quarta-feira, 1 de junho de 2016

«Escrupulo de consciencia e impulso de caridade»

Ruivais: lugar onde possivelmente existiu a Roda - instituição que acolhia anonimamente crianças abandonadas.


Numa região onde, na época moderna, as taxas de ilegitimidade são altíssimas, como já tivemos questão de provar em relação a Tendais (1), colhem-se algumas descrições mais completas destes casos: relações ilícitas de mancebia ou concubinato que, ou eram toleradas socialmente ou anatemizadas pela legislação canónica e civil. Pela documentação percebemos que as relações entre homens e mulheres não casados são bastante frequentes na região de Cinfães, no período dos séculos XVI a XIX, havendo inclusivé a denominação de mulheres juradas para as mulheres que justificavam os filhos ilegítimos com a promessa de casar com o seu companheiro, «e isto já pello uzo tão versado nesta freguezia [Cinfães] se não estranha, nem se faz Cazo» (2), como assinala o reitor de Cinfães em 1707.
O destino de certas crianças nascidas destas uniões ilícitas, fosse pela vergonha social da mãe ou dos pais, fosse pela incapacidade económica para a sua criação, era a Roda - instituição gerida pelo Município onde se deixavam os recém-nascidos posteriormente entregues a amas ou família de acolhimento. Existiam Casas da Roda em Ferreiros de Tendais e em Piães, para onde se encaminharam milhares de crianças aos longos dos séculos XVI e XIX, como testemunham os livros de registo paroquial.
O excerto transcrito abaixo é expressivo de uma destas situações que marcaram o panorama social e demográfico da época moderna na região de Cinfães e Montemuro que, não obstante as visitações, as admoestações do poder religioso e a pressão das convenções, admitia abertamente tais casos.
 
(1) Resende, Nuno - "Segundo consta e é notório": ilegitimidade, mulher e família em Tendais (1751-1810). Prado. n.º 4 (2010). p. 24-53. 
(2) ADL, paroquiais, São João Baptista de Cinfães, baptismos, fl. 84-84 v.



1789, Abril, 18, Ferreiros de Tendais – Extracto do livro de assentos de baptismos da freguesia de Ferreiros de Tendais, em que o abade Bento Cepeda testemunha um caso público de mancebia. No seguimento do registo do acto de baptismo de Maria, filha de Ana, solteira, do lugar de Aldeia, e de José Martins o abade expõe as práticas adúlteras entre ambos e as estratégias para ocultação dos nascimentos delas resultantes. Arquivo Diocesano de Lamego [ADL], paroquiais, São Pedro de Ferreiros de Tendais, livros mistos (casamentos 1773-1805), fls. 50-50 v.º. Nota: as abreviaturas foram desdobradas para uma melhor leitura e compreensão do teor do texto.


[...]
[Fl. 50]
Declaro por escrupulo de Consciencia, e impulso de caridade, que eu declarei por Pae da sobredita criança a Jozé Martins, chamado o Alferes de Aldeia, não obstante virme maliciozamente pedir o nam puzesse por Pai, porque hi certo, publico, e sem a menor duvida, que elle hé o Pae da dita criança: e devo certificar, e certifico com juramento in verbo Sacerdotio que este homem há muitos annos anda amancebado com a dita Anna Silva, tida, e mantida, de que faz mençam o Assento supra, tida, e manteuda em hua Caza sua quazi pegada a Caza, em que elle habita. Esta mancebia he notoria, e escandalozissima em toda a Freguezia, e sem ser bastante para os emendar toda a minha Pastoral Vigilancia, e Apostolico Zelo, porque com inaudita incorrigibilidade tem Sempre illudido as minhas vivissimas reprehensões. Tem tido da dita amiga quatro filhas: a primeira chamada Anna Joaquina, que ella pario no Porto conduzida por elle, e poz a criar na roda, dando por sinal com o maior atrevimento o meo sobrenome. A segunda chamada Joaquina, pario ella no Lugar de Aldeia, em que habita; mas elle a levou furtivamente a bautizar na Freguezia de Oliveira do Douro, e a poz a criar em Paredes em Caza de Manuel da Mouta. A A = // 
[fl. 50 v.]
A terceira chamada Maria nasceo tambem em Aldeia, mas elle a levou para Aregos a bautizar, e criar. A quarta hé a de que faz menaçam o Assento Supra. Tudo o que acabo de escrever nam padeçe a menor duvida. Ferreiros 18 de Abril de 1789.
O Abade Bento Pinheiro d Orta da Silva Cepeda

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