sexta-feira, 18 de julho de 2014

Luizinho ou de como da estória se faz História



 
imagem 1

Existem, pelo menos, duas edições de bilhetes-postais ilustrados que apresentam o edifício da Câmara Municipal de Cinfães nos primeiros anos da sua existência – uma da editora Sinfanense (imagem 1) e outra, posterior, da Litografia Luzitana (sedeada em Vila Nova de Gaia) (imagem 2). Ambas as reproduções são fundamentais para acompanharmos a evolução arquitectónica do edifício, pois  são evidentes as diferenças entre os dois bilhetes-postais. No postal da Sinfanense o edifício encontra-se por rebocar, exibindo as alvenarias e o gradeamento circundante ao terreiro por completar. No segundo bilhete-postal, a estrutura sofreu já notáveis melhoramentos: o terreiro foi envolvido por uma cerca de pedra e grade e as paredes foram rebocadas e caiadas.

 
imagem 2
O edifício mais antigo que se conhece dos paços do concelho em Cinfães, onde funcionaram as as audiências camarárias e judiciais no velho município liberal é o do actual «Museu Serpa Pinto». Aí estava sedeado o poder local, junto à igreja e voltado à principal artéria que delimitava o pequeno burgo estruturado entre a encosta do Minhoso e o lugar paroquial.
Em 1891 o presidente da Câmara Dr. Manuel do Nascimento e o seu sobrinho José do Nascimento Azevedo Coutinho (ambos ligados à Casa da Adega de Tarouquela) lançaram a obra dos novos paços concelhios, deslocalizando o centro do poder autárquico (pequeno e inadequado para o novo município criado em 1855) para o lugar dos Outeirinhos, sítio mais ou menos despovoado, mas com vista desafogada, a norte do velho burgo do Minhoso. Numa tentativa de expandir o urbanismo e potenciar a criação de novas vias de comunicação abriu-se uma avenida entre ambos os centros que completaria a expansão da vila em 1894 – ano em que o edifício da câmara e a referida avenida estariam praticamente concluídos (nota 1).
Embora nenhum dos dois bilhetes-postais esteja datado conseguimos pressentir pela comparação entre ambos o avanço desta urbanização. Porém, um elemento curioso acrescentado à mão num dos postais deixa-nos ir um pouco mais, não apenas na história do edifício mas do próprio concelho. Normalmente as figuras incluídas acidental ou propositadamente nas fotografias destinadas à reprodução em bilhetes postais, permanecem no anonimato. Quis o acaso que às mãos nos viesse parar uma curiosa anotação manuscrita sobre uma personagem captada pelo fotógrafo que registou o edifício: um rapazito sentado no chão, no terreiro, a sul dos novos paços concelhios (imagem 3).

imagem 3

 O bilhete postal, circulado ainda em tempo de Monarquia (como prova o selo de 10 reis com a efígie de D. Carlos aposto no verso) é assinado por um certo Eduardo, ao que parece um certo oficial empregado da Câmara Municipal pois, como ele mesmo pergunta e desabafa com o seu interlocutor: «Não tem um aspecto triste o edifício onde passo a maior parte do meu tempo?». O edifício era de facto triste e inacabado, mas a movimentação das pessoas ao redor anima um pouco a composição rematada pela inusitada presença do rapaz sentado no chão e cujo olhar dirige à câmara fotográfica.
Esse pequeno rapaz era Luís da Silva Pinto Abreu, morador no recreatório do Carmo, na cidade do Porto, como documentam o nome e a morada indicados no bilhete postal. Ao que parece quis Eduardo surpreender o seu interlocutor e amigo com uma lembrança da sua infância. Por razões que desconhecemos aquele Luís, então com 9 ou 10 anos ficou eternizado pela fotografia junto ao recém-construído edifício dos paços do Concelho de Cinfães. De resto sua identificação pode ajudar-nos a acrescentar alguns dados à história do edifício e da imagem.
Embora o nome Luís seja vulgar na época e com certeza banal em Cinfães (estava presente o reinado do antecessor de D. Carlos) os dois apelidos Pinto Abreu remetem-nos para uma das mais conhecidas famílias do concelho cinfanense de oitocentos: os proprietários das Casas do Revogato e da Calçada em Oliveira do Douro. Efectivamente o mentor desta última residência, hoje transformada em unidade hoteleira, foi António Manuel da SilvaPinto Abreu que, do seu segundo matrimónio com Francisca da Conceição Rangel, houve três filhos, um deles chamado Luís Gonzaga da Silva Pinto Abreu, nascido em 1883. Ora Luís Gonzaga teria, em 1893, ano da conclusão do edifício municipal, 10 anos – a idade aproximada do pequeno rapaz sentado no terreiro.
Está descoberta a identidade da curiosa e atenta figura imortalizada pela fotografia, inevitavelmente associada à História de Cinfães.
O pequeno Luís Gonzaga cresceu e casou com D. Maria da Assunção Arnao Taveira Paixão Metello de cujo casamento existe larga prole em Lisboa e no Porto.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Quem eram e quanto ganhavam os funcionário da administração local do concelho de Sanfins no início da segunda metade do século XIX?



O objetivo deste pequeno texto é o de descrever as conclusões da análise da situação dos funcionários da câmara municipal e da administração do concelho da extinta unidade administrativa de Sanfins no início da primeira metade do século XIX. O concelho de Sanfins teve existência desde o início do século XVI e é extinto e integrado no concelho de Cinfães no contexto da reforma administrativa de 1855.
A gestão municipal foi legalmente regulada de forma mais sistemática no Código Administrativo de 1842, edifício legislativo de grande durabilidade no séc. XIX, tendo sido revogado apenas em 1879 (MANIQUE, 1989). Este é um código de sentido centralizador, no qual o poder, nos diversos níveis regionais da administração, é sobretudo exercido por delegados da administração central. Ao nível local, a gestão do território é exercida pelo Administrador do Concelho, de nomeação régia e que logo a partir de 1843 pode não residir no concelho, e pela Câmara Municipal, dirigida pelo seu presidente, o vereador mais votado em eleições que se realizam de dois em dois anos. 

Paulo Jorge Leitão

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