quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Bibliografia cinfanense #4


Saíram já as Actas do IV Congresso sobre a Ordem de Cister em Portugal e na Galiza. Sublinhamos o facto de virem a lume, nesta edição, novos dados sobre a presença daquela ordem religiosa no território do actual concelho de Cinfães, nomeadamente em Meridãos, Soutelo, e a Granja, três povoações da freguesia de Tendais. O artigo intitula-se "Escrever História sem palavras: a influência económica e espiritual dos mosteiros cistercienses de Tarouca e Salzedas na serra de Montemuro" e é da autoria de Nuno Resende. Embora se centre numa vasta região entre o Douro e o Paiva, o artigo dedica parte substancial à análise daqueles três casos que revelam a presença e a intervenção monástica a níveis económico e espiritual de e na humanização e no ordenamento territorial do actual concelho de Cinfães. Mais informações, aqui.

sábado, 18 de setembro de 2010

As preocupações de ontem. E as de hoje.

Porto Antigo

«Melhoramentos»

Poucas terras haverá que tanto careçam de melhoramentos relativamente a viação publica, como este concelho.
 
Existem apenas dous trechos de estradas de macadam, um que atravessa a fréguezia de Espadanedo, e penetra nas de Tarouquella e Sozéllo, e outro n’esta villa, que vae terminar em S. Christóvão, proveniente da quinta da Granja, do sr. Pedro de Bourbon. Ha ainda um bocado de poucas dezenas de metros, em Porto Antigo, juncto á ponte de Mosteirô. Tudo isto que é devido apenas ao sr. Conde de Castello de Paiva, é muito pouco para este concelho, onde ha caminhos que são verdadeiros precipicios, e onde e a necessidade de communicações mais commodas muito se faz sentir. A ligação dos trechos de estradas mencionados traria grandes vantagens para o publico, e para o commercio d’esta villa, com a estação de Mosteirô por meio de uma via commoda e por onde possam transitar á vontade os vehiculos: uma estrada de mac-adam que partindo das proximidades do tribunal, para onde a villa tende a deslocar-se, fosse atravessar o Ribeiro Bestança, perto da emboccadura por meio de uma ponte, tinha a grande vantagem de tornar ás povoações de Porto Antigo e Souto do Rio facil a passagem no Bestança, que no inverno sómente se póde fazer em barco. É de tal necessidade esta ponte, que já dous particulares, a ex.mª sr.ª D. Maria, do Souto do Rio, e o sr. Adriano de Serpa, construiram um, n’esse sitio, á custa do seu bolso, a qual foi não ha muito tempo, arrebatada por uma cheia.

Fallando de melhoramentos não podemos occultar que a ligação d’esta villa com Castro Daire traria grande vantagem não sómente ao commercio de Sinfães, mas tambem aos povos de Castro Daire que teriam grande commodidade em se aproveitar d’essa estrada para irem para o comboyo sem terem de dar a volta a Lamego, como fazem agora. (…)
 
A Justiça de Sinfães, 06-06-1897. A fotografia foi extraída de GUIMARÃES, Bertino Daciano R. S. - Cinfães (subsídios para uma monografia do Concelho). Porto: Junta de Província do Douro Litoral, 1954, p. 81, sendo a fotografia da autoria de Júlio Bertino, do Porto.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Dicionário Histórico e Biográfico de Cinfães: A. Cardoso Esteves

António Cardoso Esteves
São Cristóvão de Nogueira, 1886 | 1934
Licenciado em Direito pela U.C.
Administrador Municipal de Castro Daire
Secretário da Presidência do Tribunal da Relação do Porto

O texto que damos aqui à estampa, em formato digital e devidamente transcrito, foi adquirido há alguns anos num alfarrabista do Porto. Artigo anónimo, dactilografado, destinava-se, talvez, a algum jornal local ou regional e ainda que escrito em tom laudatório e hagiográfico é um documento interessante para o conhecimento das relações sociais e do período político de final da Monarquia e transição para a República, cujo centenário este ano se evoca.


(clique sobre as imagens para aumentar)


O Dr. António Cardoso Esteves, nascido no Temporão, lugar da Freguesia de S. Cristóvão de Nogueira, do concelho de Cinfães, foi um democrata convicto que militou no Partido Progressista ao lado de vultos eminentes, de entre os quais haverá que lembrar o "Deputado da Ponte" - o Dr. Amadeu Leite de Vasconcelos - como ele também natural da referida freguesia de S. Cristóvão de Nogueira.

Iniciou a sua carreira profissional em Cinfães como advogado após a sua formatura pela Universidade de Coimbra em 1909, mas em breve ingressou na magistratura, desempenhando funções de Delegado do Ministério Público nos Açores e depois na comarca de Cuba, no Alentejo.

Daqui transitou para o lugar de pólítico de Administrador do concelho de Castro Daire, aproximando-se, portanto, da terra da sua naturalidade, pois são concelhos limítrofes, ambos do Distrito de Viseu.

A sua actividade política dirigira-se sempre no sentido do engrandecimento de toda essa pulquérrima região que lhe servira de berço e que muito amou durante toda a sua relativamente curta existência.

No entanto, os períodos conturbados de antes e a seguir à implantação da República em 1910, a deflagração da primeira Guerra Mundial, e essa época do final duma guerra, que nada resolveu de positivo para a humanidade, e os períodos incertos que se seguiram até à revolta de Braga que culminou com a instauração de um novo regime político, não permitiram que pudesse firmar e afirmar a sua capacidade de homem de acção.
Era, o Dr. António Cardoso Esteves, um político de honestidade e lealdade indesmentíveis, e de princípios firmes, atributos reconhecidos pelos seus próprios adversários políticos.

Quando deixou de ser Administrador do concelho de Castro Daire foi para ocupar o lugar de Secretário da Presidência do Tribunal da Relação do Porto, lugar cujas funções desempenhava quando a morte tragicamente o atingiu em Abril de 1934.
Em todos esses lugares soube granjear amizades firmes e duradouras, porque o seu trato era afável, e sobretudo, a bondade imperava no seu modo de ser e de se conduzir. Tudo isso contribuía para se impôr, como político, à consideração tanto de correligionários como de adversários políticos.
Foi sempre fiel, em quaisquer circunstâncias, ao seu pensamento político, fôssem quais fôssem os regimes ou os governos partidários tão inconstantes no período compreendido entre a implantação da República //

e o advento do regime instaurado após o 28 de Maio de 1926.

Essa sua firmeza de convicções, demonstra o seu caracter digno, que segue em frente por uma linha recta e da qual nada o consegue desviar.

Esta sua firme conduta não podia, naquele conturbado período da politica nacional portuguesa, deixar de lhe criar dissabores morais e físicos, como facilmente se compreende e ainda mais facilmente o compreendem os que viveram nessa época e que ainda tenham a felicidade de viver nesta data.

Sofreu fisicamente, andando "a monte", como então se dizia daqueles que tinham necessidade de se esconder para evitarem ser presos pelas autoridade às ordens dos dirigentes dos partidos adversos então nos "poleiros da governação", e que estendiam a sua influência até às autoridades regionais civis e militares.

Se algumas vezes andou fugido, isto é, escondido, não evitou que também tenha sido detido e estado preso conjuntamente com corregilionários seus às ordens da autoridade civil do concelho.

recordamos alguns desses espíritos liberais que compartilharam com ele as tarimbas da prisão: - o já referido Dr. Amadeu Leite de Vasconcelos, Roque Calheiros, Dr. Cunha, Dr. Arnaldo Reimão da Fonseca, José Ferreira Pinto de Oliveira, e outros...

A política, porém, não representava para ele um trampolim para se alcandorar, mas dado o seu caracter bondoso e justo, procurava através dela que a sociedade encontrasse uma melhor e mais eficiente justiça social.

Teve uma existência curta, falecendo em Abril de 1934 com apenas 48 anos de idade, mas soube impôr-se cirando [sic] amigos, que muito tempo depois ainda o recordavam com amizade, e entre os adversários políticos alguns houve que ainda ha relativamente poucos anos se lhe referiam com palavras respeitosas.

Faz bem recordar pessoas que pelo seu passado tenham dignificado o homem; dar-se a conhecer aos vindouros as lições dessas existêcias [sic] para que possam servir-lhes de modelo e neste caso está a existência da pessoa do Dr. António Cardoso Esteves que acabamos, em traços largos, de referir e de caracterizar.

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