terça-feira, 9 de maio de 2017

Brevíssima História de uma aldeia: Pias (parte II)


PARTE II: os Homens


Fig. 1 - Povoação de Pias. A capela de São Gonçalo encontra-se oculta pelo urbanismo, localizando-se frente à principal artéria da aldeia.


Fig. 2 - Fachada da capela de São Gonçalo, voltada à principal artéria da povoação.
Ao longo da época Moderna (séculos XV-XVIII) a aldeia foi singrando demograficamente, talvez graças à sua localização privilegiada, na confluência dos caminhos da serra com os do Douro.
Contudo, são várias as referências, dentro da referida cronologia, nos assentos de óbitos da paróquia de Cinfães, a indivíduos pobres que morrem em Pias, alguns sem possibilidade de receberem ofícios religiosos após a morte para salvação da sua alma.
Mas se pensarmos que a maioria trabalharia com as suas mãos (seriam, portanto oficiais mecânicos) e que tal os inabilitava para os cargos de nobreza e funções do governo local, como um João Fernandes, tendeiro, que testemunhou no matrimónio de João de Avezedo, de Açoreira e Maria Pinto, das Pias, a 29-7-1675 [1] importa narrar um extraordinário exemplo que contradiz a ideia de imobilidade social. Trata-se do caso do pedreiro Manuel Dias, que morre nas Pias, a 14 de Agosto de 1676 [2]. Ele e a sua mulher, cujo óbito se registou nove anos depois, a 23 de Fevereiro de 1685 [3], são os fundadores da capela de São Gonçalo a que alude, em 1758, o pároco de Cinfães e que então estava sob a administração do padre Manuel Pereira. A sua fundação ocorreu por escritura notarial de dote, datada de 8 de Setembro de 1669 [4].
A instituição, construção e administração de capelas cabia frequentemente a nobres, clérigos ou outros indivíduos, cuja fortuna e estatuto permitia manter e perpetuar o culto, nome e património que vinculavam ao templo. Vermos um pedreiro a fazê-lo, em pleno século XVII, constitui um interessante documento social. Manuel Dias foi, aliás, um dos sepultados na capela, para o que obteve licença do Visitador eclesiástico, como refere o seu assento de óbito.
Tal manifestação de poder poderá resultar, asseveramos, da boa fortuna ganha no ofício de pedreiro que o Manuel Dias quis agradecer destinando parte do seu património a São Gonçalo. Embora este taumaturgo seja conhecido e devocionado na região, a escolha prende-se com o facto que ser uma figura construtora de pontes, perfil mais do que adequado para patrono de um pedreiro.
Quem sabe se o próprio Manuel Dias, não participou na manutenção e reparação da velha ponte medieval das Pias, de que dependia a vida económica e social da povoação?

Fig. 3

Fig. 4

Fig. 5
Figs. 3-5: Devoção a São Gonçalo na região de Cinfães (de cima para baixo): imagem de São Gonçalo na igreja matriz de Cinfães; pintura representando S. Gonçalo na capela da casa e antiga torre de Chã (Ferreiros de Tendais); imagem de São Gonçalo na ermida de São Sebastião, em Covelas (Ferreiros de Tendais). Nota: Gonçalo de Amarante é, segundo o calendário litúrgico, apenas comemorado como beato. No entanto utilizamos a designação «santo» que lhe é aposto pelo povo.

(Continua).

Nuno Resende

Notas:
[1] - ADL, Paroquiais, Cinfães, Mistos, livro 2, fl. 137
[2] - ADL, Paroquiais, Cinfães, Óbitos, 1672-1696, fl. 12
[3] - ADL, Paroquiais, Cinfães, Óbitos, 1672-1696, fl. 45 v.
[4] - AHML, Tombo da Provedoria, fl. 244 ss. Ver transcrição (disponível em breve).

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