sexta-feira, 2 de dezembro de 2011


O lugar de Fundoais em 1914
Pintura a óleo sobre tela de Lima Machado Pereira (1877-1945).

Bibliografia cinfanense #10


 Alves, Maria José Galhano; Mota, Teresa; Osório, Conceição- Amândio Barbedo Galhano: 1908-1991. Uma vida, uma causa. Porto: CVRVV, 2005. ISBN 972-97940-4-9.

Foi recentemente (2005) lançado um catálogo alusivo à vida e obra do engenheiro agrónomo Amândio Barbedo Galhano (1908-1991) ligado à Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes. Irmão do antropólogo e fundador do Museu de Etnologia em Lisboa, Fernando Galhano (1904-1995) eram ambos descendentes de famílias de Cinfães (mais propriamente do lugar das Pias). Os Barbedos constituíam um clã com certa notabilidade na região. Foram médicos, eclesiásticos, advogados  e comerciantes, nomeadamente alguns deles destacados ourives na cidade do Porto, onde tinham loja aberta na rua das Flores. De um destes ramos de comerciantes, descendia o Eng.º Amândio Barbedo, como ele próprio refere: "Se na família de meu pai havia certas maneiras menos preconceituosas, a de minha mãe era genuinamente burguesa - avô de cepa duriense [*] com loja de ourives na Rua de Flores e avó saída de negociantes de mercearia por grosso na Rua de São João."
Embora o catálogo não refira expressamente a ligação a Cinfães (o que muito nos admira, não obstante publicar-se uma foto da casa dos Barbedos nas Pias, na página 21), certamente que o ambiente rural do vale do Bestança estimilou a sua curiosidade pela agronomia, curso que seguiu e onde singrou numa florescente carreira ligada à vitivinicultura.

[*] Embora se não refira, pode tratar-se de João Pereira Barbedo noticiado n'O Patriota Portuense em 1821: "João Pereira Barbedo, ourives do ouro, morador na rua das Flores desta cidade, declara ser falsa a notícia, inscrita no Astro da Luzitania, de que lhe aparecerem, algumas das peças que lhe roubara, na noite de 23 de Janeiro […], O Patriota Portuense, n.º 48 (1821).

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Uma viagem sem retorno?

1623, Abril, 2, Oliveira do Douro – Manda (testamento) que redigiu Pêro Rodrigues, abade de Oliveira, a pedido de Damião Cardoso, que tencionava partir para o Brasil. 
Arquivo Diocesano de Lamego, Paroquiais, f. de Oliveira do Douro, L.º 2.º (misto), fl. 139 v.º
Aos dous dias do mes de abril anno de mil e Seis/centos e Vinte E tres dentro Em minha casa estando eu / Pero Rodrigues abbade desta Igreja de São Miguel d oliveira apare/ceo Damião Cardoso filho que ficou de Cosme Ribeiro de / Villa nova E disse que elle estava Em todo Seu Siso E que / Se partia para o brasil E que não Sabia do que deos determinaria / que lhe fizesse Estes apontamentos para descargo de Sua Consciença / Ey como Cristão confessava a Santa Fee catholica E sendo / caso que elle fallecesse deixava que qua lhe dissesse quinze / missas repartidas Em tres officios scilicet cada hum de Sinco missas / E hua Seria cantada Com sua obrada E obradasse hum anno / quero dizer desse esmolla para E [...] E os domingos de / Hum anno a Conta de Sua Legitima E sendo Casa que Sua may / fosse morta o remanecente fiquasse a Seu irmão / baltesar Ribeiro E a Sua Irmãa Catarina Ribeira que / partão irmãa mente Isto disse para ante mim Sobre dito abbade / eu Pero Rodrigues a fiz de minha letra E assinei E fui testemunha / E Antonio filho de Antonio Martins da Bouça E domingos fernandes / da Castinheira E fis estes apontamentos neste Livro de / defuntos para que a todo o tempo se achasse não se acharão mais folhas

Damião Cardoso
Pero Rodrigues

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Uma cura milagrosa em Alhões.

Os habitantes do concelho de Cinfães, antes e depois de 1855, sempre se encomendaram, a si, à sua família e aos seus animais, a vários patronos e matronas, sobretudo à Virgem, mãe e auxiliadora. E não acorreram apenas aos santuários locais, como o da Senhora das Cales, em São Cristóvão, ou o da Senhora da Assunção, em Ruivais, Ferreiros. Iam multidões de cinfanenses às grandes romarias marianas, fosse a Lamego, à Senhora dos Remédios ou à Senhora da Lapa, nos planaltos da Nave. O caso de milagrosa cura de um cinfanense natural de Alhões, graças à intervenção de Nossa Senhora da Lapa ficou registado como memória de uma devoção que ultrapassou montes e vales:

"Manuel António Corrêa, de Alhões, concelho de Sinfães, achando-se, havia seis mezes, atacado de sezões, recorreu com toda a confiança a N. Senhora da Lapa, promettendo vir visitá-la no dia 11 de janeiro, se melhorasse. Com effeito, desde esse dia começou a trabalhar, e nunca mais foi acomettido d'essa doença. Para esta cura não tomou medicamentos alguns."

FERREIRA, Francisco Pinto, padre - Annaes de Nossa Senhora da Lapa. Lisboa: Papelaria Lá Becarre, 1901, p. 24.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Centenário da República em Cinfães: antologia photographica: #6

Ponte sobre o Cabrum. Postal não circulado (de uma série de imagens da freguesia de Oliveira do Douro, colecção particular, primeiros anos do século XX.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

A importância dos caminhos.

Troço pavimentado de caminho regional, que liga as povoação de Granja (Tendais) a Alhões. Junto ao ribeiro da Gateira, 1997. Fotografia de Nuno Resende (C) todos os direitos reservados.



A serra de Montemuro e, concretamente o município de Cinfães estiveram mais uma vez representados no âmbito da investigação histórica nacional. Na sequência do I Encontro RuralRePort, que serviu para discutir e equacionar o nascimento de uma entidade de Estudos de História da Ruralidade, o historiador Nuno Resende apresentou um projecto intitulado: "Contributos para o estudo, sistematização e salvaguarda dos caminhos rurais." Numa breve lista de intenções, o investigador formulou a necessidade de melhor se conhecer, em termos culturais, artísticos e funcionais, o caminho rural que marcou a paisagem portuguesa ao longo de séculos e que tem vindo a desaparecer, em função do novo ladrilho granítico de tom azul, do asfalto e mesmo do cimento. Nesse sentido foi apresentado um projecto para o inventário, estudo e salvaguarda de percursos regionais (numa primeira fase) na região de Montemuro. Entre os exemplos apresentados de calçadas, pontes e outras infra-estruturas associadas aos caminhos, estiveram alguns tipos trilhos pavimentados ainda conservados em Tendais e Cinfães, e as pontes de Covelas, Soutelo e Ana Loba (Alhões). O blogue História de Cinfães irá dando conta deste projecto à medida que for implementado.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Dicionário Histórico e Biográfico de Cinfães: Lima Machado Pereira.


Está patente, até dia 24 deste mês, no Museu Nacional Soares dos Reis (Porto), uma exposição sobre o mestre pintor Artur Loureiro que marcou o panorama artístico português e australiano de finais do século XIX e primeira vintena do século XX. A mostra integra um espólio variado, grande parte dele inédito, sobre a sua fulgurante, extraordinária e eclética carreira que o levou do Porto à Europa e à Austrália, onde ainda hoje é tido como nome maior da pintura e do movimento arts & crafts. Seu amigo e discípulo foi Lima Machado Pereira, que morou largos anos em Boassas, Cinfães.

António Joaquim Fernandes de Lima (que mais tarde adoptou o nome artístico de Lima Machado Pereira), nasceu na freguesia de Cedofeita, Porto, a 30-12-1877 e faleceu na casa do Oratório, lugar de Lodeiro, freguesia de Oliveira do Douro, a 25-12-1945. Nascido numa família de comerciantes dedicou-se à pintura já bastante tardiamente, sendo seu mestre e amigo, Artur Loureiro quando este vivia já uma fase avançada da sua carreira, como artista consagrado - entretanto regressado da Austrália (1901) para onde fora trabalhar anos antes.
Lima Machado Pereira (assinando já com os apelidos do seu mecenas e cunhado, o Visconde de Machado Pereira, que contribuiu para a sua sustentação em Paris) frequentou as melhores escolas europeias da época, e bebeu na capital francesa todas as influências que esperavam beber os bolseiros ou artistas livres que lá se dirigiam. Porém, a Guerra de 1914-18 obrigou-o a deixar os estudos académicos e a regressar ao Porto, onde prosseguiu a sua aprendizagem na Escola de Belas Artes, sendo então aluno de Marques de Oliveira e Teixeira Lopes.
Escolheu Cinfães para instalar o seu atelier e o seu eremitério.

Na terra que o seu coração e o seu pensamento elegera, lá em cima, nas serranias da proximidade do Douro, ele criara o seu último e verdadeiro ninho. No ponto mais elevado duma colina, entre pinheiros da sua particular simpatia, afastado do mundo, mandou construir uma casa, com espaçosa oficina, onde realizou a maior e melhor parte da sua obra magnífica. § A Casa do Oratório, como passou a chamar-se, era na realidade um encantador retiro de devoção artística. Toda rodeada de árvores a cuja sombra, nas calmosas tardes de verão, o Pintor se acolhia para as estudar e nas telas inteligentemente, amorosamente traduzir, Lima Machado Pereira de tal modo àquele ambiente se afeiçoara que só por absoluta necessidade uma ou outra vez o abandonara. (1)

Foi nesta casa que o pintor faleceu no dia de Natal de 1945 e de onde colheu os motivos, as paisagens e os tipos que incluiu na sua notável obra. Os montes bravios, os pinheiros (tão difíceis de reproduzir nas suas agulhas e padrões irregulares) (2), cenas campestres e alguns modelos das aldeias vizinhas de Fundoais e Boassas, constituíram alguns dos tópicos que, infelizmente, jazem praticamente desconhecidos. Ao seu talento como pintor juntou, também, a capacidade para converter em tridimensionalidade o que registava em tela. Executou inúmeras esculturas, nomeadamente a que imortalizou o filho dilecto de Cinfães, Serpa Pinto, inaugurada em 1946, no principal jardim da vila (3). A sua obra, integral ou fragmentada, depositada na casa do Oratório, tem aparecido à venda em vários leilões, durante os últimos 10 anos, e a sua dispersão constituirá uma perda irreparável a todos os níveis: local, pois as suas pinturas e esculturas são o documento de uma época e de uma região e nacional, já que se eclipsa um testemunho da vitalidade artística do realismo expressivo dos primeiros anos do século XX.


Notas:
(1) LOPES, Joaquim - Actualidade artística portuense. Ocidente, n.ºs 105-108 (1947) 34 e 35.
(2) Foi com a obra Pinheiros velhos, pinheiros novos que ele impressionou os críticos e causou polémica. Este quadro integrou o espólio da Casa Museu Fernando de Castro e está hoje nas reservas do Museu Nacional Soares dos Reis
(3) Sobre a inauguração deste busto, ver o artigo de VENTURA, Jorge - Aspectos de uma homenagem a Serpa Pinto. Terras de Serpa Pinto, n.º 7 (1997), 103-121. A ligação entre Carlota de Serpa Pinto e o pintor Lima Machado Pereira derivava da proximidade entre as propriedades de ambos. Para chegar à Quinta do Paço, proveniente de Mosteirô (a estação ferroviária que servia Cinfães), era necessário passar à porta da casa do Oratório. Ambas as habitações foram, nos anos 20, 30 e 40, lugares de convívio e tertúlia, como esclarece uma crónica do crítico Manoel de Sousa Pinto, em 1922: "Fernandes Lima - Lima Machado Pereira na arte - vive quasi todo o ano em Fundoais, lá para as bandas acidentadas da Gralheira, visinho e conviva habitual do solar da gentilissima Clarinha - essa deliciosa Quinta do Paço, rica dos variados panoramas da Beira-Douro e fértil em horas dum encanto raro", PINTO, Manoel de Sousa - As exposições. A Ilustração Portugueza, n.º 840 (1922), p. 281.

Espólio do Pintor Lima Machado Pereira. Catálogo de "Leilão de Pintura e Escultura Portuguesa". Lisboa: Palácio do Correio Velho, 2002

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Dicionário Histórico e Biográfico de Cinfães: Augusto Brochado

Na foto, um aspecto de Ervilhais, lugar na extinta freguesia de Santo Erício de Nespereira, 
terra da família paterna de Augusto Brochado, (c) NR (2011).



Augusto Pinto Brochado
Valbom, São Cristóvão de Nogueira, 1862-1885.
Escritor e pensador.

Augusto Brochado nasceu a 1 de Outubro de 1862, em Valbom, na freguesia de São Cristóvão de Nogueira e faleceu, no mesmo lugar, 23 anos depois, a 31 de Dezembro de 1885. No entanto, apesar de uma curta existência, o seu nome marcou uma geração e poderia ter integrado o conjunto de pensadores que interveio nos destinos do Portugal de finais de oitocentos se a morte o não tivesse arrebatado quando completava o 4.º ano do curso de Direito.

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quinta-feira, 24 de março de 2011

Bibliografia cinfanense #10: Sinfaníadas.

Sinfaniadas_capa

 Sinfaníadas (capa)

Sinfaníadas é o título de um livro de poesias da autoria de João Baptista Pinto Saraiva (1866-1948) com ilustrações de Alberto de Sousa (1880-1961). Foi editado em 1938 pelo autor (sendo depositária a Livraria Bertrand, em Lisboa) e compõe-se de um proémio e quatro cantos formados por poemas decassilábicos, inspirados assim nas obras clássicas e renascentistas, fazendo, assim, jus à escola parnasiana a que pertencia João Saraiva. O livro abre com uma dedicatória ao Conselheiro Fernando Martins de Carvalho (1872-1947), uma das mais respeitadas figuras do Direito em Portugal durante o Estado Novo, sobre cuja família e casa de veraneio (a quinta de Santa Bárbara, em Cinfães) a obra disserta, intercalando sátiras aos costumes da época e à política, com notas mitológicas e laudações às gentes da terra e à fertilidade do território -«amena região onde em favor os deuses se esmeraram» (Proémio, II).
Durante os anos 30 e 40, primeiros decénios da Segunda República, Cinfães recebeu redobrada atenção por parte de algumas famílias de elite que nela possuíam solar, agora tornado habitação sazonal. Período em que a ideia de ruralidade consagrava o intrínseco espírito nacional, os chalets do Paço, em Fundoais, as casas da Castanheira e da Calçada em Oliveira do Douro, ou a quinta de Santa Bárbara junto à pequena vila de Cinfães, tornaram-se refúgio dos novos senhores do poder, ou a ele ligados, onde acorriam ilustres visitantes do regime, provenientes de Lisboa, de Coimbra ou do Porto, mau grado em redor daqueles solarengos redutos literários e tertulianos, grassar apenas a incultura temporal e espiritual. Foi a época do folclorismo, do pitoresco, do popular, por oposição às elites letradas que educavam o "povo" pelos trajes garridos, as cantas e as danças.
O livro descreve, aliás, esse clima tertuliano, guardado pelo «asilo de Santa Bárbara», ali transposto desde os botequins de Coimbra, decerto frequentados por ambos, poeta e conselheiro, a quem unia, ainda, o facto terem prestado serviços, quer à Monarquia, quer a República.
Embora seja uma obra do tipo laudatório, redigido como homenagem a um mecenas, homem das letras, da cultura e da jurisprudência, Sinfaníadas é uma valiosa obra poética e gráfica, repleta de pequenas e cuidadas aguarelas de Alberto de Sousa, um dos maiores e melhores ilustradores do seu tempo. Desde a imagem da capa, que representa o belo portão da quinta na vila de Cinfães, passando pelos barcos em Souto do Rio (p. 15), até à igreja de Escamarão, ou o canastro estampado na contra-capa (ícones e "bucolismos estado-novistas"), este opúsculo é um excelente documento sobre a forma como um certo conjunto de indivíduos via, fosse de Lisboa, ou de dentro dos muros de uma aristocrática quinta, o mundo rural português dos primeiros anos de uma longa ditadura.

SARAIVA, João, texto / SOUSA, Alberto de, ilust. - Sinfaníadas. Lisboa: [edição de autor], 1938.

sábado, 19 de março de 2011

Breve história da ermida de São Pedro do Campo


S. Pedro Primeiro Chefe da Igreja / ROGAI POR NÓS / Tendais - Cinfães; 31,5x21,9 cm, processo litográfico sobre papel c. 1980?.

«Num extenso planalto deserto e inóspito, onde aqui e acolá crescem tojos e fetos surge surpreendente e em dias de nevoeiro como que nas próprias nuvens a Capela de S. Pedro do Campo. § Junto à capela encontramos pedras antigas, mamoas que eram locais sagrados e tumulares de sociedades e cultos pré-históricos. § Sabemos que a memória do sagrado perdura e se converte, sabemos que Pedro em aramaico significa "pedra", "rocha". § Temos pois aqui, neste entorno, em redor da capela, um espaço sagrado que perdurou no tempo e que hoje é anualmente motivo de romaria. § Da origem da capela não temos registos mas sabemos que no início do século XVIII já aqui, por onde passava uma estrada medieval, se realizava a feira da freguesia de Tendais, e é verosímil que nessa altura a capela já existisse. § Devido à pureza dos seus ares serviu este local também para tratar a tuberculose, sendo que a casa junto à capela, construção do século XIX pode ter servido pata abrigo de doentes ou de passantes ocasionais, para além do apoio do culto. § No vento sopram muitas histórias por este campo, das gentes que o percorreram que aqui enterraram os seus mortos, adoraram os seus deuses, fizeram e desfizeram os seus negócios e onde até hoje S. Pedro, no dia 29 de Junho, é celebrado.»

Este texto pode ler-se num expositor colocado um pouco abaixo da ermida de São Pedro do Campo, na freguesia de Tendais, concelho de Cinfães. Como tem sido apanágio, de Cinfães e de outros municípios do país, a promoção turística é preparada através da colagem de chavões recolhidos em obras de publicistas e monógrafos locais pouco preparados para a interpretação de documentos e para análise histórica. Em vez de um trabalho criterioso de inventário e estudo do património por especialistas (Historiadores, Arqueólogos, Antropólogos), assumem-se textos não académicos e crónicas mais ou menos pessoais, como material devidamente fundamentado. O resultado é este: muitos adjectivos, misturas de conceitos, suposições e considerações supérfluas, com base em leituras “à la minute” que reproduzem frases ou ridículas ou ininteligíveis. Não perderemos muito tempo a dissecar as expressões “pedras antigas”, “locais sagrados e tumulares”, nem sequer as asserções sobre os “bons ares” do local e o possível sanatório que existiria no Campo, para tratamento da tuberculose que, de tão estapafúrdias, não merecem qualquer comentário. Tentaremos abordar, de forma sucinta (até porque não abundam as fontes históricas) e clara, a eclosão e a evolução do culto a São Pedro, no sítio do Campo, planalto hoje marcado pela disseminação incontrolável de aerogeradores eólicos, mas ainda um dos locais de destino (mais recreativo e menos religioso) de muitos cinfanenses e de outros visitantes.

 HISTÓRIA DA ERMIDA DE SÃO PEDRO DO CAMPO

sexta-feira, 18 de março de 2011

Bibliografia cinfanense #9


MELO, Teodoro, frei / transc. de REIS, José António - Textual genealogico de cujos titulos se provam a Arvore dos Morgados de Velludo e Collegio da Baeta [1731]. Porto: [edição de autor], 2010, ISBN 989-20-2227.

Frei Teodoro de Melo, um Religioso do Convento de Cristo de Tomar natural do lugar de Enxertado, concelho de Resende, foi o autor de alguns trabalhos sobre a família e linhagem dos Morgados de Velude ou Veludo. Este vínculo, que recebeu o título de um lugar ainda hoje existente na freguesia de Cinfães foi criado em 1388, por Vasco Esteves de Matos e traduzia-se, no século XVIII (altura em que Frei Teodoro nasceu e viveu), numa poderosa instituição familiar, que superintendia vários direitos  e propriedades no Douro, na Beira e em Coimbra. 
O primeiro morgado, Martim Vasques de Matos viveu, como o pai, por terras cinfanenses e comprometeu-se, pelas cláusulas da escritura de instituição vincular, a zelar pela fábrica e missas impostas na capela de Santo António, adossada à igreja matriz de São João Baptista de Cinfães, - capela essa que ainda hoje existe, embora se trate de uma reconstrução setecentista. Como tal, apesar da uma política matrimonial que os afastou de Cinfães, os Malheiros de Melo (apelidos que tomaram os descendentes dos morgados) tinham neste concelho os seus lugares principais, fosse no pequeno lugarejo de Velude, fosse no panteão da igreja matriz, onde ainda hoje se exibem os vetustos mausoléus dos instituidores. Aqui paravam nas suas deslocações, aqui vinham tratar dos seus negócios e aqui casavam e, como tal, o território era-lhes familiar e com certeza querido. Esta proximidade ditava que os investimentos familiares não fossem apenas privados, num tempo e num espaço em que o planeamento urbanístico quase não existiam, não sendo por isso de admirar que, cerca do ano de 1693, o morgado Manuel Carneiro de Melo, pai de Frei Teodoro, tenha pago a fábrica da nova Ponte das Pias, "instando pela utilidade pública". Não era apenas, uma questão de utilidade pública, era, como no caso da construção da Ponte de Covelas, mais ou menos contemporânea da das pias, uma forma de afirmação nobiliárquica. Mas o investimento em pontes e caminhos, acto comum na nobreza da época, não era meramente simbólico, revertia a favor das linhagens num acesso mais célere a pessoas e bens do seu interesse.
Das obras produzidas por Frei Teodoro de Melo, chegaram aos nossos dias dois códices depositados nos Reservados da Biblioteca Pública Municipal do Porto. O primeiro, por nós já referido: Textual Genealógico de cujos titulos se provam a Arvore de Morgados de Velludo e Colegio da Baeta em tudo, ou em parte, e as mais que se seguirem [1731] (BPMP, Reservados, doc. 701) e um outro, colossal trabalho genealógico sobre os mesmos Morgados de Veludo, intitulado Nobiliário Particular e Prova das Memórias da Casa dos Morgados de Veludo e Colégio da Baeta com as verdadeiras genealogias das Família com que prendem e que dela se derivam até o ano de 1733, (BPMP, Reservados, Doc. 229). Esta segunda obra fazia parte de um tratado que versava igualmente sobre as condições da terra e a origem da nobreza, num exercício comum para a época. Embora alvo de uma incipiente análise histórica e de uma crítica pouco objectiva, pontuada por alguns anacronismos, um apócrafo deste tratado foi  editado pela Câmara Municipal de Resende, sob o estudo do padre Joaquim Correia Duarte ( – Resende no século XVIII. Lamego: C.M.R., 2004).
Mais recentemente veio a lume a edição transcrita  do Textual Genealógico, cuja capa reproduzimos acima. Da autoria do genealogista José António Reis, a edição daquele códice permite lançar luz sobre um vasto leque de anotações potencialmente riquíssimas em termos historiográficos, dado que, ao contrário da maioria dos trabalhos genealógicos da época (de teor mais ou menos laudatório), o Textual reproduz uma súmula de fontes primárias utilizada por Frei Teodoro de Melo para as suas árvores e descendências. Em 563 pontos, o religioso de Tomar exara dados colhidos em escrituras de dote, instituições vinculares, testamentos, tombos, etc, indicando a data, local de produção e arquivamento e sua autoria, frequentemente tabeliães cujas notas se perderam.
É por isso, de saudar a publicação de tão valioso documento para a História Local e Regional, nomeadamente para que seja possível aprofundar o conhecimento do passado de indivíduos ligados a Cinfães e à evolução deste território.
Prós: a edição de fontes constitui, sempre, uma mais-valia para a historiografia;
Contras: a inexistência de índices toponímicos e onomásticos, que dificulta a busca de denominações.
Bibliografia adicional sobre os Morgados de Velude e frei Teodoro:

DUARTE, Joaquim Correia – Resende no século XVIII. Lamego: Câmara Municipal de Resende, 2004;
GAIO, Manuel José da Costa Felgueiras - Nobiliário de famílias de Portugal. Braga: Carvalhos de Basto, 1989– 1990 (título de MATOS, § N2 e PINTOS, § 187 e seguintes).
MENDES, Nuno Miguel de Resende Jorge - Retratos de Terra e de Família. Porto: Câmara Municipal de Cinfães, 1997 (onde, a pp.85 a 91, o genealogista José Cabral Pinto de Rezende disserta sobre um ramo ilegítimo desta família, que subsiste na freguesia de Tendais);
PINTO, Joaquim Caetano - Resende nas letras. Autores, obras, antologia. Braga: [edição de autor], 1985.;
REZENDE, José Cabral Pinto de e RESENDE, Miguel Pinto de - Famílias nobres nos concelhos de Cinfães, Ferreiros e Tendais, nos séculos XVI, XVII e XVIII. Braga: [Carvalhos de Basto], 1988.

domingo, 6 de março de 2011

A República em Cinfães: uma estória mal contada.

(C) Câmara Municipal de Cinfães

A Câmara Municipal de Cinfães lançou, recentemente ,uma Agenda Escolar para 2011 dedicada ao tema da "República", aludindo, embora tarde, aos Centenários comemorados em 2010. Além de informações básicas e algumas trivialidades, o executor desta obra, incluiu uma listagem (de resto incompleta) dos Presidentes da Câmara desde 1855 até hoje, e uma "história" da República em Cinfães. A leitura deste texto, que podia ser proveitosa para os alunos do concelho, alguns deles ávidos por conhecerem a evolução da sua terra, resulta em mais uma triste demonstração de incultura.
Nesse sentido, e utilizando este espaço, tentarei minorar o impacto que tal texto poderá ter na comunidade docente e discente, efectuando algumas notas e comentários ao mesmo. A itálico segue o texto original, a negrito, intercaladas, as minhas anotações:

(C) Câmara Municipal de Cinfães


A partir da reforma implementada por Costa Cabral, em 1842, o concelho de Cinfães obteve os actuais contornos geográficos e administrativos [mentira: a primeira alteração dos limites municipais do velho concelho medieval deu-se em 1836, com o Código Administrativo de Silva Passos] mas só a 24 de Outubro de 1855 é que foi promulgado o decreto-lei que formalizou o decreto-lei que formalizou a constituição do convo concelho. E assim surge, em Dezembro daquele ano, a primeira câmara eleita, do actual concelho. No entanto, não foi pacífica a situação nos anos que se seguiram. [não? e qual a razão? quais os intervenientes? as circunstâncias de tal situação?] Já antes do 5 de Outubro de 1910, Pedro Pinto Miranda, tentou organizar uma força republicana no concelho e consegui a aderência [aderência é para os autocolantes, adesão é para as pessoas] de elementos valorosos [e quem foram esses elementos, e valorosos porquê?]. E, após, a revolução de 5 de Outubro, proclamou a República nos Paços do concelho e indicou ao governador civil os nomes do administrador e dos cidadãos que deviam constituir a comissão administrativa republicana do município [de resto, uma obrigação imposta a todos os municípios pelo novo regime]. Mas os monárquicos continuaram a assediar (escusado o termo) e ocuparam mesmo os cargos administrativos [o republicanismo, em Cinfães, município rural, profundamente avesso ao anti-clericalismo, por muitos "adesivos" (1) que tivesse, era um concelho essencialmente fiel ao regime monárquico deposto, por isso os cargos administrativos acabavam por cair na mão de monárquicos ou ex-monárquicos]. Assim foi em 24 de Dezembro de 1917 quando o Padre José Vieira Gonçalves de Freitas e o seu bando monárquico [aqui não se devia aplicar a expressão pejorativa "bando", dado que se trata de pessoas e não de aves] tomou posse como administrador. A instabilidade do governo de então, levou a que os monárquicos constinuassem "a sua guerrilha; ao ponto de dinamitarem a ponte de Mosteiro [leia-se Mosteirô], para bloquearem a entrada.
[Nova mentira e nova inexactidão: em primeiro lugar não foi a instabilidade do governo de então que levou ao suposto assalto do Padre José Vieira Gonçalves de Freitas; a oportunidade do Sidonismo abriu a porta a muitos ex-monárquicos ou sidonistas para para combater o Partido Democrático que desde 1911 governava o país, apesar da Constituição republicana permitir o multi-partidarismo; em segundo lugar não havia um clima de guerrilha em Cinfães, entre monárquicos e republicanos, como o texto, insidiosamente, faz crer; existiu, isso sim, em Janeiro de 1919, uma adesão muito expressiva, aliás, à monarquia do Norte, ou seja à restauração do Reino de Portugal, com sede no Porto, a que se juntaram os municípios do Norte do país; Cinfães também aderiu na pessoa do Padre José de Freitas. A dinamitação da Ponte de Mosteirô surge na sequência deste movimento da Monarquia do Norte, mas ainda hoje não se sabe quem levou a cabo tal acto: se os monárquicos, se as tropas republicanas. De facto, se os monárquicos queriam suster o avanço republicano a sul do Douro, estando as tropas de Abel Hipólito, governador civil de Viseu, na margem de Cinfães, também a estas interessava conter o movimento monárquico na margem norte. De qualquer forma, como a História é frequentemente escrita pelos vencedores, a República usou os implicados no movimento monárquico de 1919 como exemplos para futuras revoltas, punindo-os em julgamentos pouco claros]. 
Por isso, como professor e historiador, só posso lamentar e repudiar o epílogo que se segue, sobretudo porque escrito e dirigido a crianças:

Contudo, o castigo recai sobre os "maus" e são presos os autores de tal acto. Mas a República conseguiu sobreviver até aos nossos dias. Por isso, é com sabor republicano que estamos a celebrar o centenário da República.

Realmente, e como vivemos em República, alguma historiografia e alguns estoriadores têm qualificado os republicanos como os "bons" e os monárquicos, os "maus". Esta visão maniqueísta, não só compromete a nossa História, mas contribui para a deseducação. Em História não há bons, nem maus. Existem factos, registados em documentos, que o historiador interpreta, tão-só.
A má qualidade informativa, gramatical e histórica deste texto anónimo, mas da responsabilidade da Câmara Municipal, instituição pública que superintende à Cultura e a Educação no município, só se anula, em parte, pela sua reduzida dimensão. Neste caso, pode dizer-se que a ignorância foi uma benção. Mas até quando poderá continuar a subsidiar-se o mau, o desinformativo, o tendencioso? Até quando poderá alimentar-se a Cultura a chavões, a Educação com palavras vãs, e o Turismo com paisagem, gastronomia e artesanato? Se a História é alma de um povo, parece que cada dia que passa, nos tornamos um simples corpo vazio, desmoralizado, tristemente pobre e andrajoso...



Nota 1: Adesivo foi o nome encontrado pela comunicação social para designar os monárquicos que, para acederem a cargos públicos ou políticos, se fizeram republicanos, após o 5 de Outubro de 1910.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Documentos etno-musicológicos de Cinfães (Nespereira e Piães) na colecção Giacometti.


A colecção que reúne a filmografia completa de Michel Giacometti, recentemente lançada pela RTP e pelo jornal Público, inclui um volume dedicado, em parte, a recolhas musicais efectuadas por aquele etno-musicólogo, nas freguesias de Nespereira e Santiago de Piães. O que terá levado Giacometti e a sua equipa a deslocarem-se à serra de Montemuro para gravarem os cramóis e a chula em Córdova (concelho de Resende) e as cantigas de trabalho, por altura do corte e desfolhada do milho, em Nespereira? Como refere a locução da 4.ª série, programa 11 do "Povo de Canta", foi com certeza o trabalho de Vergílio Pereira (a quem o programa é dedicado) que alguns anos antes havia desenvolvido, no contexto da Junta de Província do Douro Litoral, um intenso trabalho de recolha, registo e tratamento de espécimes musicais na região. Do trabalho deste folclorista, resultaram, para Cinfães:

- BONITO, Rebelo e PEREIRA, Vergílio - As "Cantas" e os "Cramóis" do Cancioneiro de Cinfães como formas arcaicas da etnografia musical. Boletim do Douro-Litoral, 1 (1948) [separata] (imagem abaixo)
- PEREIRA, Vergílio - Cancioneiro de Cinfães. Porto: Junta de Província do Douro Litoral,1950



Mas tanto para Resende, como para Arouca foram preparadas outras edições similares que devem ter chamado a atenção de Michel Giacometti quando, 20 anos depois efectuou um périplo pelo país, na busca e preservação de património musical. Este investigador francês que chegou a Portugal na década de 1960, realizou o maior trabalho de recolha sonora e salvaguarda da musicalidade e literatura dita "popular" alguma vez efectuada em Portugal. Com o apoio do maestro Lopes Graça (que desde a década de 30 vinha participando no estudo das canções populares portuguesas) Giacometti lançou-se num ambicioso projecto, que viria a constituir, entre 1970 e 1973, a base do programa televisivo Povo que canta, onde, de resto, foi transmitido o episódio respeitante às gravações efectuadas em Nespereira e Piães. No volume 09 agora publicado, é possível ler a locução do programa (com informações pertinentes sobre as localidades, história dos espécimes audíveis, ect), assistir às referidas filmagens e apreciar, sem harmonizações, aperfeiçoamentos ou quaisquer edições a música tal qual se ouvia há meio século nos campos e encostas da região. Na falta das gravações efectuadas por Vergílio Pereira, este é, para já, o único documento para o estudo daqueles espécimes musicais. E uma oportunidade para observar gestos, vozes, ruídos, paisagens que a fotografia ou o homem não lograram registar.

Grupo de cantadeiras de Nespereira, Cinfães, Povo que canta, programa 11, (C) rtp/tradusom

Piães, cantadeiras, Povo que canta, programa 11, (C) rtp/tradusom

 Michel Giacometti, com as informantes, ou cantadeiras, em Cinfães
Povo que canta, programa 11 (C) rtp/tradusom

LIMA, Paulo, coord. - Michel Giacometti. Filmografia completa, 09. [Lisboa]: Tradusom Produções Culturais, lda., 2010, ISBN 978-972-8644-26. Nota: colecção integral ou parcial pode ser adquirida nas Lojas do Jornal Público, ou aqui.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Proximidades: a "alagoa" de D. João.


Esta montagem fotográfica foi feita em 1996 quando, durante a preparação de um projecto turístico literário para o Montemuro, passei pela Alagoa de D. João. A magnífica depressão, alagadiça e coberta por um manto de várias espécies erváceas e arbustivas, localizada não muito distante da Gralheira e da Panchorra, foi mencionada a voo de pássaro por Eça de Queirós no romance O Crime do Padre Amaro e, com maior rigor, por Abel Botelho no seu conto A Fritada. Em breve aquela magnífica paisagem perderá o aspecto pacífico e selvagem, com a construção de um novo parque eólico. Para memória futura, aqui ficam a fotografias e as palavras de Abel Botelho, a avisar que um dia precisaremos mais da natureza do que hoje da energia que à força lhe retiramos:

"Avançavam cautelosamente per um terreno alagadiço e molle, coberto de herva rasteira e miudinha, e ondes fartas poças de lôdo armavam não raro aos viajantes descuidosos traiçoeiras armadilhas. Era o dorso da Gralheira. Para a esquerda, grande agglomerações caprichosas de urgueiras, verdes e arbustivas, em bellas formações conicas, vegetavam por entre as penhas escalvadas, n'essa promiscuidade gelada dos mausoleus e dos cyprestes n'um vasto cemiterio. Á direita, o terreno deprimia-se gradualmente em desniveis sucessivos, tapetados com abundancia de urzes, de fetos rusticos e de urgueiras, cujo verde, de tons suavemente graduados, marcava nitidamente a espaços a flôr avelludada, amarella ou branca, do sargaço; depois continuava-se n'uma estirada sequencia de valles e corcovas até junto á bacia estreita do Douro, de cujos aprumados contraforeste se avistavam as cristas magestosas, e para além da qual se alteava ainda, azulada e indecisa, a serra do Marão. Na frente, a recortarem-se firmes no azul embaciado de agosto, com uma tinta luminosa e fresca de aguarella, montões gigantes de calhaus pardos de granito, assumindo os mais phantasticos perfis: castellos feudaes arruinados, com torres esborôadas, fossos, barbacans; novellos enormes e redondos, pacientemente dobrados polos seculos; anachoretas esguios, orando curvos e de joelhos, o livro à frente, poisado sobre uma caveira. Ainda na frente, a grande distancia, com o contorno suavisado pola espessura da atmosphera interposta, uma pyramide geodesica de 1.ª ordem, liliputiana, ridicula, mal segura, assentava no craneo angulos d'um cabeço."
BOTELHO, Abel - Mulheres da Beira (contos). Lisboa: Empreza Litteraria Lisbonense, 1898, 147-148.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Um romancista de Cinfães: Guido de Monterey.

Jornal Miradouro, ano 62, n.º 1699, 3.ª série, 25-02-2011, fl. 1


Hoje (25-02-2011), o jornal Miradouro, órgão da imprensa que tem defendido os interesses locais e regionais, brindou-nos com uma imagem do escritor Guido de Monterey, fazendo alusão à sua condição de autor adorado ou detestado. Estou em crer que ninguém de bem "detestará" o sr. Guido de Monterey, dado que é, com certeza, benquisto na sua comunidade e querido pela maioria dos cinfanenses que se habituaram às suas crónicas jornalísticas ou aos seus livros, vendidos por todo o lado, desde livraria a retrosarias. Devo lembrar, aliás, que o primeiro livro que li sobre Cinfães e que despertou em mim o interesse por querer saber mais sobre a minha terra foi o Terras ao Léu: Cinfães.
Os livros de Guido de Monterey, sempre edições do próprio autor, vibram desde a capa até à última página do miolo, por serem profundamente garridos no seu desenho e adjectivados na sua linguagem. De resto, a obra deste escritor, publicista, monógrafo, etc, natural de S. Cristóvão de Nogueira é fecundíssima. Poucos regionalistas da palavra escreveram tanto em tão pouco tempo, editando, lavrando polémicas, guiando turistas por montes e vales, ilhas e cidades e fazendo por escrever história a partir do seu jardim. A sua biografia pode ler-se em várias páginas de grande parte da sua obra, sobretudo a que diz respeito às tais monografias de Cinfães. Quando escreve sobre Cinfães, Guido de Monterey (ou José Rosário Guisande, seu heterónimo) põe sempre algo de si e dos seus nos ensaios e livros que frequentemente inaugura. É famoso, por exemplo, por ilustrar qualquer narrativa com as suas estrelas, estrelinhas e flores, metáforas para as personagens femininas que o marcaram ao longo da sua vida.
Em 1944 passou pelo Seminário Menor, em 1947, pelo Seminário Maior de Lamego e, tendo tentando a Universidade (curso de Direito), logo desistiu, tornando-se um autodidacta da escrita. Num tempo em que a escrita, fosse ela profissional ou meramente recreativa, estava vedado à maioria, Guido de Monterey destacou-se na produção literária do tipo regionalista. Devem-se-lhe páginas realistas de novelas como "Os Bêbados", "Os Penduras", etc, focando tipos e cenários próximos ao autor. No âmbito da História, Guido de Monterey, como se sabe, não é historiador. Como muitos amadores que ao longo dos anos 70, 80 e 90 criaram uma quase escola de monógrafos locais, foi desenvolvendo trabalhos metodologicamente nulos e cientificamente incipientes, que misturam lendas com factos, documentos com divagações pessoais, criando más interpretações e, sobretudo, contribuindo para que a História, já de si complexa, dificilmente seja "lida" por qualquer cidadão, de forma clara e compreensível.
Cabe, porém, destacar a tenacidade do autor e, sobretudo, a sua versatilidade que tem na obra novelística o seu interesse maior e mais grado, quanto a nós. E, infelizmente, nestes quase 70 anos de produção, nunca o município, na pessoa dos seus Presidentes ou da edilidade deu o devido valor à obra deste romancista. Enfim, quando a cultura é um estorvo, tudo atrapalha.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Bibliografia cinfanense #8

 CARDOSO, Manuel - Ó linda Chã (Ferreiros de Tendais - Cinfães). Poemas. [Lamego]: [edição de autor], 1996.

Todas as terras têm o seu poeta. Desde tempos imemoriais, pelo menos desde que o Homem articulou os primeiros sons, que a linguagem cedo terá passado pela poesia, pela mnemónica  - ou seja pela repetição poética de certos acontecimentos. De certa forma, os primeiros historiadores terão sido poetas, recordando eventos e imortalizando cenas de amor, tragédia ou heroicidade. 
Cinfães contará, certamente com um punhado considerável de poetas e poetisas que ao longo dos anos musicaram a labuta com canções herdadas ou de improviso. Nem todas escaparam à morte das gerações, ou ao esquecimento do momento que as tornou efémeras. Felizmente que alguns poetas, como Manuel Cardoso, natural do lugar de Chã, freguesia de Ferreiros de Tendais, deixaram para a posteridade a sua obra. Mais ainda tratando-se de um homem de vários lavores, que cedo deixou a sua terra para procurar ofício  na cidade do Porto. Sabido é que a saudade exalta a veia poética. Talvez tenha começado assim.
O livro de poesia "Ó linda Chã", editado em 1996, com prefácio, selecção e revisão do romancista Guido de Monterey, reúne 154 poemas, quadras que falam sobre saudades, pessoas, casos, lendas, lugares. Não podemos de deixar de assinalar, em tópicos, a semelhança ao livro já aqui citado, Musa Sinfanense. Embora distantes um do outro em quase um século, ambos falam da ausência e da distância.
O livro abre com um prefácio de Guido de Monterey e com um breve texto biográfico, também deste autor. Por ele ficamos a saber que Manuel Cardoso apesar de nascido em Trás-os-Montes, radicada a sua ascendência por terras de Chã. Depois de uma passagem pelo Brasil (o destino de tantos cinfanenses ao longo dos séculos XIX e XX), Manuel Cardoso aprendeu na casa de São José do Porto o ofício de Sapateiro e por aí se fixou, fazendo carreira na famosa Sapataria Pessoa, casa de afamada reputação comercial da cidade que, na iminência de fechar foi adquirida por este industrioso cinfanense. Manuel Cardoso faleceu a 30 de Abril de 1995, sendo o seu corpo transportado até à sua freguesia "natal", Ferreiros de Tendais, onde jaz contemplando a terra que cantou.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O nome Cinfães.

Uma leitora do site "História de Cinfães" questionou-nos sobre porque razão se escreve Cinfães e não Sinfães. De facto a segunda grafia foi, sobretudo, utilizada no século XX, nas variantes Sinfães e Sinfains. Mas erróneamente, já que vinha cortar com uma tradição etimológica medieval e moderna: em 1258, Cinfaes, em 1527, Cynfanes, etc. É com "c" que se faz este topónimo. Passemos a palavra ao etimologista e toponomista, o Doutor A. Almeida Fernandes:

Cinfães: O povoamento nos inícios nacionais, ou seja, de que resultou a povoação actual, fez-se por casais e deu o "burgo", como a Cinfães (Sinfães é escrita errónea) se chamava, hoje a vila desde esse tempo. A origem mais longínqua é uma "villa" Qiff(i)anis, de Qiff(il)a, tendo a nasal final provocado a nasalação, Qin-, que é a que hoje temos, Cin- sobre o concelho e a vila, ver o meu art. Gr.[ande] Enc.[iclopédia Portuguesa e Brasileira], vol. 29, pp. 149-160. (ver 1258 IS 972: " ecclesia de Cinfanes de terra de Sancto Salvatores" estava sob o padroado das ordens do Tempo e do Hospital", e lê-se em IS 973 que "quintana de Sancta Ovaya (Eulália) e "villa de Egregioo et villa de Tuberaes et Portela et Casali et villa de Berudi et Villa Nova et Lauredo de Matto et Lauredo de Jusao et Lauredo de Susao et villa de Cinfaes fuerunt de honor de donno Menendo Moniz" (D. Mem Moniz irmão de Egas Moniz, que com ela compartia segundo as inquirições de 1288. [....]

FERNANDES, A. de Almeida - "Povoações do Distrito de Viseu (origens). Cinfães. Beira Alta, Assembleia Distrital de Viseu, Viseu, vol LXI (2002), 14.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Bibliografia cinfanense: Cinfães. Subsídios para uma Monografia do Concelho, 1954


Disponibilizámos, via facebook, a digitalização de todo o material gráfico publicado em GUIMARÃES, Bertino Daciano R. S. - Cinfães (Subsídios para uma monografia do concelho). Porto: Junta de Província do Douro Litoral, 1954. Trata-se da primeira obra monográfica sobre o município de Cinfães pós-1855. Embora tenha sido escrita com o espírito do Estado Novo, privilegiando, por exemplo, as tradições populares e o folclorismo, consegue reunir um interessante conjunto de documentos históricos, não obstante o seu carácter avulso e, por vezes, cronologicamente descontextualizado. Interessa, sobretudo, o acervo fotográfico publicado (cujos originais desconhecemos o paradeiro) (*), por testemunhar uma época e permitir a caracterização de elementos estruturais arquitectónicos e paisagísticos entretanto desaparecidos. Esta monografia foi confiada a um obscuro publicista e musicólogo do Porto, chamado Bertino Daciano Rocha da Silva Guimarães (nasc. 10-11-1901). Licenciado em Ciências Económicas e Financeira, Bertino Daciano foi professor da Escola Comercial Mousinho da Silveira e director do Instituto de Cegos do Porto. A sua obra é vasta, e entre os vários títulos publicados entre 1921 e 1957, contam-se algumas monografias locais, decerto trabalhos encomendados pela Junta de Província do Douro Litoral que, como todas as congéneres, pretendia estimular sobretudo os estudos etnográficos, tão ao gosto da Ditadura. O frontispício do exemplar que reproduzimos e que integra o acervo da nossa biblioteca, pertenceu a Guilherme Giese, um linguista alemão, especialista em estudos ibéricos, a quem a Junta de Província ofereceu este exemplar, talvez numa das deslocações de Giese ao nosso país.
*Nota: as fotografias foram tiradas ou pertenciam a Nicolau Pinto (fotógrafo profissional de Cinfães), Júlio Bertino (Porto), Jaime de Castro Pinto Bravo  e Dr. Armando de Mattos, etnógrafo ligado à Junta de Província do Douro Litoral.

Património religioso de Cinfães: pagela de Nossa Senhora dos Prazeres.


Três patrimónios: o Património Móvel, o Imóvel e Imaterial. A pagela (com uma belíssima cercadura em estilo Arte Nova); o santuário da Senhora dos Prazeres ou do Senhor dos Enfermos em Macieira (Fornelos) e o culto. Colecção de N.R. É proibida a reprodução não autorizada desta imagem.

Em epígrafe: NOSSA SENHORA DOS PRAZERES / de muitos milagres que se venera na Capela de Macieira / freguesia de Fornelos, concelho de Sinfães; 31,5x21,9 cm, processo litográfico sobre papel [pap. e tipografia Leonesa, Porto], c. 1930?.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Sondagem #1: um ano de blogue.


Durante um ano, sensivelmente desde a abertura deste blogue, mantivemos uma sondagem sobre o que os leitores julgavam deveria melhorar em Cinfães: se as vias de comunicação, se a cultura, se a saúde, se o entretenimento ou o emprego. Em tempos de crise, é natural que a falta de emprego suscite a preocupação de muitos cinfanenses. O que é, de certa forma, incompreensível, é que as estradas continuem a liderar a lista de queixas. Hoje em dia o município está razoavelmente servido de boas vias de comunicação, praticamente todos os lugarejos têm acesso viário, seja por asfalto, seja por empedrado. Talvez o acesso regional ao concelho não seja tão bom como isso, mas é impossível lutar contra a geografia e, como se compreende, não pode haver vias rápidas e auto-estradas para todos os lugares. O país já está estragado e taxado que chegue. Curiosamente muitos se esquecem que, se as estradas trazem progresso, também ajudam ao esvaziar de capital humano... Em relação ao facto do interesse na cultura se encontrar mesmo antes mesmo da saúde e do entretenimento, revela, quanto a nós, que os cinfanenses parecem despertar para a necessidade de promover, conhecer e defender o seu próprio património. De facto, numa região cada vez desprovida de infraestruturas industriais, o turismo é uma forma de prender capitais. Só com um património digno de apresentação e com mensagens turísticas claras, concisas e pedagógicas conseguiremos esse elã. O blogue História de Cinfães é a nossa contribuição para esse desígnio. Obrigado a todos os que nos acompanham.

Nuno Resende

Bibliografia cinfanense: As Memórias Paroquiais de 1758.


CAPELA, J. Viriato e MATOS, Henrique, coord. - As freguesias do Distrito de Viseu nas Memórias Paroquiais de 1758. Memórias, História e Património. Braga: [Universidade do Minho], 2010, ISBN: 978-972-98662-5-8. Preço € 60.


Tendo já saído em Agosto de 2010, não podemos deixar de salientar a importância desta obra para os estudos históricos locais e regionais, nomeadamente para o conhecimento do actual município de Cinfães, no século XVIII. Integrando um projecto que pretende transcrever e analisar todas as Memórias Paroquiais de 1758 de Portugal, este volume (o sexto) contempla o Distrito de Viseu. Foi editado pela Universidade do Minho, sendo o coordenador da obra, o Prof. Doutor José Viriato Capela. Entre a página 221 e a página 258 é possível ler cada uma das memórias produzidas pelos párocos das freguesias do actual município de Cinfães: Alhões (cura Manuel Pinto); Bustelo (sem assinatura); Cinfães (encomendado Heitor Cardoso) (nota 1); Ermida do Douro (Abade Luís Leite Lima); Escamarão (reitor António Pereira de Andrade); Ferreiros de Tendais (abade Manuel Antunes); Fornelos (abade Manuel José Carneiro Rangel); Gralheira (cura Manuel Rodrigues); Moimenta ( pároco José Diogo de Figueiredo); Santa Marinha de Nespereira (abade Abel Monteiro de Carvalho); Santo Erício de Nespereira (reitor Pedro Monteiro Coutinho); Oliveira do Douro (abade Baltasar Manuel de Carvalho Pinto Teixeira); Ramires (sem assinatura); Santiago de Piães (abade Manuel Ferreira da Silva); São Cristóvão de Nogueira (reitor José da Cunha e Gouveia); Souselo (abade Francisco Pereira de Carvalho); Tarouquela (reitor José Carlos de Morais Sarmento); Tendais (abade António Leite Pereira) (nota 2); Travanca (Jorge Garcês de Andrade).
Prós: A transcrição, ainda que depurada da ortografia original, é de fácil leitura; os índices e roteiros onomásticos e devocionais.
Contras: a organização por distrito e municípios pós-liberalismo que deturpa a paisagem administrativa contemporânea da fonte (1758); a actualização da ortografia; os ensaios históricos baseados na divisão diocesana actual; e a existência de bibliografia regional de apoio incompleta; o preço e o peso (o que impede um manuseamento prático...)

NOTAS:
1) Esta Memória fora já transcrita e publicada em GUIMARÃES, Bertino Daciano R. S. - Cinfães (subsídios para uma monografia do concelho). Porto: Junta de Província do Douro Litoral, 1954, pp. 187-203
2) Esta Memória foi transcrita por ROCHA, Arnaldo em "As memórias Paroquiais de 1758 de Santa Cristina de Tendais". Tendedeira, 4 (2004) 5-7. Curiosamente nenhum dos transcritores foi capaz de decifrar a letra do Abade António Leite Pereira no respeitante a uma das respostas do inquérito, a 13.ª quando se questionava sobre as capelas, ermidas e seus respectivos administradores. Quando chegou a vez da de São Pedro, no lugar da Granja, o abade respondeu que desta era administrador o Comendador da Hjlmida, ou seja, Ermida, referindo-se à Comenda de Nossa Senhora da Conceição da Ermida do Paiva a qual ficou como administradora dos bens daquele extinto mosteiro. 
Nota final: as respostas ao inquérito paroquial de Cinfães foram sendo publicados ao longo dos últimos 10 anos pelo escritor novelista Guido de Monterey, nas páginas do jornal Miradouro, mas sem qualquer enquadramento histórico ou devida sistematização. Cremos, por isso que a recém lançada obra da coord. do historiador J. Viriato Capela vem providenciar o manual de consulta e investigação que faltava.

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