terça-feira, 6 de março de 2012

Souselo em 1870.

Este livro é verdadeiramente aldeão. Nasceu duma saudade, - da saudade dos ocasos e das alvoradas duma aldeia e anima-se duma esperança, - de ser lido nos alegres serões daquelas serras, que o inspiraram. Costumei-me a viver no campo desde pequeno. Sozello, uma aldeola que se não encontra, talvez, na carta de Portugal, era tudo o que podia haver de suavemente delicioso para a minha infância, mea regna, como diria qualquer estudantinho de latinidade.
Sol fóra, quando as aves davam rebate nas ramagens do pomar, levantava-me para ir ter com os camponeses meus amigos e mais madrugadores do que eu. Já os encontrava na safra alegres e infatigáveis. Conversávamos todos os dias. Eu escutava-os, sentado a vê-los trabalhar e eles, sempre cuidadosos na tarefa, contavam casos de bruxas, histórias de amores e tradições do sítio.
Admirava-me eu de que nenhum dos ceifeiros aproveitasse uma aberta para se queixar da sorte que os obrigava ao rude trabalho (…)
(…) os camponeses do sítio, - qual rapazinho era eu.
Vão passados quatorze anos depois disto e durante tão longo período tenho continuado a visitar a aldeia de longe a longe.
Não encontro diferença: a mesma serenidade e o mesmo remanso! Muitos dos camponeses do sítio, que eram velhos há quatorze anos, morreram já. Escuso de perguntar por um que falte; é olhar para o cemitério e vêr uma cruz de mais…
De resto está tudo como era: Os mesmos tectos colmados, o mesmo presbitério voltado ao ocidente e, em oposição ao presbitério, a mesma casa de escola, pequena como qualquer colmeia, a olhar para o levante, que é de onde aparecem os astros… Sempre se me afigurou que devera ser esta a verdadeira posição das escolas. E, de manhã ou de tarde, os mesmos murmúrios nas ramagens, a mesma festa no ar e a mesma tranquilidade no coração!

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