domingo, 18 de outubro de 2009

Dicionário Biográfico de Cinfães: Padre Patrício Correia Peixoto


Padre Patrício Correia Peixoto
Tendais, 1723 - Cinfães, 1799
Paróco de Cinfães, mentor da reedificação da igreja matriz de Cinfães

Lemos recentemente no blogue de um conterrâneo cinfanense que a igreja matriz de Cinfães tinha sido obra de Nicolau Nasoni. O autor do blogue não sabia onde tinha obtido tal informação, mas é seguro que a tenha colhido numa obra monográfica local, destas que continuamente vão deseducando a nossa juventude, com informações históricas incorrectas e um palavreado inócuo que em nada contribui nem para o conhecimento, nem para a educação, muito menos para a salvaguarda do património cultural.
Esses monógrafos amadores, cheios de lirismo, são da mesma cepa dos que espalharam aos quatro ventos que a ponte de Covelas, sobre o rio Bestança, era do românica, quando a mesma ponte está perfeitamente datada de 1762, sendo portanto, um belíssimo revivalismo do período barroco que em nada deslustra a importância da construção. Infelizmente, basta percorrer a internet para perceber que o erro se repetiu até à náusea e provavelmente se repetirá ad aeternum, graças às afirmações categóricas de um ou outro mal preparado "estoriador". Ora se o erro da "deficiente" datação da ponte de Covelas é dos do tipo de palmatória, considerar a igreja de Cinfães como da autoria de Nasoni, - o famoso projectista da torre dita dos Clérigos, no Porto -, pode ser mais difícil de destrinçar para quem não for Historiador da Arte. Sem documentos, apenas com base em conjecturas derivadas da comparação de um outro pormenor, facilmente se atribuem autorias. O facto é que a igreja de Cinfães, bonito exemplar de um barroco regionalista, que se destaca entre as suas congéneres pela graciosidade do enquadramento decorativo do vão principal, foi concluída já Nasoni vivia o seu "canto de cisne".Os historiadores da obra daquele grande pintor italiano nunca incluíram, nem como trabalho documentado, nem como trabalho atribuído, a igreja de Cinfães entre os vários trabalhos executados por Nasoni em Portugal. Contudo, não podemos deixar de frisar a importância arquitectónica deste edifício. Como todos os templos católicos, ele dominou a paisagem local e definiu os eixos de urbanização que a vila de Cinfães conhece hoje. Isto desde o 3.ª quartel do século XVIII, quando foi concluído. Porém, muito antes existia no mesmo local uma igreja mais pequena, que o Padre Heitor Cardoso, em 1758, descreveu nos seguintes termos: tem a dita Igreja coatro Altares a saber o Altar Mor, a donde esta, o Sacrario; e outro de Nosa Senhora do Rosario com a sua Imagem e outro de S. Joam Baptista com a sua Imagem e outro de Sancta Catherina com a sua Imagem e a Igreya nam tem mais que huma só Naue. Talvez fosse este templo o edifício medieval onde o morgado Vasco Esteves de Matos instituiu, em 1388, a cabeça do seu vínculo, numa capela adossada à nave que, transformando-se, chegou até aos nossos dias. E é provável que seja dessa igreja o tímpano agora exposto no exterior, que o padre Alfredo Pimenta conjecturava (erroneamente quanto a nós) ser do período visigótico. Sem dados arqueológicos e documentais, não há razão para excluir a hipótese de ter sido aqui a sede da terra de São Salvador, cujo orago, testemunho da Reconquista, foi depois substituído pelo de São João, o Baptista, pacificado o território - agora em busca de bênção para a fertilidade da terra. Voltaremos, um dia, a este tímpano e ao seu percurso histórico. Para já interessa saber quem foi o mentor do projecto da actual igreja de Cinfães e conhecer um pouco mais sobre a sua construção e valor artístico.
O Padre Patrício Correia Peixoto nasceu lugar do Cabo, termo da aldeia de Quinhão, da paróquia de Santa Cristina de Tendais, nos primeiros dias do ano de 1723. Foram seus pais Bernardo Correia Peixoto, do mesmo lugar de Quinhão e Maria Rodrigues, de Mourelos. Por via paterna descendia o pequeno Patrício do Doutor Mateus Peixoto de Sá, que fora Ouvidor da Casa de Bragança e, segundo alguns autores, secretário de Estado do rei Filipe II. Como veio tão ilustre família para Tendais?

[Continuar a ler...]

Speech by ReadSpeaker