro, à vista da sua igreja de Piães. Tratava-se de um projecto de abertura do Cachão da Valeira que empeçava a navegação do Douro acima de São João da Pesqueira e constituía um entrave ao avanço comercial do Douro até Castela. André de Resende narra o caso na sua obra Antiquitatibus Lusitanae:


«Era eu adolescente, Martim de Figueiredo, jurisconsulto e não desconhecedor das letras latinas a cujo estudo se dedicara diligentemente em Florença, guiado por Policiano, compreendendo que, removida certa catarata do rio [Douro], podiam as barcaças subir com pequeno esforço até aos campos, ricos em trigo, de Toro […] (2).


O plano terá sido travado por D. João III que escutou, ainda segundo André de Resende, rivais e invejosos de Martim de Figueiredo.
Ainda que talvez Martim ou Martim não tenha estanciado em Piães ou na sua igreja tenha estado por pouco tempo, justifica-se documentar aqui a ligação de um dos grandes nomes do nosso Renascimento a Cinfães - até hoje desconhecida.

NOTAS
1 - Cf. Estorninho, Alice; Costa, Antonio Domingues de Sousa; Meneses, Miguel Pinto de - Chartularium universitatis portugalensis : (1288-1537). Lisboa: Instituto de Alta Cultura/INIC/JNICT/Fundação para a Ciência e a Tecnologia, 1966-. vols. 10-11.
2 - Apud Ramalho, Américo da - Nótula sobre Martim ou Martinho (de) Figueiredo e André de Resende. Humanitas. Vol. LIII. (2001). p. 337-341.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Dicionário biográfico e histórico de Cinfães: comendador Victorino Amaral (1858-1926)

VICTORINO VAZ PINTO DO AMARAL
Fundoais, Oliveira do Douro Cinfães - 1858-1926
Industrial emigrante e filantropo

Comendador Victorino Vaz Pinto do Amaral (1858-1926). Foto de Livro de ouro de homenagem ao Brazil e Portugal


- Isso era antigamente. Hoje, quando se volta, até se traz mais gordura. Olha o Marques, de Sinfães.
- Eu tenho fé- insistiu Deolinda - que o pai, mesmo sem sair daqui, podia chegar a viver bem.
- Como?
- Não sei; tenho fé.

Ferreira de Castro, Emigrantes, 1928.

A emigração para o Brasil constituiu, em Cinfães, um dos exemplos mais flagrantes do empobrecimento das suas comunidades. Fruto de várias adversidades, desde a pulverização da terra à forte tributação dos produtos nela explorados – tantas vezes sujeitos a más anos agrícolas – estas e outras condições demográficas forçaram a dispersão da mão-de-obra por outros ofícios e geografias.
Nas classes inferiores os que podiam contrariar a imobilidade social, seguiam ofícios diversos dos dos seus pais e avós, procurando singrar em profissões mais rentáveis e melhor aceites.
Outros, procuravam destinos distantes para pagar com a força braçal um futuro que se esperavam mais promissor em relação ao que deixavam na terra  natal.
São incontáveis os exemplos de emigrantes em Cinfães. Sem uma estatística conhecida, apenas os registos já recolhidos, alguns deles associados a um rosto, permitem vislumbrar o caminho, nem sempre fácil, destes homens e mulheres. Parece certo, porém, que a maioria não singrou como desejava no trilho do êxito, como achava Deolinda, personagem do romance «Os Emigrantes» de Ferreira de Castro, que até alude a um exemplo de sucesso da emigração, o Marques, natural de Sinfães.
Não obstante a existência de uma clara maioria de massa anónima emigrante, registam-se alguns casos de sucesso, como o de Victorino Vaz Pinto do Amaral que, tendo nascido em Fundoais, a 29-10-1858, emigrou para o Brasil apenas com 13 anos de idade, em 1871 (nota 1).
Instalou-se no Rio de Janeiro e de empregado do comércio, alcançou o estatuto de empresário das indústrias do sabão e das velas.
O seu percurso como industrial, não o afastou, quer da sua terra, quer do auxílio ao próximo. Foi filantropo e benemérito de várias instituições ligadas à comunidade portuguesa no Brasil, tais como a Real Sociedade Beneficiencia Portugueza (da qual possuía a Cruz Humanitária);  o Real associação Beneficente Condes de Matosinhos e de S. Cosme do Valle (de que era grã-Cruz e Grande Dignitário), o Real Centro da Colonia Portugueza e a Associação dos Empregados do Commercio do Rio de Janeiro (nota 2).
Em 1901 criou-se no Rio de Janeiro a «Caixa de Caridade Victorino do Amaral», homenegeando a actividade caritativa daquele cinfanense emigrante. O rei D. Carlos premiou a sua obra social e concedeu-lhe o título da Comenda de Mérito Industrial a 14-11-1907 (nota 3).
Foi o comendador Victorino um dos responsáveis pela preparação da recepção do rei D. Carlos ao Brasil em Junho de 1908 – viagem que não se chegou a realizar pela morte prematura do monarca e do seu filho, assassinados a 1 de Fevereiro daquele ano. No entanto o seu nome ficou registado na obra que comemoria esse evento, sendo aí elogiado como um «comerciante honesto e probo».
Regressou a Portugal no fim da sua vida, tendo falecido em Fundoais a 18-10-1926, de onde eram naturais os seus pais, Manuel Vaz Pinto do Amaral e Maria de Jesus (nota 4).


NOTAS:
1) - Arquivo Distrital de Viseu [ADV], Governo Civil, Passaportes, cx.3399 nº600/5 f.75v-76;
2) - Cf. [S.a.] - Livro de ouro de homenagem ao Brazil e Portugal. Lisboa: [Escola Typographia das Officinas de S. José], 1908.
3) - Arquivos Nacionais - Torre do Tombo - Registo Geral de Mercês de D. Carlos I, livro 1, fl. 2.
4) - O livro paroquial respeitante ao ano do seu assento de baptismo não se encontra depositado nem no Arquivo Diocesano de Lamego, nem nos fundos do Arquivo Distrital de Viseu. Contudo, através do baptismo de um seu irmão chamado Constantino, sabemos serem pais de ambos Manuel Vaz Pinto do Amaral e Maria de Jesus (ele proprietário), avós paternos Francisco Vaz Pinto e Josefa de Jesus, ambos de Fundoais e avós maternos Joaquim Teixeira e Maria de Jesus, do Lodo. Foi padrinho deste irmão Vitorino Pinto Correia, escrivão de direito, É provável que o tenha sido também do antecessor, explicando-se assim a origem do nome do futuro comendador, cf. Arquivo Diocesano de Lamego [ADL], Paroquiais, baptismos, ano de 1861, assento n.º 7, fl. 3.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

A égua moralizadora e o filho do barão.



Jaime Augusto Teixeira Correia Pinto Tameirão Valado foi o sexto filho do 3.º Barão do Valado, Augusto Correia Pinto Tameirão e de sua mulher Josefina Henriqueta de Sousa Basto, dos viscondes da Trindade. Ambas famílias proeminentes na sociedade portuense, os Valados e Trindades ocupavam as funções principais no governo da cidade e, como tal o futuro de Jaime, nascido em 1874, parecia auspicioso. Porém, a autobiografia que ele publicou em 1908 quando o próprio tinha apenas 34 anos, revela uma vida agitada e bastante excêntrica face ao que as convenções protocolares oitocentistas requeriam.
A obra  A Minha Vida, editada como já referimos em 1908, foi escrita num tom coloquial, directo e mesmo crú, abordando as peripécias da vida boémia e desregrada do jovem Jaime, nascido no Porto, na rua Formosa, mas com ascendência em Cinfães. Começando por narrar a infância, depois a vida como sportsman e a idade adulta enquanto empregado no Ultramar, entre Luanda e Lourenço Marques, Jaime Valado não se coíbe de falar do que entende ser e (devia parecer) a Mulher, alongando-se nos seus vários amores e "casamentos".
Tendo estudado em Lamego, não deixa de revelar as suas inúmeras afrontas, justificadas pela idade e pelo estatuto. Um dia convidou "um preto" a ser seu "creado com a condição de" o "levar e trazer todos os dias a cavallo, ao Lyceu". E prossegue, descrevendo:
"Justo e contractado o escarumba, eis que um dia appareci montado no Gipp, como o baptisei, com grande galhofa e applausos dos meus companheiros, mas não, sem ter sido altamente insultado por aquelle bom povo, que entre muitas censuras me diziam: Se quer andar a cavello, compre um burro; agora n'uma alma de Deus! § A tudo eramos impassíveis, eu e o burro".
Jaime faz questão de frisar estas suas irreverências, gabando-se delas e das rusgas e sovas que dera ou ameaçara dar aos seus superiores. Nada podia contra este dandy fidalgo que que insurgia contra tudo e todos os que o contrariassem.
A única vez que quase perdera a cabeça foi em Cinfães, por volta de 1884, quando uma égua do feitor o derrubou. E para rematar o episódio Jaime escreveu: Ahi teem V. Ex.ªs a razão por que trago a cabeça inclinada sobre a esquerda, porque se cahisse sobre a direira seria para ahi que a inclinaria. O senhor fidalgo", como era reverencialmente tratado por terras de Cinfães (e como ele próprio faz questão de recordar) termina a sua apologia anunciando um capítulo com o título "O meu futuro", a que se segue uma página quase em branco com a única frase ? A Ti e a Deus pertence.
Talvez a mensagem fosse dirigida a Maria Cândida Pereira Leite, com quem o jactancioso biógrafo se consorciou, senhora certamente da alta sociedade, pois conquanto Jaime se gabe de várias conquistas e diga que todas as mulheres têm um encanto escondido, "as sopeirinhas e costureirinhas [...] muito mesmo muito bonitas [...] ou cheiram a estrugidos ou teem os dedos picados das agulhas".
Porém o seu futuro foi curto,  já que faleceria pouco anos depois de ver editada a sua biografia, em 1913.
Certamente para mal da fogosa família dos barões do Valado, de quem ainda viremos a falar...

BIBLIOGRAFIA CITADA
VALLADO, Jayme - A Minha Vida (1874-1908). [Edição do autor], Porto, 1908.

Pode descarregar este artigo em formato PDF aqui.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Dicionário Biográfico e Histórico de Cinfães: António Jorge de Figueiredo


Chalé de São João, Valverde, f. Tendais.

António Jorge de Figueiredo
(Meridãos, f. Tendais 1873 - Valverde, f. Tendais, 1937)
Bacharel em direito, escritor e pensador

António Jorge de Figueiredo nasceu a 8 de Outubro de 1873, no lugar de Meridãos da freguesia de Tendais. Filho de Manuel da Silva de Figueiredo e de sua mulher Augusta de Jesus Jorge de Resende (ou Gouveia), António descendia, por parte do pai e da mãe, das principais famílias de proprietários de Tendais: os Jorges, naturais do Outeiro de Meridãos e os Mendes de Vasconcelos, de Mourelos (1). Fruto de um casamento consanguíneo, prática comum numa freguesia geográfica e socialmente fechada, o pequeno António foi criado num universo de onde dificilmente se distanciaria: misto de oficiais do extinto município de Tendais e proprietários que frequentemente exerciam, sem menosprezo pelo seu estatuto, o trabalho braçal da lavoura. O desafogo financeiro e a condição dos seus pares permitiram-lhe obter uma educação apenas acessível a alguns, facto o que lhe permitiu seguir estudos superiores, findos os preparatórios (2) .

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Dicionário Histórico e Biográfico de Cinfães: João Teixeira de Vasconcelos

Despercebido aos olhos de quem visita o cemitério de Cinfães, na sua secção mais antiga, está um vetusto mausoléu com inscrições que o tempo e o desinteresse ocultaram. Trata-se do jazigo de João Teixeira de Vasconcelos e de sua mulher, que a inscrição funerária descreve com as seguintes palavras:
Jazigo de João Teixeira de Vasconcellos professor
escriptor, latinista natural d'esta villa
e de sua mulher D. Ana Rita Emerenci
ana, de S. Romão d Arêgos Rezende
nascidos elle em 10 de Julho de 1804
e fallecido em 1 de fevereiro de 1881
ella em 8 de setembro de 1803
e falecida em 12 de [...] 188[0]?


Quem foi João Teixeira de Vasconcelos?
Como o seu epitáfio refere, foi um professor de latim que exerceu o seu magistério na primeira metade do século XIX. Nasceu em Cinfães (Dom Joaquim de Azevedo di-lo de Fornelos) (1), filho de Francisco José Teixeira, de Eiriz e de Ana da Silva e Vasconcelos, desta freguesia e concelho e aqui faleceu, na companhia do padre João Teixeira de Vasconcelos, seu filho, que era em 1881 abade colado nesta paróquia.
Como refere o seu biógrafo, Joaquim Caetano Pinto, que reclama para Resende a honra de tão ilustre pedagogo, João Teixeira foi humanista insigne e professor publico de Gramática Latina, tendo regido esta cadeira de 1828 a 1833 (2).
Em 1835 exerceu o seu múnus em Resende, tendo alcançado a jubilação em 1858, ano em que foi leccionar a cadeira de latim no Colégio da Formiga, lugar que ocupou durante cerca de um ano. Transitou, depois, para Castelo Branco tendo vivido e ensinado nesta cidade durante um decénio. Em 1869 deixou definitivamente o ensino, regressando a Cinfães. Embora se conheçam algumas traduções publicadas da sua autoria, João Teixeira de Vasconcelos apenas editou uma sebenta de Gramática:

Vasconcelos, João Teixeira de: Curso de Grammatica portugueza e latina, e de latinidade. Porto, Tip.  Commercial, 1837 [2 tomos num volume: o 1.° contém a Grammatica e o 2.ª a Latinidade].
B.N.L.: L. 24.860 P.

Notas:
(1) Cf. Azevedo, Joaquim de - Historia Eclesiastica da cidade e Bispado de Lamego. Porto: [Typographia do Jornal do Porto], 1877, p. 254-255.

(2) João Teixeira de Vasconcelos - em PINTO, Joaquim Caetano - Resende nas letras: autores, obras, antologia. Braga: [edição do autor], 1985.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Bibliografia cinfanense #10


 Alves, Maria José Galhano; Mota, Teresa; Osório, Conceição- Amândio Barbedo Galhano: 1908-1991. Uma vida, uma causa. Porto: CVRVV, 2005. ISBN 972-97940-4-9.

Foi recentemente (2005) lançado um catálogo alusivo à vida e obra do engenheiro agrónomo Amândio Barbedo Galhano (1908-1991) ligado à Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes. Irmão do antropólogo e fundador do Museu de Etnologia em Lisboa, Fernando Galhano (1904-1995) eram ambos descendentes de famílias de Cinfães (mais propriamente do lugar das Pias). Os Barbedos constituíam um clã com certa notabilidade na região. Foram médicos, eclesiásticos, advogados  e comerciantes, nomeadamente alguns deles destacados ourives na cidade do Porto, onde tinham loja aberta na rua das Flores. De um destes ramos de comerciantes, descendia o Eng.º Amândio Barbedo, como ele próprio refere: "Se na família de meu pai havia certas maneiras menos preconceituosas, a de minha mãe era genuinamente burguesa - avô de cepa duriense [*] com loja de ourives na Rua de Flores e avó saída de negociantes de mercearia por grosso na Rua de São João."
Embora o catálogo não refira expressamente a ligação a Cinfães (o que muito nos admira, não obstante publicar-se uma foto da casa dos Barbedos nas Pias, na página 21), certamente que o ambiente rural do vale do Bestança estimilou a sua curiosidade pela agronomia, curso que seguiu e onde singrou numa florescente carreira ligada à vitivinicultura.

[*] Embora se não refira, pode tratar-se de João Pereira Barbedo noticiado n'O Patriota Portuense em 1821: "João Pereira Barbedo, ourives do ouro, morador na rua das Flores desta cidade, declara ser falsa a notícia, inscrita no Astro da Luzitania, de que lhe aparecerem, algumas das peças que lhe roubara, na noite de 23 de Janeiro […], O Patriota Portuense, n.º 48 (1821).

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Dicionário Histórico e Biográfico de Cinfães: Lima Machado Pereira.


Está patente, até dia 24 deste mês, no Museu Nacional Soares dos Reis (Porto), uma exposição sobre o mestre pintor Artur Loureiro que marcou o panorama artístico português e australiano de finais do século XIX e primeira vintena do século XX. A mostra integra um espólio variado, grande parte dele inédito, sobre a sua fulgurante, extraordinária e eclética carreira que o levou do Porto à Europa e à Austrália, onde ainda hoje é tido como nome maior da pintura e do movimento arts & crafts. Seu amigo e discípulo foi Lima Machado Pereira, que morou largos anos em Boassas, Cinfães.

António Joaquim Fernandes de Lima (que mais tarde adoptou o nome artístico de Lima Machado Pereira), nasceu na freguesia de Cedofeita, Porto, a 30-12-1877 e faleceu na casa do Oratório, lugar de Lodeiro, freguesia de Oliveira do Douro, a 25-12-1945. Nascido numa família de comerciantes dedicou-se à pintura já bastante tardiamente, sendo seu mestre e amigo, Artur Loureiro quando este vivia já uma fase avançada da sua carreira, como artista consagrado - entretanto regressado da Austrália (1901) para onde fora trabalhar anos antes.
Lima Machado Pereira (assinando já com os apelidos do seu mecenas e cunhado, o Visconde de Machado Pereira, que contribuiu para a sua sustentação em Paris) frequentou as melhores escolas europeias da época, e bebeu na capital francesa todas as influências que esperavam beber os bolseiros ou artistas livres que lá se dirigiam. Porém, a Guerra de 1914-18 obrigou-o a deixar os estudos académicos e a regressar ao Porto, onde prosseguiu a sua aprendizagem na Escola de Belas Artes, sendo então aluno de Marques de Oliveira e Teixeira Lopes.
Escolheu Cinfães para instalar o seu atelier e o seu eremitério.

Na terra que o seu coração e o seu pensamento elegera, lá em cima, nas serranias da proximidade do Douro, ele criara o seu último e verdadeiro ninho. No ponto mais elevado duma colina, entre pinheiros da sua particular simpatia, afastado do mundo, mandou construir uma casa, com espaçosa oficina, onde realizou a maior e melhor parte da sua obra magnífica. § A Casa do Oratório, como passou a chamar-se, era na realidade um encantador retiro de devoção artística. Toda rodeada de árvores a cuja sombra, nas calmosas tardes de verão, o Pintor se acolhia para as estudar e nas telas inteligentemente, amorosamente traduzir, Lima Machado Pereira de tal modo àquele ambiente se afeiçoara que só por absoluta necessidade uma ou outra vez o abandonara. (1)

Foi nesta casa que o pintor faleceu no dia de Natal de 1945 e de onde colheu os motivos, as paisagens e os tipos que incluiu na sua notável obra. Os montes bravios, os pinheiros (tão difíceis de reproduzir nas suas agulhas e padrões irregulares) (2), cenas campestres e alguns modelos das aldeias vizinhas de Fundoais e Boassas, constituíram alguns dos tópicos que, infelizmente, jazem praticamente desconhecidos. Ao seu talento como pintor juntou, também, a capacidade para converter em tridimensionalidade o que registava em tela. Executou inúmeras esculturas, nomeadamente a que imortalizou o filho dilecto de Cinfães, Serpa Pinto, inaugurada em 1946, no principal jardim da vila (3). A sua obra, integral ou fragmentada, depositada na casa do Oratório, tem aparecido à venda em vários leilões, durante os últimos 10 anos, e a sua dispersão constituirá uma perda irreparável a todos os níveis: local, pois as suas pinturas e esculturas são o documento de uma época e de uma região e nacional, já que se eclipsa um testemunho da vitalidade artística do realismo expressivo dos primeiros anos do século XX.


Notas:
(1) LOPES, Joaquim - Actualidade artística portuense. Ocidente, n.ºs 105-108 (1947) 34 e 35.
(2) Foi com a obra Pinheiros velhos, pinheiros novos que ele impressionou os críticos e causou polémica. Este quadro integrou o espólio da Casa Museu Fernando de Castro e está hoje nas reservas do Museu Nacional Soares dos Reis
(3) Sobre a inauguração deste busto, ver o artigo de VENTURA, Jorge - Aspectos de uma homenagem a Serpa Pinto. Terras de Serpa Pinto, n.º 7 (1997), 103-121. A ligação entre Carlota de Serpa Pinto e o pintor Lima Machado Pereira derivava da proximidade entre as propriedades de ambos. Para chegar à Quinta do Paço, proveniente de Mosteirô (a estação ferroviária que servia Cinfães), era necessário passar à porta da casa do Oratório. Ambas as habitações foram, nos anos 20, 30 e 40, lugares de convívio e tertúlia, como esclarece uma crónica do crítico Manoel de Sousa Pinto, em 1922: "Fernandes Lima - Lima Machado Pereira na arte - vive quasi todo o ano em Fundoais, lá para as bandas acidentadas da Gralheira, visinho e conviva habitual do solar da gentilissima Clarinha - essa deliciosa Quinta do Paço, rica dos variados panoramas da Beira-Douro e fértil em horas dum encanto raro", PINTO, Manoel de Sousa - As exposições. A Ilustração Portugueza, n.º 840 (1922), p. 281.

Espólio do Pintor Lima Machado Pereira. Catálogo de "Leilão de Pintura e Escultura Portuguesa". Lisboa: Palácio do Correio Velho, 2002

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Um romancista de Cinfães: Guido de Monterey.

Jornal Miradouro, ano 62, n.º 1699, 3.ª série, 25-02-2011, fl. 1


Hoje (25-02-2011), o jornal Miradouro, órgão da imprensa que tem defendido os interesses locais e regionais, brindou-nos com uma imagem do escritor Guido de Monterey, fazendo alusão à sua condição de autor adorado ou detestado. Estou em crer que ninguém de bem "detestará" o sr. Guido de Monterey, dado que é, com certeza, benquisto na sua comunidade e querido pela maioria dos cinfanenses que se habituaram às suas crónicas jornalísticas ou aos seus livros, vendidos por todo o lado, desde livraria a retrosarias. Devo lembrar, aliás, que o primeiro livro que li sobre Cinfães e que despertou em mim o interesse por querer saber mais sobre a minha terra foi o Terras ao Léu: Cinfães.
Os livros de Guido de Monterey, sempre edições do próprio autor, vibram desde a capa até à última página do miolo, por serem profundamente garridos no seu desenho e adjectivados na sua linguagem. De resto, a obra deste escritor, publicista, monógrafo, etc, natural de S. Cristóvão de Nogueira é fecundíssima. Poucos regionalistas da palavra escreveram tanto em tão pouco tempo, editando, lavrando polémicas, guiando turistas por montes e vales, ilhas e cidades e fazendo por escrever história a partir do seu jardim. A sua biografia pode ler-se em várias páginas de grande parte da sua obra, sobretudo a que diz respeito às tais monografias de Cinfães. Quando escreve sobre Cinfães, Guido de Monterey (ou José Rosário Guisande, seu heterónimo) põe sempre algo de si e dos seus nos ensaios e livros que frequentemente inaugura. É famoso, por exemplo, por ilustrar qualquer narrativa com as suas estrelas, estrelinhas e flores, metáforas para as personagens femininas que o marcaram ao longo da sua vida.
Em 1944 passou pelo Seminário Menor, em 1947, pelo Seminário Maior de Lamego e, tendo tentando a Universidade (curso de Direito), logo desistiu, tornando-se um autodidacta da escrita. Num tempo em que a escrita, fosse ela profissional ou meramente recreativa, estava vedado à maioria, Guido de Monterey destacou-se na produção literária do tipo regionalista. Devem-se-lhe páginas realistas de novelas como "Os Bêbados", "Os Penduras", etc, focando tipos e cenários próximos ao autor. No âmbito da História, Guido de Monterey, como se sabe, não é historiador. Como muitos amadores que ao longo dos anos 70, 80 e 90 criaram uma quase escola de monógrafos locais, foi desenvolvendo trabalhos metodologicamente nulos e cientificamente incipientes, que misturam lendas com factos, documentos com divagações pessoais, criando más interpretações e, sobretudo, contribuindo para que a História, já de si complexa, dificilmente seja "lida" por qualquer cidadão, de forma clara e compreensível.
Cabe, porém, destacar a tenacidade do autor e, sobretudo, a sua versatilidade que tem na obra novelística o seu interesse maior e mais grado, quanto a nós. E, infelizmente, nestes quase 70 anos de produção, nunca o município, na pessoa dos seus Presidentes ou da edilidade deu o devido valor à obra deste romancista. Enfim, quando a cultura é um estorvo, tudo atrapalha.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Dicionário Histórico e Biográfico de Cinfães: A. Cardoso Esteves

António Cardoso Esteves
São Cristóvão de Nogueira, 1886 | 1934
Licenciado em Direito pela U.C.
Administrador Municipal de Castro Daire
Secretário da Presidência do Tribunal da Relação do Porto

O texto que damos aqui à estampa, em formato digital e devidamente transcrito, foi adquirido há alguns anos num alfarrabista do Porto. Artigo anónimo, dactilografado, destinava-se, talvez, a algum jornal local ou regional e ainda que escrito em tom laudatório e hagiográfico é um documento interessante para o conhecimento das relações sociais e do período político de final da Monarquia e transição para a República, cujo centenário este ano se evoca.


(clique sobre as imagens para aumentar)


O Dr. António Cardoso Esteves, nascido no Temporão, lugar da Freguesia de S. Cristóvão de Nogueira, do concelho de Cinfães, foi um democrata convicto que militou no Partido Progressista ao lado de vultos eminentes, de entre os quais haverá que lembrar o "Deputado da Ponte" - o Dr. Amadeu Leite de Vasconcelos - como ele também natural da referida freguesia de S. Cristóvão de Nogueira.

Iniciou a sua carreira profissional em Cinfães como advogado após a sua formatura pela Universidade de Coimbra em 1909, mas em breve ingressou na magistratura, desempenhando funções de Delegado do Ministério Público nos Açores e depois na comarca de Cuba, no Alentejo.

Daqui transitou para o lugar de pólítico de Administrador do concelho de Castro Daire, aproximando-se, portanto, da terra da sua naturalidade, pois são concelhos limítrofes, ambos do Distrito de Viseu.

A sua actividade política dirigira-se sempre no sentido do engrandecimento de toda essa pulquérrima região que lhe servira de berço e que muito amou durante toda a sua relativamente curta existência.

No entanto, os períodos conturbados de antes e a seguir à implantação da República em 1910, a deflagração da primeira Guerra Mundial, e essa época do final duma guerra, que nada resolveu de positivo para a humanidade, e os períodos incertos que se seguiram até à revolta de Braga que culminou com a instauração de um novo regime político, não permitiram que pudesse firmar e afirmar a sua capacidade de homem de acção.
Era, o Dr. António Cardoso Esteves, um político de honestidade e lealdade indesmentíveis, e de princípios firmes, atributos reconhecidos pelos seus próprios adversários políticos.

Quando deixou de ser Administrador do concelho de Castro Daire foi para ocupar o lugar de Secretário da Presidência do Tribunal da Relação do Porto, lugar cujas funções desempenhava quando a morte tragicamente o atingiu em Abril de 1934.
Em todos esses lugares soube granjear amizades firmes e duradouras, porque o seu trato era afável, e sobretudo, a bondade imperava no seu modo de ser e de se conduzir. Tudo isso contribuía para se impôr, como político, à consideração tanto de correligionários como de adversários políticos.
Foi sempre fiel, em quaisquer circunstâncias, ao seu pensamento político, fôssem quais fôssem os regimes ou os governos partidários tão inconstantes no período compreendido entre a implantação da República //

e o advento do regime instaurado após o 28 de Maio de 1926.

Essa sua firmeza de convicções, demonstra o seu caracter digno, que segue em frente por uma linha recta e da qual nada o consegue desviar.

Esta sua firme conduta não podia, naquele conturbado período da politica nacional portuguesa, deixar de lhe criar dissabores morais e físicos, como facilmente se compreende e ainda mais facilmente o compreendem os que viveram nessa época e que ainda tenham a felicidade de viver nesta data.

Sofreu fisicamente, andando "a monte", como então se dizia daqueles que tinham necessidade de se esconder para evitarem ser presos pelas autoridade às ordens dos dirigentes dos partidos adversos então nos "poleiros da governação", e que estendiam a sua influência até às autoridades regionais civis e militares.

Se algumas vezes andou fugido, isto é, escondido, não evitou que também tenha sido detido e estado preso conjuntamente com corregilionários seus às ordens da autoridade civil do concelho.

recordamos alguns desses espíritos liberais que compartilharam com ele as tarimbas da prisão: - o já referido Dr. Amadeu Leite de Vasconcelos, Roque Calheiros, Dr. Cunha, Dr. Arnaldo Reimão da Fonseca, José Ferreira Pinto de Oliveira, e outros...

A política, porém, não representava para ele um trampolim para se alcandorar, mas dado o seu caracter bondoso e justo, procurava através dela que a sociedade encontrasse uma melhor e mais eficiente justiça social.

Teve uma existência curta, falecendo em Abril de 1934 com apenas 48 anos de idade, mas soube impôr-se cirando [sic] amigos, que muito tempo depois ainda o recordavam com amizade, e entre os adversários políticos alguns houve que ainda ha relativamente poucos anos se lhe referiam com palavras respeitosas.

Faz bem recordar pessoas que pelo seu passado tenham dignificado o homem; dar-se a conhecer aos vindouros as lições dessas existêcias [sic] para que possam servir-lhes de modelo e neste caso está a existência da pessoa do Dr. António Cardoso Esteves que acabamos, em traços largos, de referir e de caracterizar.

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