domingo, 29 de dezembro de 2013

A Revolução chega à Gralheira (1976)



No seguimento da revolução de 25 de Abril de 1974 lançaram-se pelo país várias campanhas ideológicas. Sobretudo pelo interior português (onde a resistência à mudança era maior, o controlo da Igreja Católica mais incisivo e onde o analfabetismo e a iliteracia grassavam), o MFA – Movimento das Forças Armadas – investiu ferozmente no desenvolvimento de actividades mobilizadores da população, opondo-as que considerava o avanço neo-fascista, constituído pelos partidos da social-democracia, como o PSD e o CDS.
Numa destas campanhas, no Inverno de 1976, um dos activistas do MFA António Modesto Navarro passou pela Gralheira e deixou o registo de uma série de entrevistas a habitantes locais. À parte o carácter político e ideológico das perguntas o relato dá-nos uma imagem lago diversa da Gralheira actual, não obstante certas características culturais e de isolamento que ainda marcam aquela comunidade.


Para complemento de leitura: 

sábado, 30 de novembro de 2013

Cinfães e a linha do Douro



A estação de Mosteirô | fotografia de Emílio Biel | Museu de Lamego/Coleção da Família Mascarenhas Gaivão | 1887




Foi pela carta de lei de 2 de Julho de 1867 que se lançou a construção de duas linhas férreas a norte do Douro, ambas iniciadas na cidade do Porto: uma até Braga e Viana do Castelo e «outra pello valle do Soua e proximidades de Penafiel até ao Pinhão».
Em 1875 era inaugurado o troço que uniu a Invicta cidade a Penafiel e em 1879 a ligação à Régua. Neste ano passou o primeiro comboio à vista de Cinfães. Efectivamente a linha construída através do vale do Sousa, como especificado na carta régia, só faria jus ao seu nome por alturas da Pala e Porto Manso, no concelho de Baião, quando a linha pssava a uma cota inferior, próximo ao leito do Douro. Por razões que fará notar Alberto Pimentel em 1884 na sua obra Hospital de Cinfães e que podemos verificar na fotografia 1, o lugar de Mosteirô fora ferozmente arrancado à natureza bravia do granito e,  ao invés de servir directamente as comunidades fluvais de Porto Manso do lado de Baião e Porto Antigo, do lado de Cinfães, alçava-se isolado num ponto da encosta para onde nem havia estrada.

domingo, 27 de outubro de 2013

Dicionário biográfico e histórico de Cinfães: Alberto Pimentel (1849-1925)

ALBERTO PIMENTEL
1849, Porto – Lisboa, 1925
Escritor, jornalista e historiador


Ao pé do eremitério n'aquella saudosa aldeia que tenho visitado tantas vezes, ha um cruzeiro rustico, vestido de heras, onde as raparigas do campo vão pendurar, no dia da romaria, uma corôa de flores silvestre como preito singelo de corações defesos á corrupção das cidades. 
Julho de 1869
Alberto Pimentel, "Seara em flor"

ilustração 1


Alberto Pimentel, de seu nome completo Alberto Augusto de Almeida Pimentel, foi um dos mais fecundos escritores portugueses (ilustração 1). À semelhança do seu principal biografado e ídolo - Camilo Castelo Branco – Alberto Pimentel produziu abundantemente ao longo da sua vida deixando, entre crónicas, romances e poesia, quase duas centenas de obras.

Nascido na freguesia de Cedofeita do Porto, filho do médico Fortunato Augusto Pimentel, conhecido apoiante de D. Miguel, Alberto construiu um percurso profissional que se destaca do maioria dos homens da sua época os quais, para atingirem os píncaros do poder seguiam estudos superiores, sendo Coimbra e, normalmente, o curso de Direito a alavanca e o impulso para a estreia nos corredores de São Bento.

ilustração 2
Alberto Pimentel foi praticamente um autodidacta: começou pelo jornalismo, no Jornal do Porto, onde publicou em folhetins o seu primeiro romance Testamento de Sangue (ed. 1872) . Esta novela sobre amores desavindos desenrola-se numa região que era querida ao autor: o Douro. Efectivamente, sendo o seu pai proprietário de uma quinta na freguesia de Souselo, hoje do concelho de Cinfães, ali viveu o autor parte da sua infância. As deslocações frequentes à quinta de Vila Verde (fotografia 2) familiarizam-no com a paisagem e as histórias locais que reproduzirá em alguns dos seus mais importantes romances ou colectâneas de contos, como o já referido Testamento de Sangue, Terra prometida (ed. 1918) , entre outros.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

As eleições em Cinfães no ano de 1870

Em clima de eleições autárquicas não podiamos deixar passar um interessante e raro testemunho sobre a condução do processo eleitoral municipalista, em Cinfães, no século XIX. Trata-se de um excerto epistolográfico extraído do espólio documental da casa do Revogato, em Oliveira do Douro que alude às estratégias partidárias usadas na campanha para o círculo eleitoral de Cinfães no ano de 1870.
Na carta, dirigida a Manuel Pinto de Vasconcelos, morador na casa da Castanheira, daquela freguesia, pode ler-se as seguintes considerações:

A proxima luta elleitoral, e a circunstancia de afinidade e laços com que a  [...] este Concêlho, obrigam-me a ir desde já solicitar as bôas relações de V. Exa e a buscar em suas muitas luzes [?] e esclarecida competencia ellementos para por minha parte em humas veredas a precorrer, e para dispôr trabalhos que sem offensa da lei possam dar o resultado que ambos desejamos.
Permita V. Exa que eu interrogue, e por meu termo responderei:
Quem pretende por ahi?
Quem com muita [?] probabilidade?
Pode ter ahi partido
Abade [...]? - Em que força?
E Figueiredos, tem ahi relações?
Investir em amigas ? -
Qual será a atitude que tomam estes influentes? - terão pretenções para si, ou para quem? - E Guedes Teixeira? - E Pereira Dias?
Aguardo resposta de V. exa o mais breve possivel
(...) [saudação]

[AHCR, doc. 0623, 1870, Setembro, 26]

Do teor pouco elaborado do ofício, não assinado e cuja caligrafia dificulta a leitura, podemos entrever tratar-se de um pedido de ajuda quanto a apoios a obter na candidatura de outrém. Entre o leque de estratégias a considerar pelo político redactor, salienta-se o favorecimento partidário, o apoio de certo abade local  e até o recurso ao lenocínio como forma de aliciar certas figuras influentes locais.
O doutor Manuel Pinto de Vasconcelos foi um político liberal, presidente da câmara de Cinfães na década de 60 do século XIX.

sábado, 20 de julho de 2013

A Torre da Coelha


No Nobiliário das Gerações de Entre-Douro-e-Minho, do genealogista Manuel de Sousa da Silva escreve-se o seguinte: 

Hé o solar da geração dos Coelhos a quinta que chamão da Coelha em a freguesia de São João de Sinfães, em a qual esteve hua torre, de que se vêem os alicerces em hua cumieira sobre o rio Douro. Consta da Inquirição de el-Rey D. Afonso 3.º que D. Egas Lourenço pessuia por honra os lugares de Cidadela, Souto Painçaes e Teixeirô; em o meio deles está a dita quinta e torre da Coelha sem mais coisa algua, pelo que parece que esta foi a casa do dito D. Egas Lourenço e que lhe sucedeo nela seu filho Soeiro Viegas Coelho, que tomou o apelido dela e ficou a seus descendentes, devia de ficar a seo filho Pedro Soares Coelho, que não teve geração e, por essa razão passou ao Mosteiro de Santa Clara de Entre-Ambos-os-Rios […] [1] 

Na posse destes elementos fomos procurar os vestígios da torre da Coelha. Mesmo que Manuel de Sousa da Silva não nos fornecesse elementos tão úteis, como os que situavam a torre nas proximidades de Cidadelhe, Souto, Painsais e Teixeirô, o facto de o topónimo Coelha ainda persistir seria suficiente para, com exactidão, encontrar tão extraordinário lugar. Efectivamente referimo-nos do solar de uma das mais importantes famílias portuguesas da Idade Média, onde poderá ter vivido João Soares Coelho, trineto de Egas Moniz (dito o Aio), trovador e homem influente da corte de Afonso III. Este facto tem sido ignorado pela História local, de tal forma que nem a Arqueologia logrou registar este arqueossítio nos estudos arqueológicos concelhios.





Contudo, num proeminente outeiro à vista do Douro, a norte da aldeia de Painsais, é possível encontrar o sítio de implantação da torre da Coelha, apenas recordada por uma placa toponímica à beira da estrada municipal que liga a EN 222 ao lugar do Casal. Um caminho empedrado conduz ao morro onde subsistem interessantes exemplares de moradias setecentistas e algumas ruínas que, associadas a notáveis afloramentos graníticos podem indicar o exacto local onde esteve edificada tão importante residência senhorial. As fotografias seguintes são esclarecedoras do local e dos vestígios remanescentes (clique para ampliar):

Vista sobre o outeiro da Coelha

Alguns vestígios de edificações no outeiro

Vista do outeiro da Coelha sobre o Douro




Reaproveitar estas ruínas, tendo em consideração o seu valor patrimonial e histórico seria, com certeza, uma mais valia para a região, tão depauperada em termos culturais.


Notas
[1] Silva, Manuel Sousa da- Nobiliário das Gerações de Entre-Douro-e-Minho. [s.l.]: Carvalhos de Basto, 2000, vol. 1, p. 301.
 

domingo, 14 de julho de 2013

A ponte românica do Cabrum



Ponte do Cabrum; reprodução digital de BPI (não circulado), finais do século XIX. Reprodução proibida.

 Entre os actuais concelhos de Cinfães e Resende ergue-se a robusta ponte de Cabrum, quase na confluência deste ribeiro com o rio Douro.
Com a abertura da estrada nacional 222 a velha travessia, implantada a uma cota de 75 metros de altitude, foi substituída por uma nova ponte, a montante, desviando o fluxo de trânsito de veículos entretanto dirigido para uma cota superior. Como as velhas calçadas já não servissem para ligar as comunidades automobilizadas, a travessia medieval deixou de ser utilizada, sendo hoje praticamente desconhecida, longe da vista de quem circula pela EN 222.
A ponte de Cabrum, uma das 4 pontes em pedra já existentes sobre este rio no século XVIII, aproveitou afloramentos de ambas as margens para alçar um arco de volta levemente apontado sobre o qual assenta um tabuleiro em cavalete. As estreitas aduelas do arco encontram-se profusamente marcadas com as conhecidas siglas ou marcas, ditas de canteiro (ver imagens abaixo).
Não tem contrafortes, nem talhamares (certamente porque a abertura do vão permite o escoamento de correntes mais fortes), mas na margem direita foi aberto um túnel destinado a aliviar a pressão de cheias correntes excêntricas e, talvez, a escoar regos ou canadas paralelos ao curso do ribeiro.
Trata-se de um dos exemplares melhor conservados a nível regional de uma ponte medieval, seguindo os modelos construtivos românicos, podendo situar-se a sua execução em finais do século XIV ou primeiros decénios do século XV.
Não é imóvel classificado, nem integra qualquer programa de divulgação ou protecção.

Speech by ReadSpeaker