sexta-feira, 15 de abril de 2011

Dicionário Histórico e Biográfico de Cinfães: Lima Machado Pereira.


Está patente, até dia 24 deste mês, no Museu Nacional Soares dos Reis (Porto), uma exposição sobre o mestre pintor Artur Loureiro que marcou o panorama artístico português e australiano de finais do século XIX e primeira vintena do século XX. A mostra integra um espólio variado, grande parte dele inédito, sobre a sua fulgurante, extraordinária e eclética carreira que o levou do Porto à Europa e à Austrália, onde ainda hoje é tido como nome maior da pintura e do movimento arts & crafts. Seu amigo e discípulo foi Lima Machado Pereira, que morou largos anos em Boassas, Cinfães.

António Joaquim Fernandes de Lima (que mais tarde adoptou o nome artístico de Lima Machado Pereira), nasceu na freguesia de Cedofeita, Porto, a 30-12-1877 e faleceu na casa do Oratório, lugar de Lodeiro, freguesia de Oliveira do Douro, a 25-12-1945. Nascido numa família de comerciantes dedicou-se à pintura já bastante tardiamente, sendo seu mestre e amigo, Artur Loureiro quando este vivia já uma fase avançada da sua carreira, como artista consagrado - entretanto regressado da Austrália (1901) para onde fora trabalhar anos antes.
Lima Machado Pereira (assinando já com os apelidos do seu mecenas e cunhado, o Visconde de Machado Pereira, que contribuiu para a sua sustentação em Paris) frequentou as melhores escolas europeias da época, e bebeu na capital francesa todas as influências que esperavam beber os bolseiros ou artistas livres que lá se dirigiam. Porém, a Guerra de 1914-18 obrigou-o a deixar os estudos académicos e a regressar ao Porto, onde prosseguiu a sua aprendizagem na Escola de Belas Artes, sendo então aluno de Marques de Oliveira e Teixeira Lopes.
Escolheu Cinfães para instalar o seu atelier e o seu eremitério.

Na terra que o seu coração e o seu pensamento elegera, lá em cima, nas serranias da proximidade do Douro, ele criara o seu último e verdadeiro ninho. No ponto mais elevado duma colina, entre pinheiros da sua particular simpatia, afastado do mundo, mandou construir uma casa, com espaçosa oficina, onde realizou a maior e melhor parte da sua obra magnífica. § A Casa do Oratório, como passou a chamar-se, era na realidade um encantador retiro de devoção artística. Toda rodeada de árvores a cuja sombra, nas calmosas tardes de verão, o Pintor se acolhia para as estudar e nas telas inteligentemente, amorosamente traduzir, Lima Machado Pereira de tal modo àquele ambiente se afeiçoara que só por absoluta necessidade uma ou outra vez o abandonara. (1)

Foi nesta casa que o pintor faleceu no dia de Natal de 1945 e de onde colheu os motivos, as paisagens e os tipos que incluiu na sua notável obra. Os montes bravios, os pinheiros (tão difíceis de reproduzir nas suas agulhas e padrões irregulares) (2), cenas campestres e alguns modelos das aldeias vizinhas de Fundoais e Boassas, constituíram alguns dos tópicos que, infelizmente, jazem praticamente desconhecidos. Ao seu talento como pintor juntou, também, a capacidade para converter em tridimensionalidade o que registava em tela. Executou inúmeras esculturas, nomeadamente a que imortalizou o filho dilecto de Cinfães, Serpa Pinto, inaugurada em 1946, no principal jardim da vila (3). A sua obra, integral ou fragmentada, depositada na casa do Oratório, tem aparecido à venda em vários leilões, durante os últimos 10 anos, e a sua dispersão constituirá uma perda irreparável a todos os níveis: local, pois as suas pinturas e esculturas são o documento de uma época e de uma região e nacional, já que se eclipsa um testemunho da vitalidade artística do realismo expressivo dos primeiros anos do século XX.


Notas:
(1) LOPES, Joaquim - Actualidade artística portuense. Ocidente, n.ºs 105-108 (1947) 34 e 35.
(2) Foi com a obra Pinheiros velhos, pinheiros novos que ele impressionou os críticos e causou polémica. Este quadro integrou o espólio da Casa Museu Fernando de Castro e está hoje nas reservas do Museu Nacional Soares dos Reis
(3) Sobre a inauguração deste busto, ver o artigo de VENTURA, Jorge - Aspectos de uma homenagem a Serpa Pinto. Terras de Serpa Pinto, n.º 7 (1997), 103-121. A ligação entre Carlota de Serpa Pinto e o pintor Lima Machado Pereira derivava da proximidade entre as propriedades de ambos. Para chegar à Quinta do Paço, proveniente de Mosteirô (a estação ferroviária que servia Cinfães), era necessário passar à porta da casa do Oratório. Ambas as habitações foram, nos anos 20, 30 e 40, lugares de convívio e tertúlia, como esclarece uma crónica do crítico Manoel de Sousa Pinto, em 1922: "Fernandes Lima - Lima Machado Pereira na arte - vive quasi todo o ano em Fundoais, lá para as bandas acidentadas da Gralheira, visinho e conviva habitual do solar da gentilissima Clarinha - essa deliciosa Quinta do Paço, rica dos variados panoramas da Beira-Douro e fértil em horas dum encanto raro", PINTO, Manoel de Sousa - As exposições. A Ilustração Portugueza, n.º 840 (1922), p. 281.

Espólio do Pintor Lima Machado Pereira. Catálogo de "Leilão de Pintura e Escultura Portuguesa". Lisboa: Palácio do Correio Velho, 2002

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Dicionário Histórico e Biográfico de Cinfães: Augusto Brochado

Na foto, um aspecto de Ervilhais, lugar na extinta freguesia de Santo Erício de Nespereira, 
terra da família paterna de Augusto Brochado, (c) NR (2011).



Augusto Pinto Brochado
Valbom, São Cristóvão de Nogueira, 1862-1885.
Escritor e pensador.

Augusto Brochado nasceu a 1 de Outubro de 1862, em Valbom, na freguesia de São Cristóvão de Nogueira e faleceu, no mesmo lugar, 23 anos depois, a 31 de Dezembro de 1885. No entanto, apesar de uma curta existência, o seu nome marcou uma geração e poderia ter integrado o conjunto de pensadores que interveio nos destinos do Portugal de finais de oitocentos se a morte o não tivesse arrebatado quando completava o 4.º ano do curso de Direito.

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