terça-feira, 11 de outubro de 2016

«Evocação», por Fernando Galhano (1989)



Ilustração I - Veiga de Oliveira e Galhano nos caminhos de Cinfães? Publicado em Galhano, 1989: 188.

Fernando Barbedo Galhano (1904-1995), etnólogo e investigador destacado do século XX português, irmão do engenheiro Amândio Galhano, ambos filhos de Fernando Galhano e de Maria José Barbedo, embora natural do Porto, estava ligado a Cinfães pela família materna.
Os Barbedos, documentados junto à foz do rio ou da ribeira do Bestança desde o século XVII, destacaram-se pela sua notável ascensão social e derivação em linhas sanguíneas (cruzando-se, por exemplo, com os Semblanos) em destinos diversos, tendo um dos ramos principais fixado a sua residência no lugar das Pias, a montante do Bestança. Povoação importante pela sua localização próxima ao Douro, no cruzamento de velhas estradas medievais, o lugar foi sempre propício à movimentação, ao burburinho e ao cruzamento entre indivíduos.
Assim o descreve, com  olhar atento, mas também nostálgico, o etnólogo Fernando Galhano quando em 1989 prestou homenagem ao companheiro de investigação Ernesto Veiga de Oliveira que, com ele, calcorreou alguns dos caminhos de Cinfães.
O texto descreve alguns dos assuntos que mais interessavam ao etnólogo Fernando: os caminhos, as práticas sociais, o território, as habitações, etc. A geografia que mapeia através da sua «Evocação», é a da zona Ribeira, centrada na sua aldeia de Pias por oposição a uma misteriosa, agreste e longínqua serra, que começava em «Tendais». Irá explorá-la com amigos e fixará na Gralheira, como de resto alguns antecessores das ciências históricas, arqueológicas e antropológicas, como José Leite de Vasconcelos, a sua principal atenção, «uma terra familiar e querida».
Fernando Galhano escreveu, sozinho ou em colaboração, vários e importantes estudos sobre temáticas do mundo da antropologia em Portugal, nomeadamente: O carro de bois em Portugal (1973); Construções primitivas em Portugal (1988); Sistemas Primitivas de Moagem em Portugal — Moinhos, Azenhas e Atafonas (1959); «Casas da zona central do litoral português» (1961); Alfaia Agricola Portuguesa (1976), etc.
A «Evocação» que faz do seu tempo de descoberta e redescoberta de Cinfães - fulcral para a sua formação como homem do olhar e da análise do olhar, é também um relato profundo de uma «magia» que só a memória pode efectivamente preservar.
Segue a transcrição parcial (que a Cinfães diz respeito) do texto publicado em 1989, poucos antes da sua morte:

«Lembro-me de, em pequeno, passar todos os anos, com os meus irmãos, um mês de férias, na casa dos avós, numa pequena aldeia do Baixo Douro, que se avista do comboio, aninhada no vale que sobe muito direito desde o rio à cumeada longínqua da serra do Montemuro.
O cavalito do moleiro esperava-nos fora da estação. E. montados à vez, seguidos das duas mulheres que levavam as malas à cabeça lá fazíamos os 5 quilómetros de macadame branco.
Um rabelo carregava em Porto Antigo: a velha casa do Revolfe. com a sua chaminé estranha, continuava misteriosa e sombria, nas suas paredes sem reboco: e dos poços do Bestança, na volta do Outeiro,  escondidos lá em baixo pela ramagem dos amieiros, só se viam nesgas negras de água. E, por fim, a ponte das Pias, a subida da calçada, a velha casa de cunhais de granito, com as duas grandes salas em baixo, e quartos pequeninos de tecto de maceira,  sótãos escuros debaixo do telhado, e uma grande loja fresca com toneis de vinho sempre vazios. Mas é da cozinha que conservo recordações mais precisas. A lareira com o preguiceiro carcomido, a borralheira onde cantava um grilo que nunca se via, o forno que, no dia da fornada, escancarava a boca vermelha e ardente. A gente que chegava com recados, a caneca de onde se enchia o copo que bebiam, o jantar dos caseiros ou trabalhadores à volta da mesa em dias de trabalho para casa. Pelo postigo da porta, sempre aberto, via-se passar a gente na calçada, e por ele vinham, também, as novidades e bisbilhotices do lugar. Só quando o Silva barqueiro aparecia para receber os fretes, com as ceroulas brancas atadas nos tornozelos, vermelho e pingão, já no fim da volta, trazendo consigo a aventura do rio que corria ao longo no fundo do vale, o prestígio da cozinha baixava na nossa imaginação infantil.
Eram dias felizes! Acabava a maçada das aulas, a repetida caminhada entre a casa e o colégio. Todos os dias eram então uma brincadeira pegada com os rapazes da aldeia, banhos seguidos na água límpida do Bestança.
Caminhos íngremes, de grandes calhaus polidos, levavam-nos a aldeias lá para cima. Pelas escadas de pedra metidas nos socalcos chegávamos às uvas melhores, às nêsperas mais doces, e ao Bestança que corria, cortado de açudes, com a música monótona e constante a servir de fundo às vozes do vale, chamamentos agudos de mulher, gritos de miúdos como nós, o raro chiar de um carro, ou o «canto, que as moças «botavam», ao juntarem-se para irem em grupo buscar, lá mais de cima, dos lados dos Tendais, fruta ou madeira à cabeça (1).
O Patrício era o homem que mais admirava na aldeia. Filho de um antigo caseiro do meu avô, continuava a amanhar alguns campitos perto da povoação. Morava logo abaixo da casa, e bastava um berro para ele chegar à cozinha. Qualquer coisa que era preciso ir buscar à vila, um recado a lugares dos arredores, ele lá ia, sempre bem disposto, o chapéu de abas viradas para cima, a racha de lodão na mão. Os oito filhos que teve todos permaneceram na terra. Uma das filhas ainda ficou a servir uns meses no Porto, mas voltou. Outra, empurrada pela família, chegou a tentar o mesmo: chegou ao Porto já triste e macambúzia; atravessou a pé a cidade olhando desconfiada as ruas, as gentes e os carros; e só na Boavista perguntou a quem a tinha ido esperar, apontando um eléctrico, «o que eram aqueles palanques a andar». Na semana seguinte voltou para a terra. Dos netos creio que não ficou nenhum por lá.
Da nossa aldeia via-se, lá muito ao longe, o casario de Alhões, e ainda mais para lá, vagamente, o pequeno muro da capelinha das Portas.
Era de Tendais para cima que começava a «Serra». Para a gente da ribeira a serra era uma terra agreste, onde caía neve, sem mimos de horta, nem fruta nem vinho, onde raramente iam. E o Patrício falava dos montes da Gralheira e de piornais e uma ou outra cavada de centeio, um mundo tão diferente do das Pias, sem socalcos, com muitas lameiras sempre verdes, e casas cobertas de colmo.
Teria os meus 17 anos quando pela primeira vez fui à Gralheira. São perto de quatro léguas. Na primeira parte o caminho sobe, sem parar, a encosta íngreme que o esforço de muitas gerações transformou numa escadaria gigantesca de socalcos bordados de uveiras e bardos. Depois os campos entremeiam com tapadas de giestas, deixa-se de ver o vale do Douro, acaba a vide de enforcado, acaba o pinheiro, e entra-se por fim na zona mais plana, de subida suave. Depois um ribeirito, as primeiras lameiras, e por fim a Gralheira.
Estava longe de pensar, nesse momento de chegada e surpresa, quantas vezes ali voltaria, e quanto essa terra se tomaria para mim familiar e querida. Hospedado de entrada na «pensão» do Brasileiro, e depois em casa de família cuja estima ganhara, ali passei temporadas em período indeciso da minha vida. E ali iria encontrar um companheiro que viria a ser meu amigo, amizade que durou inalterável até à sua morte, que quase guiou de certa altura em diante os passos da minha vida, com quem passei dias que são hoje das melhores recordações.
A Gralheira está virada a Nascente, aberta para a grande chã de D. João por onde caçou o padre Amaro, do Eça, durante o seu castigo em Feirão.
Vista dali, a massa compacta de paredes de granito e de telhados de colmo era uma mancha que mal se distinguia da terra (só a igreja e a casa de um brasileiro eram então, e foram até há pouco, cobertas de telha). Por baixo dela, para onde escorrem as águas que lavam o estrume das ruelas, socalcos largos descem até aos soutos de carvalhos que escondem as lameiras. E para cima, para além dos campos mais fraquitos e secos, o Monte, já há muito dividido, com uma ou outra sorte murada e tapadas de giestas, sobe até ao Talegre, o ponto mais alto da serra, com os seus 1280 metros.
A Casa Branca ficava a uns 300 metros da povoação, e era a única construção que se isolava dela. Tinha sido erguida por alguém da cidade, e o nome vinha-lhe do branco das paredes caiadas. Numa das minhas estadias na aldeia instalaram-se nela uns rapazes do Porto. Um deles era o António Jorge, e o outro um primo dele, o Álvaro.
Os passeios pela serra passaram a ser em conjunto, e juntos ficávamos conversando até anoitecer, no terreiro da casa. A essa hora, a vida da aldeia chegava-nos difusa, mas intensa nos brados dos que esperavam o rebanho no largo do cemitério, no estremar do gado, no som estranho que as vozes tomam quando ao escurecer a natureza se cala, no fumo que subia do colmo escuro dos telhados.
Eu ia a correr comer a ceia, e a correr voltava. As paredes e o chão estavam ainda quentes do calor do dia. Sobre o Marão, sem que o trovão se ouvisse, faíscas cortavam as nuvens pesadas. Uma ou outra campainha tilintava nas cortes, na aldeia adormecida. Que saudade!
Há 100 anos atrás, largos espaços da serra estavam cobertos de piornais fechados. Os velhos diziam que para irem a Alhões o caminho seguia em grande parte escondido entre eles; e ainda hoje é aí que se encontram restos vigorosos de uma vegetação bravia que, quando as vagens amadurecem, brilha ao longe como prata.
Em grande parte é esse piorno, e as giestas, a lenha do serrano. Por isso ele o deixa crescer nas tapadas próximas da aldeia. De anos a anos derruba-o arrancando as cepas, trá-lo para o povo onde fica empilhado junto às casas, em montes bem arrumados. A terra é depois cavada, e o ervanço e a lenha miúda são queimados; a cinza era nessa altura o único adubo do centeio que aí semeavam.
A sementeira desse cereal, feita nessas tapadas, ou em cavadas nos montes ou em campos secos de terra mais magra, é um trabalho que se faz aos poucos, sem grandes pressas, entre dias de chuva, e com o frio a anunciar o Inverno. É então que vai começar o período de descanso dos homens, em que pouco mais há que fazer que levar o gado a pastar. Por isso eles engordam, sentados à lareira. A dias límpidos em que do Talegre se vê, muito ao longe, o dorso maciço da Estrela, seguem-se os dias de chuva, pardos e tristes. Farrapos de nuvens passam a correr sobre a aldeia, e ora a escondem num vazio cinzento, ora dissipando-se, deixam ver o colmo encharcado dos telhados e o pingar monótono dos beirais.
Mas logo que o tempo amacia em promessa de Primavera, tudo se prepara para as lavouras do milho. Arados e carros em ordem, não há tempo a perder. E mal o tempo se firma, começa a faina. Pelas portas escancaradas das cortes os cestos de estrume fumegante vão saindo para o caniço dos carros. Por toda a aldeia caminhos fora, é o chiar dos eixos nas treitoiras, e o bradar dos homens ameaçando as vacas. Se a noite é clara, o carrear continua; e já antes do alvorecer começa de novo o gemido dos carros.
As cortes vão ficando vazias. Num campo atrás de outro as grades alisaram a terra, cobrindo a semente. E quando tudo está pronto, os homens estão magros, as vacas mancam, e os carros desconjuntados pedem que olhem por eles.
A janela do quarto, muito pequena, abria para o Nascente. Era o sol que me acordava de manhã, quando batia na cabeceira da cama. Luz clara, lavada, que trazia consigo a vastidão das serras e de Castela, e um ventinho fresco e seco que assobiava nas frestas da vidraça.
De todas as horas do dia, o do acordar com aquela luz pura da manhã é uma das recordações mais vivas que guardo dessa Gralheira da minha juventude. Terra que foi para nós (o António, o Álvaro e eu), sem sabermos então, o incentivo e a escola para as nossas futuras excursões pelas serras do Norte. Dois anos antes da morte daquele amigo, voltamos ali os dois, numa visita de saudade. Fomos com o receio que ela já não fosse a mesma que a nossa recordação guardava. Mas não! Ela permanecia a mesma, e os dois dias que lá estivemos foram dois dias de um retomo feliz à mocidade passada.
Os anos passaram, o António estava já a estudar em Coimbra. A curiosidade de ver outras terras levou-nos um ano a Castro Laboreiro. Deve ter sido a imagem de uma terra medieval bárbara dada pelo Minho Pitoresco que nos levou para ali, nas primeiras férias fora da Gralheira.»
[…]

NOTAS
«(1) Era o tempo do desbaste dos castanheiros que serviam de suporte às vides de enforcado, a morrerem com o mal da raiz. A madeira vinha até ao barco, alguma cortada em tabuões e transportada à cabeça, a maior parte em troncos puxados por bois. Desse transporte a rasto veio o sulco que muitos caminhos mostravam, a meio da largura»

Publicado em Galhano, Fernando - «Evocação». In Baptista, Fernando Oliveira, et al., coord. - Estudos em homenagem a Ernesto Veiga de Oliveira. Lisboa: Instituto Nacional de Investigação Científica, 1989, 187-197.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Alhões em 1747


Aspectos de Alhões (c) Nuno Resende / História de Cinfães | 2015
Alhoens. Lugar da Provincia da Beira, Bispado de Lamego, destricto do Douro, Comarca de Barcellos, Concelho de Ferreiros. Tem vinte e tres fógos, e Igreja Paroquial da invocação de S. Pelágio, a de Jesu, e a de Nossa Senhora. Acha-se fundada esta Igreja fóra do povoado, mas pouco distante, em terra aspera, de penedia bruta, nas portas da serra de Monte de Muro, e por esta causa he o clima da terra aspero, e frio; e por isso só produz centeyo, e caça miuda do monte.O Paroco he Cura, e tem de renda quarenta alqueires de pão, vinte almudes de vinho, e seis mil reis em dinheiro, tudo pago pela Comenda da Ermida.

Publicado em Cardoso, Luiz, padre - Diccionario geografico [...]. Lisboa: na Regia Officina Sylviana, e da Academia Real, 1747, p. 306. Disponível em WWW:

Por ser terra «alfabeticamente privilegiada», a paróquia de Alhões integrou o conjunto de verbetes do primeiro (de dois) volumes do Dicionário geográfico, obra antecessora do inquérito posto a circular em 1758. O Grande Terramoto de 1755 destruiu os documentos em que o padre oratoriano Luiz Cardoso trabalhava para a realização deste trabalho enciclopédico sobre lugares de Portugal.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Brevíssima história de uma aldeia: Pias



PARTE I: a Terra.



Topónimo comum em Portugal, Pias é designação de uma povoação na freguesia e município de Cinfães, na margem esquerda da ribeira da Bestança, a sul do rio Douro.
Implantada numa pequena elevação, entre os 150 e 200 metros de altitude, a aldeia desenvolveu-se ao longo de uma via que, no sentido oeste-este, cruzava a ribeira de Bestança (afluente do Douro) num ponto transitável (a pé?) da sua corrente. Contudo, o caudal imprevisível da ribeira, profundamente violento no inverno, conjugado com a necessidade de assegurar a passagem mais segura de homens e veículos, terá motivado a edificação, na Idade Média, de uma ponte.
A primeira e mais antiga referência a esta estrutura (para já conhecida) encontra-se associada a Dona Branca Pais, mulher abastada que deixou ao Cabido do Porto:

«[…] huma quinta em Sima do Douro digo em Riba de Douro onde chamão as pias a cerca da ponte de bastança […]»[1]

E embora o documento que transcreve a doação seja datado de 1576, refere-se a um legado anterior, talvez do século XIV, que assim atesta a antiguidade da travessia (não sabemos se de madeira ou pedra) existente junto às Pias. O próprio topónimo realça a necessidade de vencer a orografia, marcada por pedras escalavradas, barrocos ou perladas [2].
Deve-se pois, à ribeira, à via e à ponte, a existência e prosperidade de Pias, enquanto aldeia-fronteira no termo da paróquia/freguesia e município de Cinfães.
Em 1527 era povoação pequena, comparada com Travaços, Bouças e Louredo[3]. Enquanto estas tinham acima de vinte moradores (fogos), Pias contava apenas cinco. Talvez assim se compreenda porque não é referida em 1258, juntamente com outras localidades do termo de Cinfães [4].
É possível que o incremento demográfico de Pias se deva ao facto de ser lugar de passagem. Também Louredo, no extremo nascente do concelho, se destacava pela sua localização junto a uma ponte, de origem medieval, ainda hoje conservada. Pias, mais distante das margens do Douro, voltada aos caminhos do vale e da serra, poderá ter despontado mais tarde como burgo numa importante via paralela ao grande rio.
Da época moderna, período de vida económica fervilhante na região duriense, voltamos a ter notícias da travessia – importantes notícias, aliás, que atestam a importância do lugar e da sua ponte.
Efectivamente em 1733 um manuscrito de Frei Teodoro de Melo, natural de Resende, dá conta da destruição, por uma «enchente», de uma «formosa ponte de cantaria», «de próximo reedificada, por ter levado uma cheia a que no mesmo sítio das Pias se havia fabricado antes». A reedificação dera-se quarenta anos «pouco mais ou menos» (antes da memória do autor) e foi-o a expensas do Morgado de Velude, nobre e proprietário de Cinfães, «instando pela utilidade pública»[5].
Assim, em finais do século XVII, a ter existido uma ponte medieval (românica?) sobre ao Bestança, junto a Pias, foi a mesma destruída por uma cheia, tendo sido substituída por outra no século XX, aquando da abertura e construção da estrada nacional 222.
 Em 1758 o abade de Cinfães, certamente por esquecimento, não refere a ponte que é no entanto assinalada pelo seu congénere de Oliveira do Douro, quando alude aos cursos de água da região:

«[…] o Ribeyro chamado Bestança que tem Sua orige na freguezia de Tendais, e Se vem despinhando pella Freguezia de Sam Pedro de Ferreyros, e Fica correndo o dito Ribeyro para o Rio Douro entre Symfaiz, e esta Freguezia de oliveyra, que o mesmo fás Reparticçáo das ditas Freguezias, e nelle há huma Ponte de Pedra no fim de Boassas cittio do Lugar das Pias […]»[6]


Não obstante o lapso o reitor de Cinfães, Heitor Pereira Cardoso assinala o lugar das Pias, associando-o a Vila Pouca, ambos com 46 fogos – o terceiro «lugar» em população da freguesia e município, a seguir a Vila Viçosa, Travassos e Bouças[7].
No século XVIII o outrora pequeno lugar tornara-se povoação importante e atractiva para pobres e ricos, remediados e abastados, povo e nobreza, leigos e clérigos, como o padre Manuel Pereira que em 1758 administrava aqui uma «ermida» titulada a São Gonçalo, venerável associado a caminhos e …pontes.

Nuno Resende 

(continua)


NOTAS


[1] Arquivo Distrital do Porto (ADP), Cabido, Datário, fl. 35 v.º
[2] Barrocos e perladas ou preladas (veja-se o topónimo bem próximo às Pias, em Ferreiros de Tendais) são designações vernaculares para lugares associados a rios e ribeiras, onde há poços, pedras de formas extravagantes e até sons peculiares que motivavam a memória e supervivência dos topónimos.
[3] Collaço, João Tello de Magalhães - Cadastro da População do Reino (1527). Lisboa: [edição do autor], 1931.
[4] Baião, António, org. - Portvgaliae monvmenta historica [...]: Inquisitiones [vol. I, parte II, fascículo VII]. Lisboa: [s.e.], 1936.
[5] Documento transcrito e citado em: Duarte, Joaquim Correia - Resende no século XVIII. [s.l.]: Câmara Municipal de Resende, 2004, p. 309
[6] Teixeira, Baltazar Manuel de Carvalho Pinto - Oliveira do Douro [Memória Paroquial de]. Lisboa: IAN/TT, 1758.
[7] Cardoso, Heitor Pereira - Cinfães [Memória Paroquial de]. Lisboa: IAN/TT, 1758.

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