sábado, 15 de setembro de 2018

História de um «lapicídio».

Fig. 1

As diferenças entre as duas imagens (figura 1), aqui justapostas, da fachada dos paços do concelho de Cinfães, recortadas de dois bilhetes postais ilustrados que podem ser visualizados aqui e aqui, são notórias a vários níveis. Desde logo a inexistência de reboco na fachada e de gradeamentos delimitando o espaço público da envolvente do edifício, na primeira imagem, pode indicar que o mesmo se encontrava em construção. De facto, a edificação dos Paços do concelho iniciada em 1892 parece ter-se prolongado até ao século seguinte e neste sofreu vicissitudes várias, como o incêndio que em 1918 destruiu praticamente todo o recheio.
Mas um elemento em particular contribui para confirmar a distância cronológica entre ambas as imagens. De facto, na primeira fotografia consegue perceber-se a existência da coroa sobre o brasão nacional, ao passo que na segunda esse brasão desapareceu (figura 2):

Fig. 2
:
A circunstância para tal, embora injustificável, só pode compreender-se no decurso da implantação da República, a 5 de Outubro de 1910. Desejosos de apagar qualquer reminiscência do regime anterior, os aguerridos republicanos de Cinfães mandaram eliminar a pedra que representava a coroa aposta sobre o escudo nacional.
Mas se não tal não bastasse, há outro elemento que, no recorte da fotografia do 2.º bilhete-postal ilustrado nos remete para outra estratégia dos homens do novo regime: a alteração da toponímia. De facto, embora desconheçamos qual seria o nome anterior do largo que ladeava o edifício dos paços do concelho (onde hoje se ergue o novo Pelourinho), depois de 1910 ele passou a chamar-se Praça Paes Gomes, como indica um letreiro colocado na esquina da fachada dos Paços do Concelho (figura 3) - local de encosto e conversa de alguns transeuntes:

Quem era Paes Gomes?
Ricardo Pais Gomes (1868-1928) foi um advogado, maçon, republicano e, no novo regime, o primeiro Governador Civil de Viseu. Embora o ligasse a Cinfães apenas o cargo e a sua filiação ideológica, foi o suficiente para que as primeiras edilidades o considerassem digno de baptizar uma das (poucas) praças da vila de Cinfães.

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