Existem, pelo menos, duas edições de bilhetes-postais
ilustrados que apresentam o edifício da Câmara Municipal de Cinfães nos primeiros
anos da sua existência – uma da editora Sinfanense (imagem 1) e outra, posterior, da Litografia
Luzitana (sedeada em Vila Nova de Gaia) (imagem 2). Ambas as reproduções são fundamentais
para acompanharmos a evolução arquitectónica do edifício, pois são evidentes
as diferenças entre os dois bilhetes-postais. No postal da Sinfanense
o edifício encontra-se por rebocar, exibindo as alvenarias e o gradeamento circundante
ao terreiro por completar. No segundo bilhete-postal, a estrutura sofreu já
notáveis melhoramentos: o terreiro foi envolvido por uma cerca de pedra e grade e as paredes foram rebocadas e caiadas.
O edifício mais antigo que se conhece dos paços do
concelho em Cinfães, onde funcionaram as as audiências camarárias e judiciais no velho município liberal é
o do actual «Museu Serpa Pinto». Aí estava sedeado o poder local, junto à igreja e voltado à principal artéria que delimitava o pequeno burgo
estruturado entre a encosta do Minhoso e o lugar paroquial.
Em 1891 o presidente da Câmara Dr. Manuel do
Nascimento e o seu sobrinho José do Nascimento Azevedo Coutinho (ambos ligados
à Casa da Adega de Tarouquela) lançaram a obra dos novos paços concelhios,
deslocalizando o centro do poder autárquico (pequeno e inadequado para o novo
município criado em 1855) para o lugar dos Outeirinhos, sítio mais ou menos despovoado, mas com vista desafogada,
a norte do velho burgo do Minhoso. Numa tentativa de expandir o urbanismo e potenciar a
criação de novas vias de comunicação abriu-se uma avenida entre ambos os centros
que completaria a expansão da vila em 1894 – ano em que o edifício
da câmara e a referida avenida estariam praticamente concluídos (nota 1).
Embora nenhum dos dois bilhetes-postais esteja
datado conseguimos pressentir pela comparação entre ambos o avanço desta urbanização. Porém, um elemento curioso acrescentado à mão num dos postais deixa-nos ir um pouco mais, não
apenas na história do edifício mas do próprio concelho. Normalmente as figuras
incluídas acidental ou propositadamente nas fotografias destinadas à
reprodução em bilhetes postais, permanecem no anonimato. Quis o acaso que às
mãos nos viesse parar uma curiosa anotação manuscrita sobre uma personagem
captada pelo fotógrafo que registou o edifício: um rapazito sentado no chão, no
terreiro, a sul dos novos paços concelhios (imagem 3).
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| imagem 3 |
O bilhete postal, circulado ainda em tempo de
Monarquia (como prova o selo de 10 reis com a efígie de D. Carlos aposto no verso) é assinado
por um certo Eduardo, ao que parece um certo oficial empregado da Câmara Municipal pois, como ele mesmo
pergunta e desabafa com o seu interlocutor: «Não tem um aspecto triste
o edifício onde passo a maior parte do meu tempo?». O edifício era de facto
triste e inacabado, mas a movimentação das pessoas ao redor anima um pouco a
composição rematada pela inusitada presença do rapaz sentado no chão e cujo olhar dirige à câmara
fotográfica.
Esse pequeno rapaz era Luís da Silva Pinto Abreu, morador no recreatório do Carmo, na cidade do Porto, como documentam o nome e a
morada indicados no bilhete postal. Ao que parece quis Eduardo surpreender o seu interlocutor e amigo
com uma lembrança da sua infância. Por razões que desconhecemos aquele Luís,
então com 9 ou 10 anos ficou eternizado pela fotografia junto ao recém-construído
edifício dos paços do Concelho de Cinfães. De resto sua identificação pode ajudar-nos a
acrescentar alguns dados à história do edifício e da imagem.
Embora o nome Luís seja vulgar na época e com
certeza banal em Cinfães (estava presente o reinado do antecessor de D. Carlos)
os dois apelidos Pinto Abreu remetem-nos para uma das mais conhecidas famílias
do concelho cinfanense de oitocentos: os proprietários das Casas do Revogato e
da Calçada em Oliveira do Douro. Efectivamente o mentor desta última
residência, hoje transformada em unidade hoteleira, foi António Manuel da SilvaPinto Abreu que, do seu segundo matrimónio com Francisca da Conceição Rangel,
houve três filhos, um deles chamado Luís Gonzaga da Silva Pinto Abreu, nascido
em 1883. Ora Luís Gonzaga teria, em 1893, ano da conclusão do edifício
municipal, 10 anos – a idade aproximada do pequeno rapaz sentado no terreiro.
Está descoberta a identidade da curiosa e atenta figura
imortalizada pela fotografia, inevitavelmente associada à História de Cinfães.
O pequeno Luís Gonzaga cresceu e casou com D. Maria
da Assunção Arnao Taveira Paixão Metello de cujo casamento existe larga prole
em Lisboa e no Porto.


