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quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Brevíssima história de uma aldeia: Pias



PARTE I: a Terra.



Topónimo comum em Portugal, Pias é designação de uma povoação na freguesia e município de Cinfães, na margem esquerda da ribeira da Bestança, a sul do rio Douro.
Implantada numa pequena elevação, entre os 150 e 200 metros de altitude, a povoação desenvolveu-se ao longo de uma via que, no sentido oeste-este, cruzava a ribeira de Bestança (afluente do Douro) num ponto transitável (a pé?) da sua corrente. Porém, o caudal imprevisível da ribeira, profundamente violento no inverno, conjugado com a necessidade de assegurar a passagem mais cómoda de homens e veículos, terá motivado a edificação, na Idade Média, de uma ponte.
A primeira e mais antiga referência a esta estrutura (para já conhecida) encontra-se associada a Dona Branca Pais, mulher abastada que deixou ao Cabido do Porto:

«[…] huma quinta em Sima do Douro digo em Riba de Douro onde chamão as pias a cerca da ponte de bastança […]»[1]

E embora o documento que transcreve a doação seja datado de 1576, refere-se a um legado anterior, talvez do século XIV, que assim atesta a antiguidade da travessia (não sabemos se de madeira ou pedra) existente junto às Pias. O próprio topónimo realça a necessidade de vencer a orografia, marcada por pedras escalavradas, barrocos ou perladas [2].
Deve-se pois, à ribeira, à via e à ponte, a existência e prosperidade da povoação, enquanto aldeia-fronteira no termo da paróquia/freguesia e município de Cinfães.
Em 1527 era lugar pequeno, comparado com Travaços, Bouças e Louredo [3]. Enquanto estes lugares tinham acima de vinte moradores (fogos), Pias contava apenas cinco. Talvez assim se compreenda porque não é referida em 1258, juntamente com outras localidades do termo de Cinfães [4] - estaria então a formar-se como núcleo habitacional?
É possível que o incremento demográfico de Pias ocorrido ao longo da medievalidade e da época moderna se deva ao facto de ser lugar de passagem, documentado pelo seu urbanismo unilinear (ver imagem 2). Também Louredo, no extremo nascente do concelho, se destacava pela sua localização junto a uma ponte, de origem medieval, ainda hoje conservada e juntamente com Pias, ambos os lugares como percursos intermédios de uma via paralela ao Douro.

Vista aérea de Pias (recortada a partir de Google Maps) onde se vê claramente a via ou «rua» que deu origem à povoação, de sinuosidade medieval.

 Da época moderna, período de vida económica fervilhante na região duriense, voltamos a ter notícias da travessia – importantes notícias, aliás, que atestam a importância do lugar e da sua ponte.
Efectivamente manuscrito de Frei Teodoro de Melo, datado de 1733, dá conta da destruição, por uma «enchente», de uma «formosa ponte de cantaria», «de próximo reedificada, por ter levado uma cheia a que no mesmo sítio das Pias se havia fabricado antes». A reedificação dera-se quarenta anos «pouco mais ou menos» (antes da memória do autor) e foi-o a expensas do Morgado de Velude, nobre e proprietário de Cinfães, «instando pela utilidade pública»[5].
Assim, em finais do século XVII, a ter existido uma ponte medieval (românica?) sobre ao Bestança, junto a Pias, foi a mesma destruída por uma cheia, tendo sido substituída por outra no século XX, aquando da abertura e construção da estrada nacional 222.
 Em 1758 o abade de Cinfães, certamente por esquecimento, não refere a ponte que é no entanto assinalada pelo seu congénere de Oliveira do Douro, quando alude aos cursos de água da região:

«[…] o Ribeyro chamado Bestança que tem Sua orige na freguezia de Tendais, e Se vem despinhando pella Freguezia de Sam Pedro de Ferreyros, e Fica correndo o dito Ribeyro para o Rio Douro entre Symfaiz, e esta Freguezia de oliveyra, que o mesmo fás Reparticçáo das ditas Freguezias, e nelle há huma Ponte de Pedra no fim de Boassas cittio do Lugar das Pias […]»[6]

Não obstante o lapso o reitor de Cinfães, Heitor Pereira Cardoso assinala o lugar das Pias, associando-o a Vila Pouca, ambos com 46 fogos – o terceiro «lugar» em população da freguesia e município, a seguir a Vila Viçosa, Travassos e Bouças [7].
No século XVIII o outrora pequeno lugar tornara-se povoação importante e atractiva para pobres e ricos, remediados e abastados, povo e nobreza, leigos e clérigos, como o padre Manuel Pereira que em 1758 administrava aqui uma «ermida» titulada a São Gonçalo, venerável associado a caminhos e …pontes.

Nuno Resende 



NOTAS


[1] - Arquivo Distrital do Porto (ADP), Cabido, Datário, fl. 35 v.º
[2] - Barrocos e perladas ou preladas (veja-se o topónimo bem próximo às Pias, em Ferreiros de Tendais) são designações vernaculares para lugares associados a rios e ribeiras, onde há poços, pedras de formas extravagantes e até sons peculiares que motivavam a memória e sobrevivência dos topónimos.
[3] - Collaço, João Tello de Magalhães - Cadastro da População do Reino (1527). Lisboa: [edição do autor], 1931.
[4] - Baião, António, org. - Portvgaliae monvmenta historica [...]: Inquisitiones [vol. I, parte II, fascículo VII]. Lisboa: [s.e.], 1936.
[5] - Documento transcrito e citado em: Duarte, Joaquim Correia - Resende no século XVIII. [s.l.]: Câmara Municipal de Resende, 2004, p. 309
[6] - Teixeira, Baltazar Manuel de Carvalho Pinto - Oliveira do Douro [Memória Paroquial de]. Lisboa: IAN/TT, 1758.
[7] - Cardoso, Heitor Pereira - Cinfães [Memória Paroquial de]. Lisboa: IAN/TT, 1758.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

A Ponte de Soutelo, em Tendais.


Ponte em granito lançada sobre o rio Bestança, de um arco de volta perfeita, medindo 9 m de diâmetro; piso de cavalete, com 2,5 m de largura (face interior das guardas); piso lajeado com blocos e lajes de grandes dimensões; guardas de ambos os lados, formadas por blocos e lajes, com talhe grosseiro, dispostas segundo o lado maior; os elementos em falta foram restaurados com cimento (parte central da ponte). Segundo o autor deste verbete constante do sítio Portal do Arqueólogo, Domingos de Jesus da Cruz (que efectuou prospecção em 2005), data a ponte de Soutelo como obra da Idade Média.

Atente-se ao que autor anónimo escreveu no jornal cinfanense a Justiça, de 1892, e repare-se no nosso sublinhado:


Ponte de Soutello


Soutello é uma pittoresca povoação da freguezia de Tendaes, situada na margem direita do rio Bestança. Habitada por um povo laborioso, ha muito que tem sido completamente esquecida dos municipios, que no partilhar do dinheiro destinado a viação pública, a tem deixado ao mais completo abandono; por isso os caminhos são em grande parte, intransitaveis, e como a povoação está separada do resto da freguezia pelo Bestança, difficeis se tornam as comunicações, sendo necessário, ás vezes, dar grandes voltas, para tomar a unica ponte que a liga á freguezia. Ha talvez 20 annos que nada se faz em beneficio d’esta importante povoação, e apenas ha menos de um anno, a camara mandou alli fazer um pequeno concerto (sic) n’um caminho, o que é muito pouco para as necessidades da povoação, e para o que é justo e equitativo.
A freguezia de Tendaes, cortada por differentes ribeiros, contem em si umas seis ou sete pontes, algumas importantes, sendo curioso que sómente uma fosse mandada construir pelo municipio: a de Enxidró [sic], situada sobre o ribeiro Fervença (1), construida de pedra, notavel por ligar a freguezia de Tendaes á de Sinfães. A não ser esta, e uma compostura feita o anno passado, na ponte que liga esta freguezia a Bustello, todas as outras são devidas a expensas de particulares; assim, a importante ponte chamada a Nova, ou de Covellas, que une Tendaes a Ferreiros, e mede 36 metros de cumprimento por 3 de largo, foi mandada fazer em 1762, por Diogo de Sequeira Vasconcellos, natural de Covellas. A ponte da Sadorninha também de pedra, sobre o riacho da Egreja, que une os 2 povos de Meridãos e Quinhão, foi feita pelos proprietários de Tendaes, ignoramos a epocha.
O povo de Quinhão mandou fazer sobre o mesmo ribeiro, em 1840, uma ponte de madeira para sua servidão, a qual mais tarde, foi reformada e feita de pedra. Em 1842 foi também construida a expensas do povo de Soutello, Granja e Cabo de Tendaes, uma ponte de madeira sobre o Bestança, sendo mais tarde substituida por uma ponte de pedra, que lá existe actualmente. Sobre o ribeiro de Fadazes, perto de Chã, foi tambem em 1842, construida uma ponte de madeira, pelo povo de Soutello, que está hoje muito velha.
D’esta relação, que não garantimos ser completa, se vê que o municipio concorreu apenas com a menor parcella: e, todavia, a freguezia de Tendaes, e por tanto o povo de Soutello, todos os annos tem pago para o municipio as contribuições que lhe são devidas.
Não é por isso de mais que agora a camara municipal contemple de algum modo aquelle desprotegido povo; ha muito que elle vem fazendo sentir a urgente necessidade de uma ponte sobre o Bestança, que, perto de Chã, os una a Tendaes; esta ponte é de grande utilidade não só para o povo de Soutello, mas também para o da parte norte de Tendaes, que para passar áquella povoação, ou para Bustello e mais freguezias da serra, com carro, tem de dar uma grande volta, que não daria se esta ponte existisse. E o que se diz da parte norte de Tendaes póde dizer-se com egual razão da freguezia de Sinfães.
Este periodico apezar de politico, advoga, como sempre tem feito, os interesses dos povos, quando justos, os quaes põe em primeira plana, e superiores a toda a politica. Recommendando pois, á vereação municipal a mencionada ponte quando o estado do seu thesouro o permitta, não fazemos mais do que cumprir o nosso dever; assim como não regatearemos elogios a quem concorrer para o bem d’este concelho, por meio de melhoramentos julgados necessarios, seja grego ou seja troyano o auctor d’elles.

Notas:
(1) outro nome atribuído ao ribeiro de Enxidrô, ou das Fontaínhas, que divide as freguesias de Cinfães e Tendais. Esta ponte, que ainda existe, deve ser das poucas locaisde fábrica medieval, embora tenha sofrido alterações na época moderna e contemporânea. Serve actualmente de passagem a estrada municipal das Pias ao Urgal.

sábado, 26 de dezembro de 2009



Notícia do «Castelo de Chã» na revista L'Univers: histoire et description de tous les peuples (1846), segundo a apologia de Joaquim de Santa Clara de Sousa Pinto na Revista Panorama . Erroneamente designada por «Castelo», a Torre de Chã foi construída como casa-fortificada de um clã nobiliárquico, à semelhança de muitas outras que pontilhavam na região (São Cipriano, Torre de Paçô, em Oliveira do Douro, etc). No século XIX a família Sousa Pinto, de Fundoais, modelou a imagem actual da Torre, fazendo-a sede da linhagem dos Pintos e fazendo confluir até ela o desejo de um ideal de nobreza romântico (imagem aproveitada pelos escritores da época, como Rebelo da Silva, Alberto Pimentel e Camilo Castelo Branco).

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Dicionário Biográfico de Cinfães: Giraldo Giraldes, o sem pavor

O lugar de Chã, Ferreiros de Tendais
Giraldo Giraldes, o sem pavor (séc. XII)


Militar e mercenário (séc. XII)



Figura controversa de contornos míticos que alimentou o espírito nacionalista português em várias épocas, Giraldo Girlades Gizado figura na História de Portugal como um caudilho de D. Afonso Henriques, «herói» destemido que recebeu o epíteto de Sem Pavor e ficou ligado à tomada de Évora, que uma certa historiografia modelou como empresa táctica e mestra. Hoje, graças ao levantamento documental e a novas fontes históricas é possível gizar uma ideia mais clara, não tanto de Giraldo Giraldes, sobre quem poucos registos existem, mas sobre seus congéneres: soldados mercenários, bandoleiros, que combatiam a troco de soldo, sem que os movessem intuitos religiosos ou de identidade.  

Speech by ReadSpeaker