quinta-feira, 24 de março de 2011

Bibliografia cinfanense #10: Sinfaníadas.

Sinfaniadas_capa

 Sinfaníadas (capa)

Sinfaníadas é o título de um livro de poesias da autoria de João Baptista Pinto Saraiva (1866-1948) com ilustrações de Alberto de Sousa (1880-1961). Foi editado em 1938 pelo autor (sendo depositária a Livraria Bertrand, em Lisboa) e compõe-se de um proémio e quatro cantos formados por poemas decassilábicos, inspirados assim nas obras clássicas e renascentistas, fazendo, assim, jus à escola parnasiana a que pertencia João Saraiva. O livro abre com uma dedicatória ao Conselheiro Fernando Martins de Carvalho (1872-1947), uma das mais respeitadas figuras do Direito em Portugal durante o Estado Novo, sobre cuja família e casa de veraneio (a quinta de Santa Bárbara, em Cinfães) a obra disserta, intercalando sátiras aos costumes da época e à política, com notas mitológicas e laudações às gentes da terra e à fertilidade do território -«amena região onde em favor os deuses se esmeraram» (Proémio, II).
Durante os anos 30 e 40, primeiros decénios da Segunda República, Cinfães recebeu redobrada atenção por parte de algumas famílias de elite que nela possuíam solar, agora tornado habitação sazonal. Período em que a ideia de ruralidade consagrava o intrínseco espírito nacional, os chalets do Paço, em Fundoais, as casas da Castanheira e da Calçada em Oliveira do Douro, ou a quinta de Santa Bárbara junto à pequena vila de Cinfães, tornaram-se refúgio dos novos senhores do poder, ou a ele ligados, onde acorriam ilustres visitantes do regime, provenientes de Lisboa, de Coimbra ou do Porto, mau grado em redor daqueles solarengos redutos literários e tertulianos, grassar apenas a incultura temporal e espiritual. Foi a época do folclorismo, do pitoresco, do popular, por oposição às elites letradas que educavam o "povo" pelos trajes garridos, as cantas e as danças.
O livro descreve, aliás, esse clima tertuliano, guardado pelo «asilo de Santa Bárbara», ali transposto desde os botequins de Coimbra, decerto frequentados por ambos, poeta e conselheiro, a quem unia, ainda, o facto terem prestado serviços, quer à Monarquia, quer a República.
Embora seja uma obra do tipo laudatório, redigido como homenagem a um mecenas, homem das letras, da cultura e da jurisprudência, Sinfaníadas é uma valiosa obra poética e gráfica, repleta de pequenas e cuidadas aguarelas de Alberto de Sousa, um dos maiores e melhores ilustradores do seu tempo. Desde a imagem da capa, que representa o belo portão da quinta na vila de Cinfães, passando pelos barcos em Souto do Rio (p. 15), até à igreja de Escamarão, ou o canastro estampado na contra-capa (ícones e "bucolismos estado-novistas"), este opúsculo é um excelente documento sobre a forma como um certo conjunto de indivíduos via, fosse de Lisboa, ou de dentro dos muros de uma aristocrática quinta, o mundo rural português dos primeiros anos de uma longa ditadura.

SARAIVA, João, texto / SOUSA, Alberto de, ilust. - Sinfaníadas. Lisboa: [edição de autor], 1938.

sábado, 19 de março de 2011

Breve história da ermida de São Pedro do Campo


S. Pedro Primeiro Chefe da Igreja / ROGAI POR NÓS / Tendais - Cinfães; 31,5x21,9 cm, processo litográfico sobre papel c. 1980?.

«Num extenso planalto deserto e inóspito, onde aqui e acolá crescem tojos e fetos surge surpreendente e em dias de nevoeiro como que nas próprias nuvens a Capela de S. Pedro do Campo. § Junto à capela encontramos pedras antigas, mamoas que eram locais sagrados e tumulares de sociedades e cultos pré-históricos. § Sabemos que a memória do sagrado perdura e se converte, sabemos que Pedro em aramaico significa "pedra", "rocha". § Temos pois aqui, neste entorno, em redor da capela, um espaço sagrado que perdurou no tempo e que hoje é anualmente motivo de romaria. § Da origem da capela não temos registos mas sabemos que no início do século XVIII já aqui, por onde passava uma estrada medieval, se realizava a feira da freguesia de Tendais, e é verosímil que nessa altura a capela já existisse. § Devido à pureza dos seus ares serviu este local também para tratar a tuberculose, sendo que a casa junto à capela, construção do século XIX pode ter servido pata abrigo de doentes ou de passantes ocasionais, para além do apoio do culto. § No vento sopram muitas histórias por este campo, das gentes que o percorreram que aqui enterraram os seus mortos, adoraram os seus deuses, fizeram e desfizeram os seus negócios e onde até hoje S. Pedro, no dia 29 de Junho, é celebrado.»

Este texto pode ler-se num expositor colocado um pouco abaixo da ermida de São Pedro do Campo, na freguesia de Tendais, concelho de Cinfães. Como tem sido apanágio, de Cinfães e de outros municípios do país, a promoção turística é preparada através da colagem de chavões recolhidos em obras de publicistas e monógrafos locais pouco preparados para a interpretação de documentos e para análise histórica. Em vez de um trabalho criterioso de inventário e estudo do património por especialistas (Historiadores, Arqueólogos, Antropólogos), assumem-se textos não académicos e crónicas mais ou menos pessoais, como material devidamente fundamentado. O resultado é este: muitos adjectivos, misturas de conceitos, suposições e considerações supérfluas, com base em leituras “à la minute” que reproduzem frases ou ridículas ou ininteligíveis. Não perderemos muito tempo a dissecar as expressões “pedras antigas”, “locais sagrados e tumulares”, nem sequer as asserções sobre os “bons ares” do local e o possível sanatório que existiria no Campo, para tratamento da tuberculose que, de tão estapafúrdias, não merecem qualquer comentário. Tentaremos abordar, de forma sucinta (até porque não abundam as fontes históricas) e clara, a eclosão e a evolução do culto a São Pedro, no sítio do Campo, planalto hoje marcado pela disseminação incontrolável de aerogeradores eólicos, mas ainda um dos locais de destino (mais recreativo e menos religioso) de muitos cinfanenses e de outros visitantes.

 HISTÓRIA DA ERMIDA DE SÃO PEDRO DO CAMPO

sexta-feira, 18 de março de 2011

Bibliografia cinfanense #9


MELO, Teodoro, frei / transc. de REIS, José António - Textual genealogico de cujos titulos se provam a Arvore dos Morgados de Velludo e Collegio da Baeta [1731]. Porto: [edição de autor], 2010, ISBN 989-20-2227.

Frei Teodoro de Melo, um Religioso do Convento de Cristo de Tomar natural do lugar de Enxertado, concelho de Resende, foi o autor de alguns trabalhos sobre a família e linhagem dos Morgados de Velude ou Veludo. Este vínculo, que recebeu o título de um lugar ainda hoje existente na freguesia de Cinfães foi criado em 1388, por Vasco Esteves de Matos e traduzia-se, no século XVIII (altura em que Frei Teodoro nasceu e viveu), numa poderosa instituição familiar, que superintendia vários direitos  e propriedades no Douro, na Beira e em Coimbra. 
O primeiro morgado, Martim Vasques de Matos viveu, como o pai, por terras cinfanenses e comprometeu-se, pelas cláusulas da escritura de instituição vincular, a zelar pela fábrica e missas impostas na capela de Santo António, adossada à igreja matriz de São João Baptista de Cinfães, - capela essa que ainda hoje existe, embora se trate de uma reconstrução setecentista. Como tal, apesar da uma política matrimonial que os afastou de Cinfães, os Malheiros de Melo (apelidos que tomaram os descendentes dos morgados) tinham neste concelho os seus lugares principais, fosse no pequeno lugarejo de Velude, fosse no panteão da igreja matriz, onde ainda hoje se exibem os vetustos mausoléus dos instituidores. Aqui paravam nas suas deslocações, aqui vinham tratar dos seus negócios e aqui casavam e, como tal, o território era-lhes familiar e com certeza querido. Esta proximidade ditava que os investimentos familiares não fossem apenas privados, num tempo e num espaço em que o planeamento urbanístico quase não existiam, não sendo por isso de admirar que, cerca do ano de 1693, o morgado Manuel Carneiro de Melo, pai de Frei Teodoro, tenha pago a fábrica da nova Ponte das Pias, "instando pela utilidade pública". Não era apenas, uma questão de utilidade pública, era, como no caso da construção da Ponte de Covelas, mais ou menos contemporânea da das pias, uma forma de afirmação nobiliárquica. Mas o investimento em pontes e caminhos, acto comum na nobreza da época, não era meramente simbólico, revertia a favor das linhagens num acesso mais célere a pessoas e bens do seu interesse.
Das obras produzidas por Frei Teodoro de Melo, chegaram aos nossos dias dois códices depositados nos Reservados da Biblioteca Pública Municipal do Porto. O primeiro, por nós já referido: Textual Genealógico de cujos titulos se provam a Arvore de Morgados de Velludo e Colegio da Baeta em tudo, ou em parte, e as mais que se seguirem [1731] (BPMP, Reservados, doc. 701) e um outro, colossal trabalho genealógico sobre os mesmos Morgados de Veludo, intitulado Nobiliário Particular e Prova das Memórias da Casa dos Morgados de Veludo e Colégio da Baeta com as verdadeiras genealogias das Família com que prendem e que dela se derivam até o ano de 1733, (BPMP, Reservados, Doc. 229). Esta segunda obra fazia parte de um tratado que versava igualmente sobre as condições da terra e a origem da nobreza, num exercício comum para a época. Embora alvo de uma incipiente análise histórica e de uma crítica pouco objectiva, pontuada por alguns anacronismos, um apócrafo deste tratado foi  editado pela Câmara Municipal de Resende, sob o estudo do padre Joaquim Correia Duarte ( – Resende no século XVIII. Lamego: C.M.R., 2004).
Mais recentemente veio a lume a edição transcrita  do Textual Genealógico, cuja capa reproduzimos acima. Da autoria do genealogista José António Reis, a edição daquele códice permite lançar luz sobre um vasto leque de anotações potencialmente riquíssimas em termos historiográficos, dado que, ao contrário da maioria dos trabalhos genealógicos da época (de teor mais ou menos laudatório), o Textual reproduz uma súmula de fontes primárias utilizada por Frei Teodoro de Melo para as suas árvores e descendências. Em 563 pontos, o religioso de Tomar exara dados colhidos em escrituras de dote, instituições vinculares, testamentos, tombos, etc, indicando a data, local de produção e arquivamento e sua autoria, frequentemente tabeliães cujas notas se perderam.
É por isso, de saudar a publicação de tão valioso documento para a História Local e Regional, nomeadamente para que seja possível aprofundar o conhecimento do passado de indivíduos ligados a Cinfães e à evolução deste território.
Prós: a edição de fontes constitui, sempre, uma mais-valia para a historiografia;
Contras: a inexistência de índices toponímicos e onomásticos, que dificulta a busca de denominações.
Bibliografia adicional sobre os Morgados de Velude e frei Teodoro:

DUARTE, Joaquim Correia – Resende no século XVIII. Lamego: Câmara Municipal de Resende, 2004;
GAIO, Manuel José da Costa Felgueiras - Nobiliário de famílias de Portugal. Braga: Carvalhos de Basto, 1989– 1990 (título de MATOS, § N2 e PINTOS, § 187 e seguintes).
MENDES, Nuno Miguel de Resende Jorge - Retratos de Terra e de Família. Porto: Câmara Municipal de Cinfães, 1997 (onde, a pp.85 a 91, o genealogista José Cabral Pinto de Rezende disserta sobre um ramo ilegítimo desta família, que subsiste na freguesia de Tendais);
PINTO, Joaquim Caetano - Resende nas letras. Autores, obras, antologia. Braga: [edição de autor], 1985.;
REZENDE, José Cabral Pinto de e RESENDE, Miguel Pinto de - Famílias nobres nos concelhos de Cinfães, Ferreiros e Tendais, nos séculos XVI, XVII e XVIII. Braga: [Carvalhos de Basto], 1988.

domingo, 6 de março de 2011

A República em Cinfães: uma estória mal contada.

(C) Câmara Municipal de Cinfães

A Câmara Municipal de Cinfães lançou, recentemente ,uma Agenda Escolar para 2011 dedicada ao tema da "República", aludindo, embora tarde, aos Centenários comemorados em 2010. Além de informações básicas e algumas trivialidades, o executor desta obra, incluiu uma listagem (de resto incompleta) dos Presidentes da Câmara desde 1855 até hoje, e uma "história" da República em Cinfães. A leitura deste texto, que podia ser proveitosa para os alunos do concelho, alguns deles ávidos por conhecerem a evolução da sua terra, resulta em mais uma triste demonstração de incultura.
Nesse sentido, e utilizando este espaço, tentarei minorar o impacto que tal texto poderá ter na comunidade docente e discente, efectuando algumas notas e comentários ao mesmo. A itálico segue o texto original, a negrito, intercaladas, as minhas anotações:

(C) Câmara Municipal de Cinfães


A partir da reforma implementada por Costa Cabral, em 1842, o concelho de Cinfães obteve os actuais contornos geográficos e administrativos [mentira: a primeira alteração dos limites municipais do velho concelho medieval deu-se em 1836, com o Código Administrativo de Silva Passos] mas só a 24 de Outubro de 1855 é que foi promulgado o decreto-lei que formalizou o decreto-lei que formalizou a constituição do convo concelho. E assim surge, em Dezembro daquele ano, a primeira câmara eleita, do actual concelho. No entanto, não foi pacífica a situação nos anos que se seguiram. [não? e qual a razão? quais os intervenientes? as circunstâncias de tal situação?] Já antes do 5 de Outubro de 1910, Pedro Pinto Miranda, tentou organizar uma força republicana no concelho e consegui a aderência [aderência é para os autocolantes, adesão é para as pessoas] de elementos valorosos [e quem foram esses elementos, e valorosos porquê?]. E, após, a revolução de 5 de Outubro, proclamou a República nos Paços do concelho e indicou ao governador civil os nomes do administrador e dos cidadãos que deviam constituir a comissão administrativa republicana do município [de resto, uma obrigação imposta a todos os municípios pelo novo regime]. Mas os monárquicos continuaram a assediar (escusado o termo) e ocuparam mesmo os cargos administrativos [o republicanismo, em Cinfães, município rural, profundamente avesso ao anti-clericalismo, por muitos "adesivos" (1) que tivesse, era um concelho essencialmente fiel ao regime monárquico deposto, por isso os cargos administrativos acabavam por cair na mão de monárquicos ou ex-monárquicos]. Assim foi em 24 de Dezembro de 1917 quando o Padre José Vieira Gonçalves de Freitas e o seu bando monárquico [aqui não se devia aplicar a expressão pejorativa "bando", dado que se trata de pessoas e não de aves] tomou posse como administrador. A instabilidade do governo de então, levou a que os monárquicos constinuassem "a sua guerrilha; ao ponto de dinamitarem a ponte de Mosteiro [leia-se Mosteirô], para bloquearem a entrada.
[Nova mentira e nova inexactidão: em primeiro lugar não foi a instabilidade do governo de então que levou ao suposto assalto do Padre José Vieira Gonçalves de Freitas; a oportunidade do Sidonismo abriu a porta a muitos ex-monárquicos ou sidonistas para para combater o Partido Democrático que desde 1911 governava o país, apesar da Constituição republicana permitir o multi-partidarismo; em segundo lugar não havia um clima de guerrilha em Cinfães, entre monárquicos e republicanos, como o texto, insidiosamente, faz crer; existiu, isso sim, em Janeiro de 1919, uma adesão muito expressiva, aliás, à monarquia do Norte, ou seja à restauração do Reino de Portugal, com sede no Porto, a que se juntaram os municípios do Norte do país; Cinfães também aderiu na pessoa do Padre José de Freitas. A dinamitação da Ponte de Mosteirô surge na sequência deste movimento da Monarquia do Norte, mas ainda hoje não se sabe quem levou a cabo tal acto: se os monárquicos, se as tropas republicanas. De facto, se os monárquicos queriam suster o avanço republicano a sul do Douro, estando as tropas de Abel Hipólito, governador civil de Viseu, na margem de Cinfães, também a estas interessava conter o movimento monárquico na margem norte. De qualquer forma, como a História é frequentemente escrita pelos vencedores, a República usou os implicados no movimento monárquico de 1919 como exemplos para futuras revoltas, punindo-os em julgamentos pouco claros]. 
Por isso, como professor e historiador, só posso lamentar e repudiar o epílogo que se segue, sobretudo porque escrito e dirigido a crianças:

Contudo, o castigo recai sobre os "maus" e são presos os autores de tal acto. Mas a República conseguiu sobreviver até aos nossos dias. Por isso, é com sabor republicano que estamos a celebrar o centenário da República.

Realmente, e como vivemos em República, alguma historiografia e alguns estoriadores têm qualificado os republicanos como os "bons" e os monárquicos, os "maus". Esta visão maniqueísta, não só compromete a nossa História, mas contribui para a deseducação. Em História não há bons, nem maus. Existem factos, registados em documentos, que o historiador interpreta, tão-só.
A má qualidade informativa, gramatical e histórica deste texto anónimo, mas da responsabilidade da Câmara Municipal, instituição pública que superintende à Cultura e a Educação no município, só se anula, em parte, pela sua reduzida dimensão. Neste caso, pode dizer-se que a ignorância foi uma benção. Mas até quando poderá continuar a subsidiar-se o mau, o desinformativo, o tendencioso? Até quando poderá alimentar-se a Cultura a chavões, a Educação com palavras vãs, e o Turismo com paisagem, gastronomia e artesanato? Se a História é alma de um povo, parece que cada dia que passa, nos tornamos um simples corpo vazio, desmoralizado, tristemente pobre e andrajoso...



Nota 1: Adesivo foi o nome encontrado pela comunicação social para designar os monárquicos que, para acederem a cargos públicos ou políticos, se fizeram republicanos, após o 5 de Outubro de 1910.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Documentos etno-musicológicos de Cinfães (Nespereira e Piães) na colecção Giacometti.


A colecção que reúne a filmografia completa de Michel Giacometti, recentemente lançada pela RTP e pelo jornal Público, inclui um volume dedicado, em parte, a recolhas musicais efectuadas por aquele etno-musicólogo, nas freguesias de Nespereira e Santiago de Piães. O que terá levado Giacometti e a sua equipa a deslocarem-se à serra de Montemuro para gravarem os cramóis e a chula em Córdova (concelho de Resende) e as cantigas de trabalho, por altura do corte e desfolhada do milho, em Nespereira? Como refere a locução da 4.ª série, programa 11 do "Povo de Canta", foi com certeza o trabalho de Vergílio Pereira (a quem o programa é dedicado) que alguns anos antes havia desenvolvido, no contexto da Junta de Província do Douro Litoral, um intenso trabalho de recolha, registo e tratamento de espécimes musicais na região. Do trabalho deste folclorista, resultaram, para Cinfães:

- BONITO, Rebelo e PEREIRA, Vergílio - As "Cantas" e os "Cramóis" do Cancioneiro de Cinfães como formas arcaicas da etnografia musical. Boletim do Douro-Litoral, 1 (1948) [separata] (imagem abaixo)
- PEREIRA, Vergílio - Cancioneiro de Cinfães. Porto: Junta de Província do Douro Litoral,1950



Mas tanto para Resende, como para Arouca foram preparadas outras edições similares que devem ter chamado a atenção de Michel Giacometti quando, 20 anos depois efectuou um périplo pelo país, na busca e preservação de património musical. Este investigador francês que chegou a Portugal na década de 1960, realizou o maior trabalho de recolha sonora e salvaguarda da musicalidade e literatura dita "popular" alguma vez efectuada em Portugal. Com o apoio do maestro Lopes Graça (que desde a década de 30 vinha participando no estudo das canções populares portuguesas) Giacometti lançou-se num ambicioso projecto, que viria a constituir, entre 1970 e 1973, a base do programa televisivo Povo que canta, onde, de resto, foi transmitido o episódio respeitante às gravações efectuadas em Nespereira e Piães. No volume 09 agora publicado, é possível ler a locução do programa (com informações pertinentes sobre as localidades, história dos espécimes audíveis, ect), assistir às referidas filmagens e apreciar, sem harmonizações, aperfeiçoamentos ou quaisquer edições a música tal qual se ouvia há meio século nos campos e encostas da região. Na falta das gravações efectuadas por Vergílio Pereira, este é, para já, o único documento para o estudo daqueles espécimes musicais. E uma oportunidade para observar gestos, vozes, ruídos, paisagens que a fotografia ou o homem não lograram registar.

Grupo de cantadeiras de Nespereira, Cinfães, Povo que canta, programa 11, (C) rtp/tradusom

Piães, cantadeiras, Povo que canta, programa 11, (C) rtp/tradusom

 Michel Giacometti, com as informantes, ou cantadeiras, em Cinfães
Povo que canta, programa 11 (C) rtp/tradusom

LIMA, Paulo, coord. - Michel Giacometti. Filmografia completa, 09. [Lisboa]: Tradusom Produções Culturais, lda., 2010, ISBN 978-972-8644-26. Nota: colecção integral ou parcial pode ser adquirida nas Lojas do Jornal Público, ou aqui.

Speech by ReadSpeaker